quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Deus não é uma pessoa*


Hopetoun Falls, Austrália
Por Rita Foelker

“Não creio no Deus que recompensa o bem e castiga o mal. Meu Deus cria leis que se encarregam disso. Seu Universo não é regido por ideias em que se deseja acreditar, mas por leis imutáveis” (EINSTEIN, apud JAMMER, 2011, p. 97). Estas linhas, que bem poderiam ter sido escritas por um espírita conhecedor dos princípios do Espiritismo, são de autoria de Albert Einstein (1879-1955) e constam numa entrevista concedida em 1954.
De fato, Einstein era um admirador assumido da filosofia de Espinosa (1632-1677), conhecido pelo seu pensamento panteísta. O panteísmo é uma doutrina que afirma ser Deus, o conjunto de tudo o que existe. Kardec indagou os Espíritos sobre o panteísmo, recebendo deles, como resposta, a noção de Deus sendo um ente distinto, o que nega a concepção panteísta. Segundo o Espiritismo, Deus é causa e, não, efeito, não podendo com este se confundir.
Também não é um consenso que Einstein acreditasse nessa doutrina.
Feita esta ressalva, recordamos de que o panteísmo não foi a principal razão das críticas que se levantaram contra a visão de Einstein sobre Deus. As muitas controvérsias geradas pelo seu artigo “Ciência e religião” (Science and Religion), publicado em 1940, que levaram a repetidos esclarecimentos de sua parte, respostas a cartas e declarações indignadas de religiosos diversos provieram, especialmente, da sua compreensão de um Deus impessoal, que levaria a uma visão de religiosidade distinta daquela predominante na religião institucionalizada. Esta religiosidade se traduzia como a “emoção do mistério”, que se encontra na verdadeira origem da arte e da ciência, gerando reverência e humildade.
Sua opinião era refletida e não se modificou com o passar dos anos. Em dezembro de 1952, ele receberia de uma senhora de São Francisco, Califórnia, um pergunta muito direta: “qual é a sua crença sobre Deus?” A resposta do cientista foi: “a ideia de um Deus pessoal me é completamente estranha e até me parece ingênua” (JAMMER, 2011, p.96).

Deus pessoal

Einstein (1966, apud JAMMER, 2011, p.62) afirmaria em seu ensaio “Aquilo em que acredito”: “Não consigo conceber um Deus que premie e castigue suas criaturas, ou que tenha uma vontade semelhante à que experimentamos em nós.” Ou seja, num Deus pessoal.
Alguns de seus críticos confundiram sua negação do Deus pessoal com uma negação da própria existência de Deus. Outros, porém, manifestaram suas razões para discordância, como foi o caso dos comentários escritos por sacerdotes de diversas religiões para o jornal Hudson Dispatch, de Nova York. O padre Joseph Antliff afirmaria que não leu a matéria, mas que “a concepção que qualquer Deus que não seja pessoal contraria os ensinamentos da igreja católica” (JAMMER, 2011, p.79). O rabino Cohen diria que Einstein “coloca o Ser Supremo tão remotamente distante da esfera da compreensão humana, que torna desprezível Sua influência” (id., ibid.).
O que Einstein propõe com seu Deus impessoal, contudo, pode ser entendido a partir da concepção espírita, segundo a qual Deus é imutável, sua inteligência projetou e sua vontade originou este Universo que funciona perfeitamente desde a sua origem, sendo que ele não age intempestivamente, castigando ou premiando, ofendendo-se ou perdoando, mas apenas expressa sua bondade e justiça infinitas em todos os níveis observáveis e não observáveis de sua Criação, pela perfeição de suas leis.
Os termos que os Espíritos da Codificação utilizam para definir Deus, na primeira questão de O Livro dos Espíritos não o identificam como uma pessoa, mas como “inteligência suprema” e como “causa primeira”, cuja grandeza se reflete nas maiores realizações e nos mais ínfimos detalhes do Cosmos.
Entre as análises feitas das ideias de Einstein no polêmico artigo, destacou-se a que Paul Tillich efetuou em “A ideia de um Deus pessoal” (The idea of a personal God), pela sua profundidade e conclusão plausível. Tillich considera que o mais forte argumento de Einstein em favor de sua posição é a de que um Deus pessoal é incompatível com a interpretação científica da Natureza. Segundo Tillich, “o conceito de um “Deus Pessoal”, que interfere nos eventos naturais, ou que é “uma causa independente dos eventos naturais” faz de Deus um objeto natural ao lado de outros, um objeto entre os objetos, um ser entre os seres, talvez o mais elevado, mas de qualquer forma um ser. Isso, sim, é a destruição, não só do sistema físico, mas, sobretudo, a destruição de qualquer ideia significativa de Deus” (TILLICH, 2012). No que se refere à interpretação científica da Natureza, outros físicos contemporâneos escreveram sobre sua experiência com o mistério por detrás da ordem cósmica. Max Planck, a propósito, encontra o que ele chamou de “ordem cósmica”, enquanto Werner Heisenberg denominou “ordem central”, e David Bohm, “ordem implicada”.
Tillich então conclui que a ideia de um “Deus pessoal” não é um algo em si, mas um símbolo que remete a uma realidade que transcende a nossa capacidade de pensar e conceituar. Fala-se de um Deus pessoal, como se ele fosse “alguém”, pela incapacidade de se compreender aquilo que Deus verdadeiramente é. Mas esse Deus pessoal não existe, ele é só um “jeito de falar e pensar” Deus.

Referências

EINSTEIN, Albert. Science and religion
JAMMER, Max. Einstein e a religião: física e teologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.
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* Texto publicado no site da FEAL - Fundação Espírita André Luiz, em 08/02/2012
Imagem: Wikipedia

Um comentário:

  1. me parece que o cientista percebeu aquilo que kardec sabiamente disse:a verdade é só uma ,é impossível uma verdade contrariar a outra.neste ponto religião e ciência se fundem.

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