terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Diálogo entre as ciências*


O século XX assistiu a grandes avanços nas relações entre psiquiatria e espiritismo

Por Rita Foelker

As ciências são tradicionalmente consideradas como paradigmas de racionalidade, que se faria presente desde a observação de fatos e dos experimentos até a anotação de relatos e formulação de conceitos e teorias. Isso, contudo, não pode ser encarado de maneira absoluta. Os cientistas são seres humanos que não apenas se conduzem pelos chamados valores epistêmicos (como falseabilidade, fertilidade, simplicidade, abrangência e consistência, por exemplo), mas que também se deixam influenciar por seus preconceitos, crenças, resistências e idiossincrasias.
A história da ciência é um repositório de casos que mostram como acontece tal influência na pesquisa, na descoberta e, em muitos casos, na preferência por uma teoria em detrimento de outra. E, por isso, existem ideias científicas que persistem por um tempo e angariam partidários, até mostrarem sua fragilidade.
Nessa história, encontramos o embate entre duas concepções científicas distintas que buscavam explicar um mesmo conjunto de eventos. No início do século XX, ocorrências de transe, estimuladas pelo mediunismo praticado em muitas religiões, despertaram grande interesse da comunidade psiquiátrica brasileira. A psiquiatria e o espiritismo possuíam visões diferentes sobre os fenômenos mediúnicos e anímicos. Enquanto o espiritismo mencionava a condição de sermos espíritos encarnados (que podiam libertar-se parcialmente do organismo físico e eventualmente comunicar-se com os desencarnados, como ponto de partida para a compreensão de uma série de fatos), a psiquiatria via nesses casos indicadores de estados patológicos.

Mediunidade ou delírio?

Segundo os autores do artigo “O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão” (ver referência no final do artigo), na primeira metade do século XX, “a comunidade psiquiátrica pertencente ao eixo Rio de Janeiro/São Paulo (...) enfatizou o papel das religiões mediúnicas como causa de loucura, chegando a considerá-la a terceira maior causa de alienação mental”.
Em 1929, o aluno João Coelho Marques apresentou à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro sua tese de doutorado em psiquiatria, intitulada “Espiritismo e ideias delirantes”, segundo a qual “o combate ao espiritismo deve ser igualado ao que se faz à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes (ópio, cocaína etc.), à tuberculose, à lepra, às verminoses, enfim, a todos os males que contribuem para o aniquilamento das energias vitais, físicas e psíquicas do nosso povo, da nossa raça em formação”. E ele não estava só, já que muitos trabalhos acadêmicos do período apresentaram essa tendência, como observa o professor Artur Cesar Isaia, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Alguns anos antes, outro aluno defendera na mesma instituição carioca um ponto de vista diverso. Em 1922, Brasílio Marcondes Machado apresentou sua tese “Contribuição ao estudo da psiquiatria (espiritismo e metapsiquismo)”, que propunha a aceitação da sobrevivência da alma e a possibilidade de um diálogo entre o espiritismo e a psiquiatria, e que foi reprovada. Tal rejeição não se baseava em critérios puramente científicos. Henrique Belfort Roxo, então catedrático em medicina psiquiátrica da faculdade, pensava que as questões da alma não deveriam ser objeto de estudo da psiquiatria, já que as considerava resquícios de uma metafísica morta e enterrada pelo positivismo. Para ele, era possível pensar o surgimento de uma modalidade de doença mental a partir de um delírio desenvolvido “pela frequência de sessões de espiritismo”, chamada de delírio espírita episódico, o qual ele associava a uma preconceituosa visão das crenças e rituais praticados pelos afrodescendentes. O médico, assim como o aluno João Coelho Marques, defenderia medidas públicas de combate ao avanço da alienação mental no país pela erradicação de três fatores: a sífilis, o alcoolismo e o espiritismo.

Tudo evolui

Contudo, “o espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”, afirma Allan Kardec em O que é o espiritismo. Ela se apoia em fatos nos quais o elemento espiritual manifesta-se no âmbito mediúnico, anímico e psicossomático e, como ciência, atende satisfatoriamente aos valores epistêmicos citados no início desse artigo: falseabilidade, fertilidade, simplicidade, abrangência e consistência. Em outras palavras, o espiritismo possui afirmações testáveis, isto é, refutáveis pela observação e experiência; ele permite levar o pesquisador a novas descobertas a partir de seus postulados; oferece explicações simples para os fatos a que se refere; oferece explicações para um grande número de questões levantadas pela pesquisa; e faz afirmações que não se contradizem entre si.
O fato de ser rejeitado por alguns representantes da chamada “ciência oficial” das academias não significa que ele seja frágil ou tenha poucos argumentos. “Ciência oficial” é apenas um modo de nos referirmos a teorias predominantemente aceitas num determinado período, visto que, como recorda o professor Silvio Seno Chibeni, da Unicamp, “felizmente, não existe na ciência um Conselho Supremo (como o de certas religiões, partidos ou governos) que decida qual é a ortodoxia. É inerente à natureza da ciência contemporânea a distribuição do poder de avaliação em múltiplas instâncias, entre as quais se encontram as academias, departamentos universitários, institutos de pesquisa, agências de fomento e, principalmente, os periódicos especializados”.
O espiritismo ainda continua sujeito a alguns preconceitos extracientíficos. Na psiquiatria, atualmente, contudo, os preconceitos encontram-se mais reduzidos e localizados. O discurso psiquiátrico mudou, e uma nova compreensão da fenomenologia mediúnica conquistou espaço nas universidades.
Se antes havia preconceito e rejeição, hoje se tornou possível estabelecer um diálogo que enriquece ambas as pesquisas, a psiquiátrica e a espírita, exatamente porque a ciência não é um corpo rígido de conhecimentos, mas um conhecimento e uma atividade que evoluem.
Mas houve sempre aqueles que se adiantaram e, de maneira quase visionária, antecipando os passos futuros. Como foi o caso de Bezerra de Menezes, para quem a loucura deveria ser compreendida como um fenômeno mórbido de duplo caráter: material e imaterial, e contar com um tratamento “moral e terapêutico”: Afirma Bezerra: “No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do obsidiado, incutindo-lhe na alma a paciência, a resignação e o perdão para seu perseguidor, e o desejo humilde de obtê-lo, se em outra existência foi ele o ofensor”. Enquanto tantos psiquiatras ainda acreditavam na loucura como resultado de origem orgânica ou de influência do ambiente, encontramos aqui uma explicação espiritual do problema e a proposta terapêutica condizente, iluminada por princípios de paciência, amor e perdão, que é baseada na filosofia e na ciência espíritas.


Para saber mais:

- A ciência oficial. Questões acerca da natureza do Espiritismo – IV. Por Silvio Seno Chibeni. Disponível em: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geeu/quest4.html
- Fé contagiosa. Por Artur Cesar Isaia para a Revista de História, 09/06/2008. http://migre.me/b5MAQ
- O discurso médico psiquiátrico em defesa do espiritismo na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro nos anos 1920. Por Artur César Isaia. http://migre.me/b5MJ2
- O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão. Revista de Psiquiatria Clínica. Por Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda e Paulo Dalgalarrondo. http://migre.me/b5MOk 

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* Este texto foi originalmente publicado no Jornal Leitura Espírita, Edição 07, de Novembro de 2012.

Justiça e círculos de energia



Por Aymará / Rita Foelker

Ela não é particular, nem é vingativa, nem procura compensações individuais.

A justiça é um equilíbrio perfeito dos movimentos da energia no Universo inteiro.

Se a energia se move em círculos, a energia colocada em curso voltará à origem do impulso, não importa os caminhos percorridos e o tempo necessário, porque o tempo é um condicionamento meramente humano. E a justiça verdadeira está além da humanidade, de sua compreensão e de sua possibilidade de aplicação.

O ser humano age com seu discernimento possível, a justiça divina age com onisciência. Então, a justiça verdadeira já está acontecendo, não é preciso solicitá-la nem apressar-lhe o passo.

A justiça verdadeira tem como ponto de apoio, o Amor, em sua mais sublime expressão, e o aprendizado – a evolução – como sua meta principal.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O mundo espiritual está além ou aqui?*

Espaço e tempo são usados como referências à realidade material. E os espíritos, onde estão eles?

Por Rita Foelker

Viver como espírito encarnado é um tipo de condicionamento. Estamos condicionados, por exemplo, a perceber tudo em termos de espaço e tempo. O fato de percebermos as coisas desse modo não significa que elas realmente esgotem aí sua possibilidade de serem percebidas. Mas a filosofia já andou se ocupando disso.
Onde esse problema se junta com a localização do mundo espiritual? Podemos realmente localizá-lo em algum lugar? É o que esperamos responder, nestas páginas, pedindo alguma ajuda a Kant, a Herminio C. Miranda, além de verificar como a questão é tratada em O livro dos espíritos.

Possibilidade da experiência

Emmanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo que muito se esforçou para compreender a condição de possibilidade da experiência humana e, assim, do conhecimento. Em sua vasta obra escrita, alguns aspectos destacam-se, como as chamadas “formas puras da intuição”: o espaço e o tempo. Segundo ele, o conteúdo da experiência sensível (cores, cheiros, sons etc.) na qual estamos mergulhados somente pode ser conhecido e adquire algum sentido quando é visto com referência ao espaço e ao tempo. É impossível, diz Kant, conhecer os objetos externos sem que estejam ordenados em uma forma espacial, assim como nossa percepção interna desses mesmos objetos não é possível sem uma forma temporal. Isto é o que se depreende da leitura de sua “Estética Transcendental”.
É inegável que nossa maneira de pensar habitual transita no âmbito destas formas puras da intuição. E mesmo ao pensar realidades que não são experimentadas no espaço e no tempo por nós, como os átomos, os buracos negros, o mundo espiritual ou as experiências de quase morte (EQM), nossa tendência é partir das noções de espaço e tempo e simplesmente aplicar estas formas da intuição até o infinito – imaginando-se o infinito como uma extensão imensurável de espaço e, também, a eternidade como uma duração sem fim.
O modelo atômico de Rutherford-Bohr, por exemplo, do início do século XX, lembrava um pequeno sistema planetário. Era como se, ao nos tornarmos suficientemente minúsculos, pudéssemos viajar no “interior” de um átomo, ideia que atualmente foi abandonada. Numerosas EQM são relatadas como passagens “através de túneis”. E é difícil pensar-se num buraco negro sem pensar em “coisas” sendo sugadas para “dentro” dele...
Mas até que ponto essas aproximações conceituais são legítimas?

Limites das ideias de tempo e espaço

Alguns conceitos da chamada física clássica estão presentes nesta forma de ordenar a experiência: a independência completa da estrutura espaço-temporal em relação à matéria, a independência completa entre o observador e o objeto observado. Assim, referimo-nos ao átomo, à morte e aos buracos negros como se fossem locais pelos quais o “eu” pudesse excursionar, usando referências como “em cima”, “embaixo”, “dentro”, “fora”, entre outras similares. Parece que sempre se pode usar a física de Newton nestas instâncias. (Para Kant, a propósito, a Física newtoniana era o próprio paradigma de ciência, e ela nos oferece justamente uma imagem do mundo que parte de nossas experiências cotidianas e nelas se baseia para referir-se aos fatos.)
Não obstante, os avanços da física moderna e a teoria da relatividade restrita de Einstein não são compatíveis com essa visão clássica/newtoniana. E, de tal modo, que olhar para as coisas como dispostas num espaço tridimensional, na duração do tempo, embora continue ocorrendo implacavelmente em nossa maneira mais comum de lidar com os dados da experiência, torna-se apenas isto: uma maneira de olhar, entre outras. Um jeito de interpretar os fenômenos, um jeito semelhante à nossa experiência cotidiana, mas que não retrata precisamente a realidade a que se pretende referir, pois não podemos falar de átomos ou de partículas subatômicas como quem fala de bolinhas de gude, nem da EQM ou do mundo espiritual como lugares com latitude e longitude definidas. Enxergar as coisas assim faz parte de nossa experiência de encarnados.

O ser nas reflexões de Herminio C. Miranda

Herminio C. Miranda tece uma reflexão interessante sobre a condição do espírito encarnado. Em Alquimia da mente (Ed. Lachâtre), o autor propõe que há uma diferença entre alma (espírito encarnado) e espírito, base para compreendermos que o fato de estarmos encarnados, ligados a um cérebro, faz uma enorme diferença sobre nosso modo de pensar, agir e perceber. Para facilitar, ele propõe considerarmos a alma como personalidade (persona = máscara) e o espírito como individualidade (“individuação do princípio inteligente”, segundo Kardec). A alma se moveria no espaço mental que chamamos de consciente, enquanto o espírito/individualidade ocupa a dimensão inconsciente. Ele escreve: “Pareceu-me, ainda, que alma/personalidade/consciente liga seus terminais no hemisfério cerebral esquerdo, a fim de negociar com a vida material os encaixes de que necessita para operacionalizar seu aprendizado, ao passo que o espírito/individualidade/inconsciente instala-se no hemisfério direito, de onde não apenas monitora a alma, como mantém seus plugues psíquicos ligados no cosmos.” Diz ele, então, que não gosta dos termos consciente e inconsciente, pois o inconsciente é “muito mais consciente do que o consciente, e muito mais abrangente, experimentado, vivido e informado do que o seu tutelado, de vez que se enriquece a cada vida que passa acoplado a um corpo físico através das vivências da alma”. A cada nova existência na carne, este ser imortal tem que construir, ou montar, e programar uma nova personalidade que opere na dimensão encarnada e, mesmo ao desencarnar, se a entidade espiritual ainda não alcançou um estágio evolutivo satisfatório, pode experimentar uma “exagerada fixação na sua existência como personalidade”.
Essas reflexões dão uma ideia de como pode ser difícil passar de uma noção de tempo medido para uma dimensão sem tempo, uma vida não localizada em nenhum espaço.

Com a palavra, O livro dos espíritos

O livro dos espíritos, obra basilar da filosofia espírita, utiliza uma palavra para referir-se ao estado de espírito desencarnado: erraticidade. Estar “em erraticidade” significa não fixar-se em algum lugar determinado.
Os espíritos se associam por afinidades. E essa associação se modifica, conforme modificamos nossos padrões de pensamento e conforme evoluímos moralmente. Não há, portanto, localização absoluta de punição ou de ventura para as almas que desencarnam.
A literatura espírita muitas vezes apresenta este “jeito de olhar”, onde se busca falar de vivências no mundo espiritual, ou na mente, ou nos estados de emancipação da alma (sono, sonambulismo, êxtase) como se fossem localizados no espaço e durassem certo tempo. Ocorre, porém, que, citando Werner Heisenberg (em A ordenação da realidade), “nossa intuição habitual não é mais competente para esses domínios”. Apenas por analogia, tais conceitos espaço-temporais podem ser usados.
Como é difícil conceber uma realidade fora do espaço-tempo, o que fazemos, então, é usar o recurso da imaginação, atribuindo extensão, forma, número e duração aos elementos de uma experiência fora dos padrões cotidianos, a fim de que ela possa ser descrita em palavras e compreendida por outros.
Talvez alguém se surpreenda pelo fato de que mesmo os espíritos desencarnados podem manter-se vinculados às formas do espaço e do tempo, referindo-se à sua própria condição como se estivessem habitando determinado local que chamam de “céu” ou “inferno”. É que o desencarne não significa descondicionamento de certas formas de pensar. Segundo O livro dos espíritos, questão 966: “Muitíssimo incompleta é a vossa linguagem, para exprimir o que está fora de vós. Teve-se então que recorrer a comparações e tomaste como realidade as imagens e figuras que serviram para essas comparações. À medida, porém, que o homem se instrui, melhor vai compreendendo o que a sua linguagem não pode exprimir.”
Os espíritos errantes podem ter mais ou menos consciência de sua condição, podendo ainda prender-se a certas noções de distância e tempo. Mas nenhum espírito, ao abandonar a veste física, deve ir habitar obrigatoriamente um lugar determinado e circunscrito, um “céu” de felicidade ou um “inferno” de sofrimentos indizíveis. Nem mesmo é impositivo que ele vá para as chamadas “colônias”, como Nosso Lar, descrito na obra homônima de André Luiz.
Ressalve-se que algumas construções, como cidades e hospitais, são mantidos no mundo espiritual com o objetivo de acolher os seres recém-chegados do plano terreno, a fim de recebê-los, oferecer cuidados e orientação. Esta necessidade, porém, é passageira, e deixa de existir conforme o espírito se integra em sua nova situação.
O que se pode dizer, acerca da pergunta-título, é que esta questão provavelmente não faz nenhum sentido. A palavra “onde” pouco ou nada nos pode revelar sobre a realidade espiritual que está além de nossas percepções habituais e que não pode ser descrita em termos de extensão ou duração. Ou poderíamos dizer que o mundo espiritual interpenetra o mundo material, ele está por toda parte, sendo eventualmente acessado pelas capacidades anímicas ou mediúnicas, e também durante o sono e outros momentos de liberação parcial da alma em relação ao corpo. Podemos chamá-lo de Além? Podemos, porém, não como um lugar distante, mas como um mundo fora das nossas percepções comuns.

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* Este texto foi publicado no jornal Leitura Espírita, Edição 10, de fevereiro de 2013.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Quebre padrões



CURTA LEITURA ESPÍRITA é um canal de relacionamento entre os colaboradores do jornal Leitura Espírita e os seus leitores, que objetiva enviar, via email, pequenos textos de conteúdo espírita, inéditos e edificantes, nos mais diversos estilos (crônica, conto, ensaio, crítica, resenha, reflexão...). Se você está cadastrado, já deve estar recebendo nossas mensagens. Esperamos que você curta. Para conhecer o jornal, acesse o site do Leitura Espírita.

Não resolvemos um problema no mesmo nível de consciência em que o criamos...

Luz espiritual, por Alexandre Segregio.
Por Aymará/Rita Foelker

Não resolvemos um problema no mesmo nível de consciência em que o criamos, disse um sábio terreno*. De fato, no mesmo nível, apenas podemos equacionar o problema, se tivermos conhecimento e habilidade para manusear as ferramentas cognitivas. Criamos subterfúgios e compensações, que aplicaremos para atingir um resultado, mas não a eliminação da causa.


Um conto tradicional do Oriente nos diz que um mestre acercou-se de seus discípulos e, posicionando ao centro um lindo e precioso vaso, informou-os de que aquele objeto representava um problema e que os discípulos deveriam propor soluções. Decorrido um tempo de silêncio, um dos discípulos levantou-se, tomou um pedaço de madeira e destruiu o vaso.


Isto dá ideia de uma solução que transcendeu o nível onde o problema se instalou, que não seria encontrada enquanto a mente se ocupasse da forma, do preço ou da propriedade sobre o problema, e o circundasse, em lugar de atingi-lo na sua substância.



A substância dos problemas são os pensamentos que giram sobre si mesmos. Como teias, pensamentos criam armadilhas, do mesmo modo que criam moradas. Você pode neles construir um abrigo transitório ou, então, encontrar alguns meios de escapar das teias, até ser apanhado em outras... Mas só eliminará o problema quando conseguir observá-lo como alguém de fora da teia.
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*O trecho refere-se a Albert Einstein.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ver a vida com outros olhos*

“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.” Jiddu Krishnamurti 

Algumas pessoas reclamam do tédio e da mesmice de suas vidas, provavelmente baseadas na rotina que estabeleceram e naquilo que consideram importante para sua sobrevivência e felicidade. Esse tédio e mesmice têm motivos. 

Na verdade, andaram nos fazendo um desfavor. Convenceram-nos de que a felicidade estava no consumo e na posse de bens, e que a maior capacidade de consumir bens era diretamente proporcional à felicidade obtida. As corridas às lojas em razão das festas de final de ano são uma boa amostra disso. 

Isso, porém, é uma falácia: um raciocínio que parece válido, mas não é. Um raciocínio que quer associar consumo a felicidade, relacionar consumo com qualidade de vida, que são duas coisas bem distintas e que não têm necessariamente de estar juntas. 

A felicidade vem de outro lugar, ela é espiritual, está dentro das pessoas e não se condiciona ao exterior. 

Claro que também não estou pretendendo que vivamos como os amish dos Estados Unidos, que andemos em carroças ou que joguemos fora nossos tablets. Penso que é mais uma questão de bom senso e bom uso da razão. A propósito, um dos itens de O livro dos espíritos trata exatamente d’“O necessário e o supérfluo”, e ali temos um comentário de Kardec à questão 717, segundo o qual: “O limite entre o necessário e o supérfluo nada tem de absoluto. A civilização criou necessidades que não existem no estado de selvageria e os Espíritos (...) não querem que o homem civilizado viva como selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão colocar cada coisa em seu lugar.” Não se trata, portanto, de fugir para longe. Trata-se, acredito, de agir com um pouco mais de consciência, o que implica entender o sentido de estarmos nesta vida e compartilharmos este planeta com outras almas encarnadas. Para atingir essa consciência, é preciso abandonar a cegueira do orgulho e do egoísmo, dos quais o consumismo pode ser considerado um subproduto, sobretudo se o inserimos na noção de “sociedade do espetáculo” do pensador francês Guy Debord (1931-1994), onde o foco se torna a aparência, a imagem e a ostentação do consumo, mais que o consumo em si. Sobre isso, comenta Jacob Gorender, em Marxismo sem utopias: “O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção de vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência. Parecer é mais importante do que ser”. 

Poderíamos, contudo, deixar de dar tanta atenção ao que parece ser, enquanto continuamos cegos para aquilo que é. Poderíamos abrir bem os olhos pra enxergar a beleza por trás das coisas comuns e cotidianas e, em especial, a Realidade Maior, além desses objetos que nos rodeiam. 

Que objetos são esses, cuja posse podemos desejar? Ora, essas coisas tão valorizadas neste mundo são diferentes daquilo que nós pensamos delas, pois nós lhes acrescentamos as nossas noções ilusórias ao contemplá-las. Estou olhando, por exemplo, para um monitor diante de mim, que tem uma série de componentes funcionando juntos e criando um objeto que uso para certa finalidade. Penso nele como monitor. Mas esses elementos poderiam compor outras coisas. E alguém poderia pegar esse monitor e transformar em algo totalmente diferente, numa bandeja, numa tela de pintura, em proteção contra o vento, em átomos... 

As coisas neste mundo são assim mesmo, mutáveis. O que a gente olha aqui, com a perspectiva dos sentidos materiais, é a forma assumida por um conjunto de elementos, à qual atribuímos uma função em nossa vida. Incluindo a função de nos fazerem felizes... Mas, e se não víssemos apenas a forma? E se trocássemos sua função? Tudo nos pareceria diferente. 

Poderíamos ainda ver além, ver a grande Realidade por trás da realidade, aquela que dá sustentação e propósito a tudo isso aqui. Aquela que é eterna e imutável. 

Voltando ao tédio e à mesmice... Tempo passa, tempo chega a um novo tempo, mas nada necessariamente muda, porque o tempo é apenas fluxo que apresenta mudanças físicas e psicológicas ocorridas. Neste momento, há mudanças por aí afora, observadas ou não, embora talvez por dentro muitas pessoas se sintam exatamente como naquele dia da semana anterior em que acordaram, levantaram-se e foram cuidar de seus afazeres. A questão crucial para nós que queremos fundamentar nossa vida e nossas escolhas em vislumbres da Realidade Maior, então, é saber: quem sou eu? Que vim fazer aqui? Isso nos dá excelentes parâmetros para escolhas... A questão crucial é enxergar com outros olhos, assumir a vida a partir de uma nova perspectiva, a perspectiva que transcende esta realidade, o que certamente irá torná-la também muito mais interessante, dotando nossa vida de um significado muito mais belo e profundo.

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* Texto publicado no site da Fundação Espírita André Luiz, em 09/01/2013

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dez lembretes essenciais para o vivente


"Clareira do sonho", por Simon Haiduk

Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker


1. Nós somos os primeiros responsáveis por nós mesmos.

2. Tudo é sobre energia e foco.

3. Energia é qualidade; foco é intensidade.

4. Energia é como; foco é quanto.

5. Energia cria movimento.

6. Movimentos giram em círculos, retornando à origem.

7. Você pode mover a energia com ou sem uma intenção consciente.

8. É a intenção que qualifica a energia.

9. Quanto mais pura a intenção, melhor o movimento.

10. A intenção é livremente escolhida.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Santa Terra

Paulette B. (Esp.) / Rita Foelker


Um fato significativo revela algo sobre a nossa Humanidade.

Bem aquela que chamamos de Terra Santa por se considerar o berço do menino Jesus, passados os milênios, ainda persiste estéril e alvo de conflitos seculares.

A esterilidade do solo arenoso poderia ser solucionada com algum conhecimento tecnológico e vontade humana, como ocorre em certas áreas isoladas de plantio.


Mas há uma secura mais profunda e grave que nos acomete: a esterilidade do sentimento, a ausência de compaixão e entendimento.


Então, a Terra Santa é hoje um lugar semeado de ruínas e regado a sangue, desde muito tempo, citando apenas como referência as Cruzadas, deflagradas por alegadas razões cristãs. E nossas almas são lugares de miséria e lamentação, de reivindicação de pretensos direitos e exclamações de revolta.


Não nos escudemos por detrás da desculpa da justiça divina, do livre-arbítrio ou da “lei do carma” – como quer que você queira chamar. O fato é que a justiça só impera como retorno. Ela nos retribuiria, se lhe oferecêssemos presentes, joias – e nos retribuirá sempre que o fizermos – mas no momento oferecemos-lhe, com mais frequência, os frutos do orgulho sobre o altar da ignorância.


A semente da mensagem cristã, contudo, aguarda a estação propícia. Ela vive e brilha sob o solo das ilusões humanas e, uma vez removidas estas, ela germinará. Então, se desejar que o Cristo venha renascer, por meio de sua mensagem, abra mão da grossa camada de ilusões que ainda a recobre.


Relembre a parábola do semeador, viva segundo sua luminosa sabedoria, e verá uma Terra verdadeiramente Santa de vida, entendimento e compaixão a desabrocharem.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A ética e a medicina dos espíritos*

As curas mediúnicas precisam respeitar certos princípios

Por Rita Foelker

A medicina terrena é uma ciência admirável, porém limitada por seus meios, instrumentos e por sua ontologia, isto é, o conjunto de entidades que ela admite que existam. Isso limita sua possibilidade de atuar eficazmente numa série de situações onde as causas estão entre as entidades não admitidas, onde seus instrumentos não podem detectar algumas particularidades e onde a química, a cirurgia e outros procedimentos materiais não alcançam resultados. São situações em que se lida com causas emocionais, “vibracionais”, ou então com enfermidades cujas origens remontam a outras existências e/ou se devem à influência de espíritos, só pra citar alguns exemplos.
Nesse “gap”, aberto por sua incapacidade de explicar certos sintomas e apontar-lhes a cura, encontraremos as terapias alternativas e aquela que podemos chamar de “medicina dos espíritos”, que procedem de maneiras diversas: secundando a ação magnética dos médiuns, no momento do passe, receitando ou mesmo fazendo cirurgias, com ou sem cortes.
A situação do médium curador é bastante distinta do médico, no que diz respeito à ética. Se o conhecimento da doença que acomete o paciente, assim como a solução apontada para o caso, não provém do médium, mas do espírito que se manifesta por seu intermédio, não é ético que ele estabeleça um preço para o tratamento ou, até mesmo, venha a lucrar pelo uso de uma faculdade que possui tão somente para tornar possível ao verdadeiro médico realizar a cura – se ela puder ser obtida, dependendo do caso. Mas não é só isso...

O aspecto ético das curas mediúnicas

Do ponto de vista extrafísico, pode-se considerar a doença física apenas como uma manifestação sensível de uma condição invisível, não percebida pela pessoa em sua origem espiritual, psicológica ou emocional, algumas vezes desencadeada por um agente externo que apenas expõe o que estava oculto. Samuel Hahnemann (1775-1843), criador da homeopatia, chamou de miasmas a estes focos que predispõem a doenças.
Em geral, as pessoas que buscam cura por algum meio, incluindo-se aqueles que médiuns curadores propiciam, encontram-se emocionalmente fragilizadas, algumas vezes, desesperadas até, e com o discernimento comprometido pela condição vivenciada. Elas podem estar dispostas a pagar qualquer preço, submeterem-se a qualquer procedimento, por uma chance de alívio ou de solução para o problema que enfrentam. Contudo, a lição do Mestre Nazareno é explícita, e lemos em O evangelho segundo o espiritismo: “‘Dai de graça o que de graça recebestes’, disse Jesus aos seus discípulos, e por esse preceito estabelece que não se deve cobrar aquilo por que nada se pagou. (...) Esse dom lhe fora dado gratuitamente por Deus, para alívio dos que sofrem e para ajudar a propagação da fé. Ele lhes diz que não o transformem em objeto de comércio ou de especulação, nem em meio de vida”.
A par da questão monetária, o médium nesses casos encontra-se numa posição bastante delicada, da qual precisa estar cônscio, para não cometer deslizes:
– perante os espíritos, porque a cura não depende de si próprio, mas deles, em sintonia com as leis divinas;
– perante os encarnados, porque não há garantia de cura, visto que a possibilidade de melhora está relacionada à necessidade e ao merecimento de cada pessoa, acrescida de seu estado atual, da sua receptividade ao tratamento, entre muitos fatores.
Fica assim notório que o resultado depende menos do médium curador e, mais, do cumprimento das leis de Deus e da situação específica do enfermo, incluindo sua fé, sua vontade de modificar aqueles “hábitos que adoecem”, seu estado de prontidão para a nova condição de vida e a nova fase de aprendizados, uma vez cessada a convivência com o problema. Nada disso está sob o controle do medianeiro.
Por isso, a humildade, o sincero intuito de servir e o desapego quanto aos resultados, são itens indispensáveis ao bom exercício desta faculdade mediúnica tão peculiar.
Hoje em dia, nessa cultura das pílulas que visam cessar apenas com sintomas, contendo substâncias que nos ajudam a conviver com as nossas misérias e doenças, em lugar de tratá-las, é importante que haja os tratamentos ditos “alternativos”, bem como o acesso às curas mediúnicas. Embora possamos necessitar de um analgésico ou antialérgico, às vezes, trata-se de medida temporária, só para nos sentirmos melhor e encarar o maior desafio, que é ter uma vida mais saudável, mais sincera, mais intensa e mais afetuosa – mais saudável!
A mediunidade curativa pode ser muito eficiente e colaborar para a cura ou melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas. Contudo, ela não se presta à obtenção de ganhos pessoais de nenhum tipo, incluindo aqueles que alimentam as vaidades humanas.

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* Este texto foi publicado no jornal Leitura Espírita, Edição 09 - Dezembro de 2012.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cultivando um novo olhar para uma nova ordem de conhecimentos

Por Rita Foelker - Texto inédito

Cena do Bhagavad Gitã, com Krishna e Arjuna.
Os livros vêm guardando, há séculos, as bases das mais diversas doutrinas e religiões no mundo todo. Temos assim o Bhagavad gitã, para os hindus; o Corão, para os muçulmanos; a Bíblia para católicos e protestantes; a Torá para os judeus; a Codificação para os espíritas, apenas para citar alguns dos mais conhecidos entre nós.
Esses livros adquiriram grande importância cultural e histórica, como fontes de conhecimento destinado aos seres humanos que buscam aproximar-se de Deus e pautar sua conduta por ideais elevados de vida, no âmbito pessoal, familiar e social. Sua influência nos costumes de cada povo é inquestionável.
Uma base doutrinal ou filosófica reunida especialmente em livros supõe uma comunidade de adeptos ou seguidores aptos a lerem e a compreenderem o que leem.
Ler, por sua vez, é muito mais que decodificar símbolos gráficos e visualizar palavras. Ler é um processo que envolve compreensão de significados e percepção de sentidos do texto; recurso a conteúdos gravados na memória, libertação de muitos preconceitos, tudo isso para assimilação do conteúdo da forma  mais límpida e pura possível.
Nós, contudo, raramente nos lembramos de tudo isso. Ao depor nosso olhar sobre uma frase, carregamos este olhar com estilos de pensar e crenças preexistentes, com nossos preconceitos e gostos pessoais, com nossas noções rígidas de certo e errado que contaminam a leitura, comprometendo a compreensão do trecho lido.
Assim é que, hoje, ao ler as obras de Kardec, a fim de atingir um bom grau de entendimento das ideias e conceitos ali presentes, precisamos nos libertar de formas de pensar trazidas de meios de onde viemos e de textos anteriormente lidos.

Um exemplo

A Torá, o livro sagrado dos judeus
A ideia de uma punição após a morte física, reservada aos seguidores que não cumprem certos preceitos de comportamento e moral, e de recompensa pela conduta adequada, é comum a várias religiões.
Mas, e quanto aos livros de kardec, o que eles dizem? Que a alma, ao desencarnar, irá vivenciar as condições inerentes ao seu grau de evolução e ao estado de consciência moral em que se encontre. E que estas condições íntimas o aproximarão de criaturas afins do plano espiritual e, mesmo, entre os encarnados.
O que existe, portanto, não é um decreto divino de prisão, sofrimento, paz ou felicidade, mas a própria dinâmica das leis divinas que define a situação do espírito desencarnado o qual, acrescente-se, também não é estático, mas condicionado ao arrependimento e à procura da melhoria interior, sempre acessível em qualquer momento da jornada e estágio evolutivo alcançado.
Tudo o que foi dito pressupõe, então, a transformação intima como chave para se entender o sentido das afirmações da doutrina espírita em seus livros básicos, ainda quando a linguagem deste ou daquele espírito fale de penas e recompensas, pois é preciso capturar o sentido dessas expressões dentro do contexto geral do espiritismo e não, como se fosse um texto católico, judaico ou outro.

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O Corão ou Alcorão é o livro sagrado dos muçulmanos
Quando procuramos conhecer outros pensamentos filosóficos ou religiosos, quando lemos o Gitã ou a Torá, a mesma atitude deveria prevalecer, com abertura de entendimento para significados e sentidos diversos daqueles aos quais o conhecimento espírita nos possa ter habituado. As concordâncias e discordâncias entre visões distintas precisam ser objetivas e, não, forçadas por pontos de vista parciais.
A observação de Kardec nos "Prolegômenos" de O livro dos espíritos, segundo a qual "o estudo de uma doutrina, qual a Doutrina Espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova quão grande, só pode ser feito com utilidade por homens sérios, perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resultado", aplica-se a qualquer ordem de conhecimento novo para nós, que desejemos adentrar.