terça-feira, 19 de junho de 2012

Querer


http://www.pieway.com

Aymará (Esp.)/Rita Foelker

A vontade é um pássaro ágil e a floresta tem muitas vozes. Um rio tem vozes várias; o vento entoa canções; a noite, seus uivos e pios.


O pássaro segue esses sons, assim como os sons e movimentos da fêmea.


É próprio do pássaro, voar e buscar pousos. Mas seu pouso tem a duração do seu descanso, sem apegos.


A vontade humana, contudo, agarra-se, premida pelo medo, embora tente dar explicações. A vontade humana quer ligar-se às coisas e que as coisas se liguem a si.


O sofrimento das perdas lhe ensinará que a vontade só tem um propósito: conduzir a si próprio pelo caminho escolhido. Pousos são bênçãos da jornada, não são prisões ou gaiolas. A cobiça e o apego serão sempre suas principais armadilhas.


É próprio da vontade, voar, conduzir assim ao céu infinito das possibilidades. Eis seu propósito mesmo de ser.


Há quem creia que a vontade deva viver engaiolada em prescrições e temores. Eu creio diferente: trabalho a vontade mostrando-lhe mais e mais horizontes.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Quando os homens não se sentem suficientemente fortes...


Por H.D.T. (Esp.)/Rita Foelker
Líderes da Primeira Cruzada:
Godfrey, Tancred, Raymond e Bohemund

Quando os homens não se sentem suficientemente fortes e preparados para o embate consigo mesmos, eles costumam fortalecer-se nos embates com seus semelhantes.
Esses embates precisam de um motivo e de uma motivação. O motivo é a inimizade criada por algum tipo de oposição político-ideológica – nas situações mais elaboradas – ou pelo puro interesse pessoal – em escala mais restrita.
A motivação é uma pretensa necessidade inventada e eventualmente inflamada pelos discursos.
Combater o outro é uma espécie de treino de força e habilidade. Tais habilidades não serão perdidas na jornada, embora possam ser mal aplicadas e gerar efeitos que mais infelicitarão que apaziguarão.
A própria palavra do Cristo foi transformada em bandeira, levantando pessoas contra pessoas.
Nesse exercício de insanidade, buscam-se definir quem são os superiores, frente aos inferiores. Os fortes, perante os fracos. Os vitoriosos, enfim, sobrepujando e humilhando os derrotados.
As palavras e a mensagem do Cristo, contudo, assim como as grandes orientações espirituais recebidas pela Humanidade em diferentes lugares e momentos, jamais serão limitadas ao uso dos insensatos. Elas continuarão luminosas e cristalinas, por serem a expressão das verdades contidas nas leis do Amor. O Amor jamais dividirá, jamais escolherá um para ser melhor que outro, jamais aceitará destruir em nome da sua supremacia. O Amor é e sempre foi, em si mesmo, o mandamento supremo e a única efetiva lei sobre como viver.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Perispíritos não ficam tatuados

Por Ariane de Assis Jordão

http://favim.com/image/58432/ 
Os conceitos espíritas são claros e permitem deduções bastante precisas.
O perispírito, ou corpo fluídico do Espírito, é um deles. Quando o corpo físico cessa seu funcionamento e morre, o Espírito liberto da matéria não se torna uma abstração, algo vago e indeterminado. Ele conserva um envoltório que lhe permite sensações (perceber o meio e os outros Espíritos), comunicação (mediante transmissão de pensamentos, entre os desencarnados, ou pela própria mediunidade, com os vivos) e ação (pelo efeito da vontade que qualifica e dirige os fluidos). O perispírito tem ainda a característica da flexibilidade, assumindo formas mutáveis que dependem da crença ou da vontade do Espírito. Quer dizer que no mundo espiritual teremos necessariamente uma aparência, mas esta aparência está vinculada à autoimagem que conservarmos e às fixações, traumas e remorsos ainda existentes. Mas também poderemos aprender a modificar nossa aparência, apresentando-nos da forma que desejarmos, como é comum ocorrer em reuniões mediúnicas.
As propriedades dos fluidos, que explicam as do perispírito ou corpo espiritual, estão fartamente explicadas no Capítulo 14 d’A Gênese de Allan Kardec. Nosso corpo espiritual, não tendo forma constante como o físico, não preserva igualmente rugas, cicatrizes ou pinturas, no estilo das tatuagens. Ou seja, alguém que deseje apresentar-se com suas tatuagens, seja no mundo espiritual ou à vidência dos encarnados, pode fazê-lo, desde que saiba como. E alguém apegado à sua imagem que inclui desenhos tatuados na pele pode mantê-los depois da morte do corpo. Mas tatuagens não estão vinculadas à condição moral, nem selam o destino da alma após a morte do corpo, obrigando tais criaturas a habitarem uma região definida do "Além", ou algo semelhante.
Tatuagens são manifestações culturais. Entre muitos povos, elas estão associadas a profundos significados e expressam tradições, relacionam-se à iniciação e ritos de passagem. Entre nós, ocidentais, elas estiveram por muito tempo vinculadas a prisões e a um estilo de vida marginalizado, mas este vínculo não é real, ele foi forjado em nossos hábitos e pensamentos.
Afirmar que tatuados são enviados para lugares de baixa vibração no mundo espiritual é fruto de um preconceito do nosso tempo, não é o reconhecimento de uma realidade do mundo dos Espíritos. Criar estigmas morais baseados em características exteriores, físicas, demonstra o quanto se está distante da compreensão da verdadeira qualidade dos Espíritos elevados.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O ateu Richard Dawkins e seu livro infantojuvenil*

Por Rita Foelker

Dizem que os cinco sentidos nos colocam em contato com a realidade. Será?...

Como sabemos o que é a verdade? A filosofia se debruça sobre essa questão há mais de mil anos e, ultimamente, a verdade se tornou uma questão epistemológica secundária. As teorias científicas, por exemplo, já não buscam expressar a “verdadeira verdade” sobre as coisas que existem, mas apenas um ponto de vista aceitável perante os critérios que adota para sua confirmação, um ponto de vista que pode modificar-se ou ser superado com o passar do tempo.
Segundo visões atuais, preferencialmente as pluralistas, as céticas e as materialistas, teorias não têm como objetivo chegar à verdade, até porque verdade é um conceito além da possibilidade de investigação científica. Pois então: minha curiosidade foi estimulada quando soube do lançamento da edição brasileira de A magia da realidade: como sabemos o que é verdade, o livro infanto-juvenil de Richard Dawkins e, ao abri-lo, descubro como subtítulo a expressão que se refere exatamente a como conhecemos a verdade. Quis entender qual é a verdade de Dawkins, até porque a ciência hoje em dia evita as inquirições metafísicas, sobre a verdade acerca da origem, a natureza e o propósito das coisas. Mas algumas perguntas que intitulam os capítulos são realmente consideradas terreno metafísico. É o caso de “quando e como tudo começou?” e “por que coisas ruins acontecem?”, mostrando que o desejo de respondê-las continua vivo em muitas pessoas e incita a curiosidade dos jovens a quem o livro se destina.

O que é real?

A marca do cético é duvidar de tudo, até do que parece óbvio. Richard Dawkins não é um cético radical e está preparado para aceitar que certas coisas são, inquestionavelmente, reais – aquelas que percebemos por meio dos cinco sentidos físicos (tato, olfato, visão, audição e paladar). Entre os exemplos de coisas reais, contudo, ele cita um camelo, cuja existência alguém poderia contestar. “Não sei se um camelo existe, nunca vi pessoalmente, cheirei ou toquei um camelo.” Ainda mais hoje, quando os softwares produzem aparências muito convincentes de realidade...
Ao que parece, contudo, para Dawkins, quando entendemos o processo pelo qual uma informação nos chega, é legítimo conceder-lhe credibilidade. Esse é, segundo o autor, o caso dos fósseis, pois, como sabemos o processo e podemos compreender como eles se formam, podemos portanto acreditar que os fósseis são reais, e também assumir que eles significam que os dinossauros existiram no passado da Terra.
As ondas de rádio e TV, que não são acessíveis aos cinco sentidos, também são reais, porque elas emitem sinais visíveis – se transformam em som e imagem. Parece então que, além da percepção direta, a compreensão dos meios e percepção de sinais indicadores fazem parte dos critérios do autor para se atribuir realidade a um evento ou objeto. No entanto, quando se trata de “falar com os mortos”, mesmo que estes deixem provas materiais de sua ação e registros que permitam reconhecer a identidade de seus agentes, Richard Dawkins prefere atribuir esses fenômenos a uma de duas causas – ou charlatanismo, ou boa-fé. Ou a pessoa está dissimulando o fato de comunicar-se com os mortos deliberadamente, ou acredita que é médium e tem capacidade de comunicar-se com eles, mas está iludida.

Como funciona a mediunidade

A mediunidade, contudo, é um processo que muitas vezes deixa registros e possibilidades de confirmação inquestionáveis. Os muitos relatos das psicografias de Chico Xavier e de outros médiuns não partiram de espíritas ansiosos por convencer incrédulos, mas mencionam pessoas que, contrariamente às suas expectativas, tiveram de reconhecer a legitimidade do fenômeno. Um desses casos aparece no filme Chico Xavier (2010), que apresenta o processo de autoconvencimento do diretor de TV interpretado por Toni Ramos, totalmente cético em relação às comunicações dos espíritos.
O livro dos médiuns de Kardec é um completo manual científico para orientar, não apenas a prática mediúnica, mas a avaliação dos seus resultados e a identificação de fraudes e mistificações. Para Dawkins, a fraude e o autoengano seriam as únicas explicações possíveis para as manifestações mediúnicas, mas fica-se então a descoberto para compreender os numerosos casos em que estas não ocorreram.
Contudo, o autor pode talvez mudar de ideia, já que ele mesmo afirma que “a realidade não consiste apenas nas coisas que já conhecemos. Ela inclui o que existe mas ainda ignoramos — e que só viremos a conhecer no futuro, talvez quando tivermos construído instrumentos melhores para auxiliar nossos cinco sentidos”. A abertura mental para novas possibilidades de conhecer, não só com instrumentos que ampliam nossos sentidos, mas com outros sentidos, é o ponto de partida para a compreensão da realidade do fenômeno mediúnico.

A magia da realidade: como sabemos a verdade foi escrito por Richard Dawkins e ilustrado por Dave McKean. Lançamento da Ed. Companhia das Letras, com 272 páginas. Dawkins é um autor conhecido por suas posições antirreligiosas e tentativas de explicar todos os eventos por meio da evolução genética e seleção natural. Escreveu O gene egoísta e O relojoeiro cego, mas ganhou grande notoriedade ao lançar Deus, um delírio. Mesmo com ideias discordantes das visões espíritas, seus textos são bem escritos e simples, podendo ensinar algo a quem se sente atraído pelo universo da produção literária. (R.F.)
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* Esta matéria foi publicada na seção "Leitura da Mídia", do novo jornal Leitura Espírita, Edição 01, do qual sou presentemente responsável pela coordenação editorial.


terça-feira, 3 de abril de 2012

Ver

Visão coletiva, pintura de Alex Grey.
www.alexgrey.com
Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker

A consciência tem sido simbolizada em arte, cultura e religião, pela imagem de um olho. Também o Criador Supremo, em alguns simbolismos, é pensado como "olho que tudo vê", que se relaciona ao significado de 'onisciente' (= que tudo conhece)*.
Visão, visionário, e a popular "visagem", são termos aplicados a situações de percepção além dos sentidos materiais, no que condizem com a ideia de "tornar-se consciente de", desvelar, descobrir, no caso, algo em uma dimensão extrafísica. Passar de um estado de ignorância espiritual ao de conhecimento.
E, de fato, as visões são comumente traduzidas por imagens vistas pelo visionário. Cores, figuras, formas geométricas, lugares e pessoas são descritos. Contudo, essas imagens, embora possuam significado a ser eventualmente desvendado, não traduzem obrigatoriamente a visão real de coisas que existem do modo como são vistas.
Imagens, nesse contexto, podem não ser registros de situações reais.
Num primeiro caso, imagens também são recursos da mente para sintetizar ideias. Imagens podem ser arquétipos coletivos de origem imemorial. A mente recorre aos seus registros desta e doutras vidas para apresentar ao visionário analogias ou vestimentas para aquilo que ele vê mas não pode ser "materializado", quando o que percebe não teria forma visível, nem poderia ser traduzido nos termos com que está habituado.
Mas existe outro tipo de visão, aquelas que são frutos de criações de seres encarnados e desencarnados usando aquilo que se chama às vezes de 'matéria sutil', matéria indetectável pelos sentidos, suscetível de ser moldada por força da imaginação e da vontade. É matéria do tipo que transmite os pensamentos e que auxilia na cura de doenças, incluindo-se as físicas, podendo ser percebida pelos sentidos da alma.
Outro uso correto da palavra "ver" no sentido de ver "espiritualmente", contudo, é conhecido e muito utilizado pelas pessoas que despertaram para sua espiritualidade. São os sinais materiais que, embora possam estar muitas vezes patentes, não são percebidos pela maioria dos seres adormecidos, entorpecidos pela ação da matéria densa. Pois é preciso estar desperto para a espiritualidade para ser capaz de ver esses sinais: o balançar de uma folha, a cor de uma nuvem, o som da água podem ser mensageiros de conceitos muito profundos e sinais de fatos que estão por vir. Nesse caso, embora o que se vê seja um fato dito "material", o seu sentido só é apreendido por quem desenvolveu sua visão espiritual.
Compreendendo que há interrelações entre os aspectos materialmente visíveis e invisíveis da realidade, surge a ideia de ser capaz de "ver o invisível através do visível", em situações de profundo aprendizado pessoal e compreensão ampliada da vida.
Há pessoas que veem desse modo. Esta contudo não é a regra, embora seja uma habilidade passível de aprendizado. Ainda hoje, no mundo da matéria, os seres parecem ver ainda muito pouco, muito pouco mesmo, além de seus desejos egoístas e necessidades de satisfação pessoal.
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*N.M.: Scire, em latim, significa 'saber'.

Meu credo reverso

Por Rita Foelker

Liberdade de crença é um dos aspectos da liberdade individual, garantido também no texto constitucional do nosso país. Liberdade de crença implica liberdade de descrença, pois ter a liberdade de crer só é um direito completo se incluir a liberdade de não crer.
Dessa liberdade, advém a necessidade do respeito à crença alheia, especialmente se ela é distinta da própria. Por respeito à liberdade, então, respeito a crença dos demais seres humanos, sendo ela coincidente ou semelhante à minha, mas sobretudo quando se mostra diferente.
Aprecio igualmente o respeito às minhas crenças, bem como minha descrença nas ideias a que, ao menos por hora, minha razão e sensibilidade ainda recusam crédito.
Estive listando mentalmente as coisas em que não creio e acabei escrevendo este credo reverso:
  1. Não acredito em nada que contrarie frontalmente a razão e a lógica mais elementares. Acredito no poder da razão, porém, até certo ponto: desde que adstrito ao nosso grau de desenvolvimento intelecto-moral. Portanto sou capaz de acreditar também em explicações além da razão e do entendimento, emanadas de inteligências mais desenvolvidas que as nossas. 
  2. Não acredito que qualquer fato, por mais insignificante que pareça, tenha explicações exclusivamente materiais, sejam físicas, genéticas ou ambientais. Não acredito que o acaso possa explicar qualquer coisa ou evento em qualquer situação.
  3. Não acredito em cultura espiritual por si própria, acredito em progresso integral das criaturas. Ou seu conhecimento muda você, ou está incubado para transformações futuras... ou serve apenas para se exibir perante os outros.
  4. Não acredito em educação praticada para gente sentada em carteiras, com giz e lousa. Também não acredito em educação com gente sentada perante tecnologia de ponta, clicando botões. 
  5. Não acredito em crianças índigo, nem cristal. Todas as crianças são mestras e aprendizes.
  6. Não acredito que os tatuados vão para lugares segregados no mundo espiritual. Nossa pele física fica aqui quanto partimos. O desenvolvimento moral é que define nosso futuro após a morte do corpo. 
  7. Não acredito que a Terra seja o único planeta com vida e acredito que muitos de nós viemos de outros planetas.

Li muita coisa boa e instrutiva ao longo da vida, mas minha base e fundamento continua sendo a Filosofia Espírita, aprendida e refletida em leituras, estudos, palestras, seminários, mas sobretudo confirmada em minhas vivências. Assim, em geral, costumo aceitar a possibilidade dos fatos inexplicados e conceitos que não sejam incompatíveis com esta filosofia, mas ela me serve como medida e pedra de toque há cerca de 30 anos, nesta vida terrestre.

sábado, 31 de março de 2012

Ir


Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker



"Ir" é uma palavra cujo significado não é originário do mundo espiritual, mas os visionários e os seguidores sempre pensaram na jornada espiritual como um modo de ir.
Ir é uma ideia que só faz sentido num contexto onde a dimensão espaço-temporal foi configurada e onde seres receberam corpos para percorrê-la. Foi percorrendo planícies e estradas, viajando no dia e na noite, indo para o Norte ou para o Oeste, subindo ou descendo, que os seres aprenderam a usar esses termos para se referirem ao caminho espiritual.
O caminho espiritual, porém, está estritamente relacionado a 'ser' – onde quer que se esteja. E cada criatura que você encontra – a mulher de chapéu na cabeça, o moço de bicicleta, o engravatado – cada criatura pode pensar que sua jornada é uma questão de ir ao mercado, ao passeio ou trabalho, mas tudo não passa de uma questão de ser.
A vida no mundo do espaço-tempo cria analogias para a caminhada fácil e a caminhada difícil, para seguir até o centro ou dele afastar-se, para buscar paz ou confusão, e tudo isto dá ideia de que se está indo a algum lugar fora, mais fácil ou mais difícil de se alcançar.
Mas isto é uma grande ilusão, porque onde quer que o caminhante esteja, entre o Leste e o Oeste, entre o Sul e o Norte, há o ponto central de sua vida localizado em si mesmo, onde ele decide (ou descobre) quem ele realmente é, e a partir daí nada mais ao redor parece o mesmo.
Olhai, então, cada caminhante ao seu lado como uma essência a caminho da descoberta de si mesmo, cada um pensando para onde vai, tomando decisões mais ou menos relevantes para seu futuro, mas caminhando para a mesma descoberta e decisão sobre si, reservada a todos os seres de todos os planos.
Na Terra, pode-se estar perdido no caminho, o que significa “esquecido” na dimensão do ser. E quem se lembra pode, então, auxiliar quem ainda precisa se lembrar de quem é. Aqueles que se lembram não são, por esse motivo, diferentes ou especiais, eles apenas lembram do que alguém esqueceu, como a chave que liga o carro ou o endereço de certo destino.

sábado, 17 de março de 2012

A teia da mente II

Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker

Nos dias que passam, você próprio pode saber que é um prisioneiro da teia da mente.
Você percebe isso por meio dos pensamentos que o capturam e o engolem.
Eles vêm de um lugar que não se consegue identificar, porque é como se estivessem de tocaia aguardando sua distração para atacar. E então eles agarram você de modo certeiro, tornando-se o centro de sua vida e desequilibrando todo o seu sistema, pois o centro de sua vida era para ser a busca da sua alma e, não, a confusão da sua mente.
E quando você se esquece da busca da sua alma, é que você é pego ou pega.
A vida centralizada na confusão da mente é uma vida estranha, insegura e repleta de sobressaltos que assomam aos pequenos incômodos da experiência na Terra. A vida centrada na busca da alma é sempre serena e consciente da luz que mostra o caminho.
O modo de lidar com pensamentos captores, portanto, é saber, não de onde vem o atacante (o que em geral não é possível nesse estado mental), mas o que distrai você da busca da sua alma.
E o que distrai é a sua distância de si mesmo. Porque uma pessoa pode viver a milhares de milhas de si mesma e ainda sobreviver, porém, quanto mais longe, mais fracos os sinais, mais difícil a conexão. Então você precisa de um modo de reaproximar-se de si mesmo e de retomar a busca da sua alma.
Os antigos têm feito isso pelos meios mais conhecidos de alcançar o transe. Mas de fato não há nenhuma garantia de que o transe o leve para o centro de si mesmo, exceto se você desejar humildemente e se sinceramente pedir ao Grande Espírito (Viracocha, Deus, a força superior e bem supremo a tudo, o poder em que você acredita com o nome pelo qual costuma chamá-lo) que o conduza. Mas então, você abre mão do comando, que geralmente já foi entregue à confusão da mente que domina você e faz você crer que tem o controle. E se coloca sob o controle desse poder supremo.
Essa condição é facilmente reconhecível, porque seu amor preenche todos os espaços do espaço e todos os tempos do tempo e lhe permite a perspectiva de infinitude e imortalidade que somente a alma alcança. Ele lhe dará a sensação de ser um com tudo sem deixar de ser você. Ele lhe mostrará a verdadeira importância ou desimportância do seu ruminar cotidiano de pensamentos.
Só assim você pode se prevenir da distração que o torna presa de seus pensamentos e preocupações. Ele lhe dará a visão do tamanho verdadeiro de cada coisa. Ele poderá até ajudá-lo a cuidar dos seus problemas e preocupações, não como um homúnculo diante do maremoto, mas como um pássaro indômito.
O que o preocupa? O que o captura? A natureza dos pensamentos que o capturam serve para que você aprenda sobre onde é premente que se fortaleça. Sua ação tem uma utilidade.
Então, aprenda a usar a sua mente a seu favor e ela irá servir-lhe de ferramenta e escudo, ferramenta para construir-se como um ser mais elevado e escudo para deixar de ser ferido em suas próprias regiões mais frágeis, enquanto não se torna um ser mais fortalecido.


Leia também: A teia da mente.

sábado, 10 de março de 2012

Natureza e sobrenatureza*

Por Rita Foelker

Imagem: Associação Mata Ciliar
O ser humano pertence à natureza ou é uma criatura à parte (talvez, acima dela)? O que a filosofia espírita pensa a respeito? Quais as consequências desse pensamento para o mundo de hoje?

Edgar Morin, abre o primeiro capítulo do livro O paradigma perdido: a natureza humana[i] com algumas reflexões inquietantes. Ele fala de como o ser humano usou seu conhecimento para se destacar da natureza e reduzi-la a objeto, domesticá-la, dominá-la.
Confinamos animais em jaulas; os diferentes, em reservas; edificamos nossas cidades em pedra e aço, fomos ao espaço, compusemos sinfonias e, por algum mecanismo psicológico que persistiu por séculos, passamos a nos acreditar seres sobrenaturais (acima ou fora da Natureza), segundo Morin. Não creio que esta afirmação precise ser comprovada.
Descartes, filósofo da Idade Moderna, começou esse movimento na filosofia ocidental, em suas Meditações metafísicas. Por meio de seu solilóquio que narra as suas dúvidas e sua busca de clareza e distinção do conhecimento, o filósofo aparece isolado das coisas que são objeto de sua investigação. Ele contempla o mundo exterior, cuja existência tenta provar, e passa a enxergar-se como sujeito que visa objetos totalmente separados de si mesmo, os quais pode conhecer e manipular. Morin observa que foi a partir dessas ideias de Descartes que aprendemos a pensar "contra a Natureza", assumindo a missão de subjugá-la e dominá-la como algo a que não pertencemos. Afinal, ela seria apenas uma coisa e nós seríamos seres inteligentes e independentes do que ocorrer com ela.


Modos de ver e de agir

Observamos, hoje em dia, os efeitos perniciosos dessa visão fragmentada da realidade em duas camadas superpostas: sujeito/objeto, homem/natureza, dominador/dominado, eu/os outros. Tal ideia de separação e fragmentação tomou conta de nossos pensamentos e nos tornou reféns de uma concepção equivocada da existência, a qual é importante rever, por razões a seguir.
Outros autores, como David Bohm, observam as dificuldades que essa visão de mundo oferece ao bem estar da humanidade, ao próprio equilíbrio ecológico, comprometendo nossa sobrevivência como espécie. Em Sobre a criatividade, Bohm escreve: “Consideremos, por exemplo, a questão do estabelecimento de um equilíbrio ecológico apropriado. Isso exige que o mundo inteiro, com toda a atividade humana, seja considerado uma unidade integral e contínua. Se as pessoas que estudam ecologia e tentam aplicar seu conhecimento, sem saber, estão comprometidas com interesses econômicos, políticos, sociais ou nacionais próprios ou de seus grupos, como poderiam permitir que o universal seja prioridade em seus pensamentos? Inevitavelmente haverá pressões e uma tendência contínua a se pensar de modo fragmentário, apropriado à necessidade de colocar os interesses individuais em primeiro lugar. E não será possível pensar sobre esse assunto e falar sobre aspectos relevantes à totalidade dos ciclos ecológicos do planeta”[ii].
Quando me percebo pertencendo ao todo da Natureza, penso, sinto e ajo de certa forma; quando me ponho à distância dela, muda meu sentir, meu pensar e minha ação. Ou seja: partindo do que Bohm escreve, temos consequências positivas de se passar a considerar a Natureza como um todo interdependente e a nós mesmos como partes dela.


Visão na filosofia espírita

Aqui, talvez surpreendentemente, encontraremos um ponto onde a filosofia espírita também já estava adiante de seu tempo, no século XIX: a ideia de que tudo pertence à Natureza – incluindo-se os espíritos – e de que não existe nada que seja sobrenatural, pois todas as leis e todos os seres são naturais, e todos os fenômenos se explicam por causas naturais.
No item 10 do capítulo 2 de O livro dos médiuns, lemos que “aos olhos daqueles que veem na matéria a única potência da Natureza, tudo o que não pode ser explicado pelas leis materiais é maravilhoso ou sobrenatural.” Quer dizer que a origem da ideia de uma “sobrenatureza” é atribuída às crenças materialistas. Em sua percepção da realidade, contudo, a doutrina espírita inovava quando se propunha a explicar os próprios fenômenos mediúnicos como efeitos de causas naturais, ainda que desconhecidas ou invisíveis. De acordo com ela, não há nada que não pertença à Natureza, enquanto Criação divina.
À época e ainda hoje, a religião era e continua sendo uma das instituições que vê na matéria a “única potência da Natureza”, por isso chama de sobrenatural tudo o que não pode ser explicado materialmente. O espírito é um ser à parte. Essa mesma religião contribuiu, portanto, para uma visão cindida do mundo, enquanto a filosofia espírita propunha uma visão integrada.
Essa noção espírita é reforçada pelo exposto sobre as “Ocupações e missões dos espíritos”, no capítulo 10 da 2ª parte de O livro dos espíritos. A questão 558 indaga se há algo mais que cabe aos espíritos fazerem, além de progredir individualmente. A resposta é que “eles concorrem para a harmonia do Universo ao executar os desígnios de Deus”. A missão dos espíritos encarnados, segundo a questão 573, consiste em “instruir os homens, ajudar em seu adiantamento, melhorar suas instituições pelos meios diretos e materiais; mas as missões são mais ou menos gerais e importantes: aquele que cultiva a terra realiza uma missão, como aquele que governa ou que instrui. Tudo se encadeia na Natureza; ao mesmo tempo que o Espírito se depura pela encarnação, concorre, dessa forma, para a realização dos desígnios da Providência. Cada um tem sua missão na Terra, cada um pode ser útil para alguma coisa”.
Uma visão de Natureza na qual tudo se encadeia, interage e interdepende, como a presente nas obras básicas do espiritismo, é o caminho para as decisões que afetarão positivamente a humanidade, o meio ambiente e o planeta. Stanislav e Christina Grof[iii] observam que tal visão é um item fundamental para as mudanças que precisam acontecer em nossa forma de pensar, decidir e agir. “Uma nova compreensão da unidade de todas as coisas (...) resulta em preocupações fortemente ecológicas e em maior tolerância para com os demais seres humanos. A consideração para com a humanidade, a compaixão por todas as formas de vida e o raciocínio que leva em conta todo o planeta assumem prioridade em relação aos estreitos interesses individuais, familiares, político-partidários, classistas, nacionais e sectários. O que nos une a todos e o que temos em comum tornam-se mais importantes que nossas diferenças, que são vistas mais como enriquecedoras que ameaçadoras”.
Os pensamentos e decisões que visam ao todo, que repousam sobre a compreensão da unidade da Natureza e o respeito a todas as criaturas, têm lugar na filosofia espírita desde a segunda metade do século XIX, mas ainda precisam participar mais efetivamente de nossas vidas cotidianas, de nossas pequenas e grandes escolhas. É preciso avançar na percepção das decorrências dessa noção de pertença e responsabilidade de cada ser perante a Natureza e a vida.

Pensar contra a Natureza

Um dos sintomas contemporâneos de nossa forma de pensar contra a Natureza é o tipo de imposição de padrões artificiais de beleza exercida sobre as mulheres, ainda que seja tudo uma grande fantasia, visto que há limites para as alterações físicas que podemos fazer em nós mesmos.
Isso leva muitas mulheres a atitudes contrárias à sua própria saúde orgânica e psicológica, gerando distúrbios gravíssimos.



[i] Lisboa: Publicações Europa-América, 1973.
[ii] BOHM, David. Sobre a criatividade. São Paulo: Unesp, 2011. p.72.
[iii] WALSH, Roger. Caminhos além do ego. São Paulo: Cultrix, 1997. p.236.

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* Texto publicado originalmente no site da FEAL - Fundação Espírita André Luiz - em Março de 2012.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Variações de humor


Por Gilberto (Esp.)/Rita Foelker


Um dos sintomas da mediunidade que aflora e um dos percalços com que podem se deparar, mesmo os médiuns mais experimentados, é o das variações de humor.
Isto se explica: dentro da impressionabilidade dos médiuns, em geral, o campo das emoções é o mais sujeito a influências que lhe alterem os padrões. Ainda quando não seja possível transmissão de conteúdos, de pensamentos concatenados, nossas emoções podem ser influenciadas com muita facilidade, modificando o nosso estado geral.
Como, via de regra, entre os Espíritos perturbadores, o campo emocional é o mais comprometido, a simples proximidade, uma mínima assimilação dos fluídos emanados por estas criaturas pode afetar o médium de forma sutil ou mesmo fortemente.
Acresce o fato de que a maioria dos encarnados tem pouco conhecimento e domínio das próprias emoções, tornando-se incapazes de perceber-lhes as mudanças e atribuir-lhes as verdadeiras causas.
Por isso é imprescindível que os médiuns que desejem encarar com seriedade o compromisso mediúnico e habilitar-se ao serviço em reuniões de socorro ou instrução iniciem o quanto antes o exercício da auto-observação, da autoanálise, da percepção de seus padrões emocionais diários e daquilo que pode alterá-los, formando um conceito mais ou menos preciso das suas variações mais comuns. Mudanças de humor sem causa aparente (irritação, apatia, depressão, euforia) podem resultar da aproximação e sintonia com Espíritos diversos. 
Às vezes, pode ser simples atuação de criaturas que conosco simpatizam ou antipatizam. Outras vezes, sobretudo no dia ou na véspera da reunião mediúnica, pode ser uma providência dos Dirigentes Espirituais, que começam a trabalhar na ligação fluídica para facilitar o processo da comunicação, quando chegar a hora.
Em qualquer dos casos, é recomendável que o médium esteja ciente e aja de modo a cooperar, quando for o caso, mas sem desarmonizar-se consigo mesmo nem prejudicar-se nas suas ocupações normais.

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A série ABC da Prática Mediúnica encerra-se com este post. Para acessar todos os posts, é só buscar o título da série na coluna à esquerda, entre os marcadores. Clique e acesse, lembrando que o primeiro foi Afinidade.