domingo, 29 de junho de 2014

Matrix e os modelos mentais

Cada um de nós vive no mundo de sua mente

Por Rita Foelker - Texto inédito


Foto: Divulgação


Matrix (1999, o primeiro e melhor deles) é um filme que continuam reprisando e que continua fascinando plateias.

Ele tem os ingredientes de filmes de sucesso, incluindo efeitos e ação. Mas o que ele aborda, a meu ver, é um aspecto bem sutil da existência humana. Os modelos mentais.

O filme

Entendo que ele tem três pontos decisivos.

O primeiro é o do combate com Morpheus (Lawrence Fishburne), uma combinação de artes marciais em ambiente virtual em que Neo (Keanu Reeves) termina fisicamente ferido.

O segundo ocorre na antessala do pequeno apartamento de Oracle (Gloria Foster), onde um menino (sugestivamente vestido como um monge) brinca com a forma de uma colher e, quando Neo não consegue modificá-la, a resposta é compreender que “não há colher”.

O terceiro é o do confronto com os atiradores em que Neo simplesmente para as balas, antes de atingi-lo. Numa cena anterior, no terraço de um prédio, ele havia desviado dos tiros, mas agora ele ultrapassa seus conceitos anteriores e acontece um tipo de “iluminação”, onde ele realmente percebe que aquele momento é criado por um programa que está rodando. A verdade é que “não existem balas”...

Tudo é sobre um modelo mental: um modo de “saber” como a realidade funciona e o modo como isso condiciona comportamentos.

Percepção e realidade

Nossa percepção do mundo é um modelo mental, feito de pequenos modelos mentais de objetos e situações que compõem um conjunto complexo a ponto de nos convencer de que o que pensamos é absolutamente real.

É árduo, o processo de compreender que a realidade não é o que está na nossa cabeça. Desse modo, se consegue transcender o modelo.

Em sentido inverso funciona um programa de computador com uma “interface intuitiva”. Ele reflete o modo como a nossa mente funciona, para facilitar o uso. Não vou seguir por esse assunto agora, só lembrar que Matrix era assim, intuitiva. Descobrimos em Matrix Revolutions (2003) que a versão original do programa, em que a vida era maravilhosa e todos eram felizes falhou (não convenceu?) e então o Arquiteto criou outras, até chegar àquela que era baseada em aspectos da psique humana, na qual as pessoas possuíam vidas que eram capazes de aceitar e em que podiam crer...

O professor Donald Norman entende que um modelo mental é um conjunto de crenças sobre como o sistema funciona e dentro do qual interagimos com a realidade.

Talvez a vida virtual nos atraia tanto na medida em que ela corresponde ao que esperamos e cremos. Nesse sentido, ela de certo modo confirma o sentido do “domínio do simulacro”, de Baudrillard, a ideia de que é possível passar a viver numa simulação do mundo que é tão eficiente, a ponto de não mais sabermos o que é real ou não.

O fato é que cada um de nós vive no mundo de sua mente, desafiado pelas circunstâncias da vida exterior a ampliar seu entendimento e melhorar suas ações. Por isso, as aparências enganam: porque nossos modelos são imperfeitos. Por isso, somos surpreendidos por notícias e fatos que chocam e contradizem o que pensamos.

Num curioso experimento apresentado no programa “Truques da Mente” (NatGeo) foi pedido a um grupo de estudantes universitários que desenhassem uma bicicleta. Poucos desenharam uma bicicleta capaz de rodar e fazer curvas. Mesmo considerando a dificuldade com desenho, a capacidade de observação da realidade é testada dessa forma e revela que nossa ideia sobre as coisas é diferente de como elas são de fato.

E para mim é muito claro que essa construção mental complexa nos faça eventualmente sofrer. Neo sentiu falta de ar e até sangrou, na luta com Morpheus.

Então, antes de ficar muito ferido(a), é melhor perguntar “o que é real?”...

Ou antes, “qual programa você está rodando?”...

quinta-feira, 27 de março de 2014

Mediunidade não tem manual de instruções

Como faculdade humana, ela apresenta características que podem variar muito de um médium para outro

Por Rita Foelker -  Texto Inédito

Quando adquirimos um televisor na loja, ele vem acompanhado de um manual. Isso, porque televisores são fabricados em série. Todos os aparelhos, de mesma marca e modelo, funcionam igualmente e espera-se que o usuário encontre, no manual, orientações precisas sobre sua operação e controles.

Mas a faculdade mediúnica não pode ser abordada da mesma forma. Não há condutas padronizadas que levem a sentir a presença dos espíritos ou contatá-los e, nem mesmo, sobre como transmitir o que dizem.
A prática da mediunidade durante muito tempo esteve associada a mistério, a rituais ou a certas visões religiosas. Parecia ser algo totalmente dependente de causas e efeitos sobrenaturais, envolvendo pessoas com poderes ou dons especiais, em circunstâncias muito específicas, com formalismos vários. Esse tipo de visão frequentemente contaminou nosso entendimento acerca das reuniões espíritas e dos médiuns, criando padrões de comportamento ritualísticos.

Contudo, a filosofia espírita encara a mediunidade de um modo bastante diferente... Com a publicação de O livro dos médiuns, de Allan Kardec, em 1861, as potencialidades mediúnicas passaram a ser vistas como capacidades humanas naturais, que existem dentro e fora do contexto ritual ou religioso, e que independem de crença religiosa ou filosófica para produzir fenômenos.

Essa naturalidade, no entanto, não padroniza e nem deve levar a entender que a existência da mediunidade em todos os seres humanos significa que ela é igual em todos os seres humanos. Logo, cabe a cada médium entender e aprender a conviver com a sua própria mediunidade.

Desenvolvimento mediúnico natural

O livro dos médiuns contém instruções muito claras para quem deseja bem entender e exercitar a mediunidade. Uma das suas importantes contribuições à compreensão do tema é considerá-la como uma faculdade natural, que deriva de leis presentes na Natureza e que, portanto, não está limitada a certas crenças ou, mesmo, a práticas que visem “concedê-la”, “desenvolvê-la” ou “manifestá-la”.

A rigor, mediunidade é um tipo de sensibilidade que necessita de observação e análise, para ser compreendida e melhor vivenciada, visto ter caracteres distintos de um indivíduo para outro. Aquilo que um médium percebe, o modo como é registrado, física e/ou intelectualmente, o modo como é interpretado e manifestado para outras pessoas está relacionado a características individuais.

Um estudo que oferece um panorama geral da “variedade infinita de matizes” assumidos pela mediunidade está no capítulo XVI da obra citada, “Dos médiuns especiais”. (Destaca-se o termo “infinita”, escolhido por Kardec.) Lá encontramos médiuns para diferentes efeitos físicos e intelectuais; psicógrafos que diferem quanto ao modo como executam a psicografia; médiuns que se distinguem quanto ao nível de desenvolvimento da faculdade; médiuns que recebem mais facilmente comunicações em prosa ou poesia, com maior clareza ou obscuridade nos conceitos transmitidos; que abordam melhor temas filosóficos ou históricos ou, então, temas triviais, incluindo os obscenos; médiuns que são mais lentos ou mais velozes na recepção das comunicações; médiuns que se distinguem por suas qualidades morais, sendo presunçosos, suscetíveis, invejosos, de má-fé, ou então, humildes, devotados, sérios...

Observam-se diferenças também na intensidade dos efeitos que cada médium obtém. E além do mais, dificilmente um médium apresenta um só gênero de faculdade, existindo combinações numerosas possíveis, entre vários tipos mediúnicos, reunidos numa só pessoa.

Em vista disso, O livro dos médiuns não teria como ser um manual de instruções, nem de fórmulas, nem de receitas. Porque mediunidade não se manifesta sempre igual. E, pelo mesmo motivo, quem procura criar fórmulas e receitas para lidar com a mediunidade revela seu desconhecimento sobre a qualidade peculiar da faculdade mediúnica de cada um.

Por meio do estudo e do conhecimento, adquirido em boas leituras, no convívio com outros médiuns e no próprio exercício mediúnico, e pela própria auto-observação, cada qual vai compreendendo que é responsável pelos seus relacionamentos com os espíritos, pelos seus estados mentais e emocionais serem mais um menos influenciados, e, também, pelas comunicações que transmite. Com a experiência, pode aprender a distinguir seus pensamentos e emoções daqueles que provêm da ligação com os espíritos, o que lhe trará um acréscimo em autoconhecimento. Se bem aproveitar a oportunidade, encontrará também nà mediunidade uma condição que contribui para a sua própria evolução espiritual.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alegria das palavras

PF/Rita Foelker


Jean, desenhado por Auguste Renoir

A alegria das palavras surge do esforço de descobrir aquelas que expressam nossas opiniões, que traduzem o que sentimos e descrevem nossas necessidades.

O esforço do aprendizado, contudo, nem sempre é recompensado com essa alegria, porque antes de aprender a falar e escrever sobre nossos anseios, somos preenchidos de discursos esvaziados de sentido, de palavras ocas de verdade e o desencanto nos surpreende... sem ter o que declarar!

As palavras robustas, recheadas de verdade das emoções e de conforto, de razoabilidade e entendimento superior, estão fazendo falta. Mesmo as palavras do Mestre Nazareno se tornaram versinhos decorados como troféus de uma erudição fanática e limitada. Um insulto à mensagem espargida em suas entrelinhas como perfume floral agradável e como líquido que chega à secura das almas para ministrar-lhes novas forças e alento.

Eu gostaria que todas as crianças aprendessem a falar e escrever. Que os adultos recebessem essa oportunidade. Mas, antes disso, que elas e eles descobrissem dentro de seus corações o que é mais importante ser dito. O que é mais preciso. O que é essencial.

E que estas ocasiões de apresentação de redações não fossem apenas uma questão de número de palavras, páginas repletas ou de correção ortográfica, mas de encontro com a humanidade e reconhecimento do humano, sob o qual repousa, às vezes esquecida, a vida do espírito.

domingo, 26 de janeiro de 2014

"If you are going to San Francisco...", sobre os estímulos evolutivos da vida

"...be sure to wear some flowers in your hair." (John  Phillips)

Por Rita Foelker - Texto inédito.
John Phillips (à direita) compôs a canção
que ficou conhecida na voz de Scott McKenzie.





As situações de nossas vidas jamais estarão totalmente sob nosso controle.

Mas também não estarão totalmente fora de nosso poder de ação.

Podemos ir para San Francisco, podemos enfeitar os cabelos com flores, mas não somos senhores do que encontraremos por lá. Pode ser o que esperamos. Pode ser o oposto de tudo que imaginamos.

Assim, não somos aptos a ter e, muito menos, a fornecer garantias plenas de nada. Não sabemos como as circunstâncias evoluirão, até que o momento chegue.

Há sempre uma dinâmica entre o que depende de nós e o que acontece por si, sendo, exatamente este, o espaço do aprendizado e crescimento. É o que estimula a nossa mente, aguça os sentidos e nos desafia. É o que questiona nossas certezas e convida a ampliar nossa visão. São os estímulos evolutivos da vida.

Algumas vezes, nosso apego a crenças e desejos é tão forte, que o estímulo da vida se torna dolorido. Não é que a vida queira nos machucar. Nós é que estamos suscetíveis, ou frágeis, e a sensação é desagradável.

E mesmo quando se costuma ser alegre e grato, alguns acontecimentos, alguns momentos difíceis pelos quais passamos trazem a pergunta: "meu Deus, como é que eu vou poder agradecer por... 'isso'?" É que a dor concentra o foco, perdemos a perspectiva e tudo parece ruim. Mas apenas parece. Isso é temporário.

A resposta e a solução pra esses momentos, contudo, estão na própria vida, pois o que acontece também não fica totalmente fora de nosso poder de ação. Algumas vezes, poderemos escolher o que fazer. Outras, escolheremos o que dizer. Noutras, restará escolher como encarar e o que pensar a respeito, escolher como queremos nos sentir e como vamos prosseguir, a partir de então. Isso pode parecer pouco, mas, de fato, é a parcela essencial de tudo o que vivemos.

Podemos escolher o que pensar, escolhendo pensamentos que nos satisfaçam o entendimento e que façam bem ao coração. E se escolhermos um sentir que não seja possível imediatamente, vamos trabalhar em favor desse sentimento. Várias oportunidades de decidir e agir ainda continuarão disponíveis.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nosso jeito de ser médiuns

Arte digital: Totemical (www.totemical.com)
Por Rita Foelker - Texto inédito

Andei pensando sobre isso e entendo que os bons Espíritos trabalham com a gente da maneira que podem, segundo nossas limitações, e da maneira que nós permitimos.

Isso, se houver uma chance de sintonia, se não tivermos muitas características que os atrapalhem ou impeçam de expressar seus pensamentos e intenção por nosso intermédio.

Eles não nos escolhem por nos acharem maravilhosos e perfeitos para o que pretendem.

Em geral, eles nos têm alguma simpatia, que pode provir de outras vidas. Ou, então, é simpatia por nosso desejo de progredir e pela sua própria vocação para ensinar.

Assim, sua presença ao nosso lado não significa aprovação total de nosso ser, mas, esperança naquilo a que nos propomos, em termos de serviço, aprendizado e evolução...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A química dos relacionamentos*

Como a vida social desperta atitudes melhores... ou não!
Telhados de BedZed, vila sustentável na Inglaterra.

Por Rita Foelker

A vida social tem uma razão de ser, assim como os relacionamentos humanos. Entre chefe e subordinado, pais e filhos, professor e aluno, entre irmãos, colegas, familiares, vizinhos, amigos, quer seja em duplas, trios ou grupos, encontraremos um propósito que atende à evolução de cada espírito neles envolvido.
Carl Gustav Jung (1875-1961) escreveu em A prática da psicoterapia (Vozes) que “o encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação”.
As reações “químicas” geradas são únicas. Tão únicas que não é difícil perceber que somos diferentes com pessoas diferentes. Algumas parecem despertar nosso melhor; outras acessam nosso pior. Perto de algumas, sentimo-nos afetivos, criativos, expansivos. Outras nos fazem sentir pouco inteligentes, retraídos e inadequados.
As relações humanas dependem do que cada participante conduz para dentro delas, proveniente de sua psicologia, ética, moral, sentimento, vontade, intelecto, intenções, interesses, vivências, expectativas, cultura, valores. Elas podem ser saudáveis ou doentias, agradáveis ou desagradáveis, sinceras ou enganosas, satisfatórias ou frustrantes, numa vasta gama de variações. Por isso é tão importante conviver, para aprendermos com essas diferenças.
O livro dos espíritos não deixa dúvida, na questão 766: “Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus deu-lhe a palavra e todas as demais faculdades necessárias ao relacionamento”. No entanto, o que conduzimos para cada espaço que adentramos? Qual consideramos ser a nossa parcela de contribuição para o meio onde nos encontramos? E o que assimilamos nesse convívio?

De ecovilas a casais

Quando uma comunidade se forma, soma-se mais que as características pessoais de cada integrante. Formam-se vínculos, baseados em normas de conduta, expectativas, objetivos. Isso é nítido ao se visitar diferentes culturas ou comunidades alternativas. Um exemplo interessante são as vilas sustentáveis, como BedZED (sigla que corresponde a Beddington Zero Energy Development, ou “Desenvolvimento com Energia Zero em Beddington”), em Hackbridge, e Container City II, em Trinity Buoy Wharf, ambos em Londres, Inglaterra. As pessoas escolhem morar nesses lugares porque desejam viver de um modo mais sustentável, e isso implica maneiras específicas de lidar com consumo, água, resíduos e energia. Então, se você vai morar lá, algumas de suas ações e hábitos certamente mudarão, ou você se sentirá inadaptado e terá de sair.
O site de Container City II contém um testemunho de uma moradora: “Nós amamos fazer parte de uma comunidade tão criativa – os clientes adoram a construção e achamos um lugar inspirador para trabalhar”.
Juntar pessoas sempre tem consequências para ambos e no meio onde vivem.
Quando um casal se forma, duas pessoas criam mais que a soma de suas características, pura e simples. Existe uma química nos relacionamentos entre casais, uma química única que resulta das interações de ambos. E não se trata do sentido comum desse termo, mais usado para referir-se à atração sexual.
A convivência e o compartilhamento de situações diversas no cotidiano, onde quer que se encontrem, modifica as pessoas.
Mas o Cristo já havia mencionado esta química dos relacionamentos, ao nos deixar a parábola do fermento. “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” escreve Paulo em Coríntios I. Comentando esta passagem do Evangelho, Emmanuel em Fonte viva nos oferece definições oportunas. “O fermento é uma substância que excita outras substâncias, e nossa vida é sempre um fermento espiritual com que influenciamos as existências alheias.” Há referência do autor espiritual a três níveis dessa nossa influência:
Falas. “Nossas palavras determinam palavras em quem nos ouve, e, toda vez que não formos sinceros, é provável que o interlocutor seja igualmente desleal.”
Hábitos. “Nossos modos e costumes geram modos e costumes da mesma natureza, em torno de nossos passos...”
Atos. “Nossas atitudes e atos criam atitudes e atos do mesmo teor, em quantos nos rodeiam, porquanto aquilo que fazemos atinge o domínio da observação alheia, interferindo no centro de elaboração das forças mentais de nossos semelhantes.”
É natural que nossas falas, nossos hábitos e atos surjam da influência que recolhemos no meio onde convivemos, assim como influenciam outras pessoas.  Talvez só falte prestar um tanto mais de atenção ao que expressamos e, também, ao que trazemos do meio compartilhado para nossa vivência diária.

Para saber mais:
- BedZED – Liderando o caminho no desenho de Eco bairros. Site do Programa Cidades Sustentáveis. http://migre.me/fXDoI

- Container City II. Site da Container City (em inglês). http://migre.me/fXCcX

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* Texto publicado na revista Leitura Espírita, Edição 16.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

As janelas da alma só abrem pelo lado de dentro*

Como agimos perante a nós mesmos?

Por Rita Foelker – Para o site FEAL

Somos seres em transformação. A vida é uma descoberta de potencialidades e uma permanente construção de nós mesmos.

Algumas vezes, partindo de decisões melhores, atingimos o bem-estar e uma condição satisfatória para nosso viver. Decisões menos felizes, em geral, acabam trazendo arrependimentos e dores.

Mas isso não é necessariamente ruim. Olhar para nossos arrependimentos serve para perceber que nos transformamos. Olhar para nossas dores nos mostra que ainda somos frágeis. Aceitá-las, no entanto, ajuda-nos a nos sentirmos fortes e capazes de enfrentá-las.

Uma das leis divinas que nos regem a existência é a Lei de Liberdade. A vida é uma professora que nos permite agir, usar nossa curiosidade e impulsos, experimentar para, e somente então, mostrar seu ensinamento. Não pratica a coação e as proibições, só conduz ao nosso encontro com as consequências naturais, para avaliarmos e calibrarmos nossas futuras ações conforme os ideais de justiça, amor e caridade, que pautam um viver mais elevado.

A vida como professora, porém, não é passiva, pois tem mecanismos para nos despertar: a dor e o arrependimento. Ela nos sinaliza, nos aponta direções, pode inspirar pensamentos, palavras e atos.

O que ela não pode fazer é agir por nós... Porque nossa alma é nosso domínio, é nossa morada, onde ninguém pode chegar sem pedir licença. Então a vida nos chama, bate à janela oferecendo luminosidade e entendimento. Às vezes, com insistência. Às vezes, com muita força. Fazendo “um barulhão”, até, se nosso sono consciencial estiver muito pesado, apontando uma necessidade, uma ideia equivocada, um reflexo indesejável do que pensamos, dissemos ou fizemos, necessitado de premente revisão.

Diante do chamado da vida à responsabilidade, podemos agir como nosso melhor amigo: ouvindo-nos com benevolência, compreendendo, perdoando a nós mesmos, incentivando aos passos necessários para a melhoria. Mas noutras vezes, sem a devida clareza, agimos como nossos próprios julgadores implacáveis, tentando nos eximir da responsabilidade, enquanto nos acusamos, criando batalhas mentais que drenam nossas energias e nos mantêm na escuridão.

Sim, é isso o que acontece. E a frase de Jung nos indica a melhor escolha: “Não conseguimos mudar coisa alguma sem antes aceitá-la. A condenação não libera, oprime.”

A janela da alma só se abre pelo lado de dentro. É preciso querer a luz do entendimento, para que ela venha nos ampliar as condições de lidar com o dia-a-dia, aceitando nosso passado para criar nosso porvir.

Encaremos os fatos: temos uma faixa de atitudes possíveis, entre as que revelam nossa mais alta evolução presente e aquelas que desnudam nossa fragilidade. Quando um amigo em dificuldade nos procura, podemos ouvir com nosso melhor, com a compaixão. Ou com aquela tendência, ainda presente em nós, de julgar e condenar. A questão é: como agiremos perante a nós mesmos?

Na caminhada, é preciso acreditar que somos seres com ilimitada potencialidade. Aprender a olhar para nós mesmos com humildade e compaixão, admitindo a vulnerabilidade e os passos equivocados, encontrando a coragem para criar dias melhores em nossas vidas.

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* Texto publicado no site em 14/11/2013.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alguns dentre vós...

Por MT / Rita Foelker – 14/11/13

Alguns dentre vós, absorvidos pelas questões imediatas da vida terrena e verificando os dramas que se espalham por toda parte, dirigem suas questões ao Criador, mas, sem respostas simples e fáceis, entregam-se à descrença. As imagens chocantes de crianças desnutridas em solo africano lhes inspiram piedade, embora a esta nem sempre se siga qualquer ação no sentido de minorar o sofrimento, sequer, de um próximo mais próximo, daquele que, frequentemente, adormece dia a dia sob o mesmo teto.

Mas as razões que procuramos podem ser compreendidas a partir de um ponto de vista mais elevado. Eis que essas pessoas, crianças e adultos a quem hoje faltam os mínimos meios de manutenção da vida carnal, assim o decidiram, por impositivo da própria consciência, escandalizados por, noutras oportunidades, terem aviltado, malbaratado, comercializado, não uma ou algumas, mas vidas humanas em grande número.

Então, tende piedade desses seres em dificuldades amargamente suportadas, mas tende uma piedade esclarecida, consciente e, sobretudo, ativa. O sofrimento na Terra só pode ser reduzido pela decisão e atitude das criaturas que, com determinação e bom sentimento, inteligentemente começarem, cada qual, a olhar por lentes da caridade para aquele ser que, a cada instante, as divinas oportunidades colocam mais perto de si próprios, sem que sequer necessitem dar um passo e, muito menos, atravessar um oceano.



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ainda tentando ser perfeito(a)?


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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A importância de considerar diferentes perspectivas

Por Rita Foelker
– Texto inédito

Há sempre uma multiplicidade de perspectivas para cada fato, cada situação, cada ato. Um modo de verificar isso é observar a maneira como pessoas diferentes contam algo que aconteceu. Ou ver o mesmo acontecimento ser noticiado por diferentes telejornais.

A perspectiva altera a percepção das coisas, sendo um aspecto crucial do que se considera conhecimento. A filosofia do conhecimento a enfrenta como um problema interessante. Alguns filósofos – os relativistas – dizem que tudo, em termos de conhecimento, é perspectiva. Nada existe, além dela. Já os essencialistas acreditam que as coisas são algo, em si mesmas, independentes de nossa perspectiva. Mas aqui não vou teorizar sobre a perspectiva, apenas reconhecer que ela existe e que não escapamos dela, nem em considerações teóricas, nem na vida prática.

Na vida prática

Em nosso cotidiano, a percepção da perspectiva é importante.

Primeiro, compreendendo que aquilo que pensamos ou acreditamos ser verdade, é parte da nossa perspectiva pessoal. Não é uma verdade obrigatória para todos.

Depois, valorizando o direito do outro, de ter a sua própria perspectiva, opinião ou apreensão das coisas. Nosso modo de pensar e de ver não é gratuito, ele tem uma história dentro de nós, desde outras encarnações até a nossa educação e o meio em que vivemos. O do outro, idem.

E, enfim, percebendo que a perspectiva influencia nosso humor e nossas ações. Segundo o filósofo estoico Epicteto, “as pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas”...

Mas, se há tantas perspectivas quanto seres conscientes, quais delas devem ser consideradas primordiais? Em minha opinião, duas:

A perspectiva do outro. Numa situação específica, envolvendo outra pessoa ou um grupo, além da nossa própria, é importante buscar entender a perspectiva do(s) outro(s). Não vivemos sós e o que dizemos e fazemos afeta pessoas, em torno de nós. Num diálogo, há duas ou várias perspectivas, mas só será realmente um diálogo se todas ou a maior parte delas for considerada. Caso contrário, teremos apenas um conjunto de monólogos.

Além disso, a consideração da visão do outro também repercute no resultado do diálogo e nas ações subsequentes.

A perspectiva do eu mais elevado. A segunda é a perspectiva do Eu superior, que Paul Brunton chama de “eu mais elevado”, o que bem representa a ideia de observar tudo “do degrau de cima”, de um ponto de vista mais alto, amplo e abrangente. Representa também o ponto de vista do nosso “eu melhor”, daquilo que almejamos como meta de melhoria pessoal e espiritual.

De fato, perante cada situação, temos uma gama de possibilidades de agir, da mais egoísta à mais generosa, da mais explosiva à mais paciente, tudo isso, dentro de nosso espectro evolutivo. Agir com maior bondade e perdão, com maior compreensão e serenidade, dentro desse espectro evolutivo, é agir com nosso melhor, cumprindo o nosso propósito na existência. Segundo Brunton, “o estudante precisa ir ao encontro de cada experiência com a sua mente, lembrando seu relacionamento com o seu eu mais elevado e, consequentemente, o propósito mais elevado de todas as experiências. Nunca deve esquecer a aventura na busca da identidade e da consciência, que a vida é.”