domingo, 25 de julho de 2010

Diferenças entre cachorros e homens *



Por Rita Foelker


Ao lado: Retrato do Duque de Buccleuch
(1771), por T. Gainsborough

O cachorro de Pavlov ficou conhecido devido a uma experiência feita no início do século XX. Segundo informações biográficas colhidas em http://www.netsaber.com.br/, Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) “era filho de um sacerdote e começou a estudar Fisiologia aos 26 anos, depois de ter-se dedicado também à Teologia e às Ciências Naturais. Estudou principalmente a fisiologia da digestão e, sobretudo, realizou investigações com cães, examinando sua salivação e os sucos gástricos. Baseou seus estudos no condicionamento: fez a experiência de alimentar os cães ao som de uma música determinada; posteriormente, ao ouvirem apenas a música, suas cobaias reagiram com secreção de saliva e de sucos gástricos.”
Pavlov provou, por meio desse experimento, que os cães desenvolvem comportamentos em resposta a estímulos ambientes, podendo tais comportamentos ser explicados sem que se precise entender o que se passa no plano mental ou psicológico. Essas conclusões deram material ao behaviorismo – teoria proposta por Watson**– para afirmar que o ser humano aprende essencialmente através da imitação, observação e reprodução dos comportamentos dos outros e que nossas ações são meras respostas ao ambiente externo.
Digamos que Pavlov realmente provou algo: que um cachorro faminto pode salivar diante de um ruído, ou do piscar de uma lâmpada, que ele tenha associado à oferta do alimento.
Dizer, contudo, que esta explicação se aplica aos seres humanos de forma irrestrita, é um erro de raciocínio.
Quando não por outras razões, por duas que analisaremos aqui:
(1) porque nós, seres humanos, lidamos com nossas necessidades de maneira diferente de um cão e
(2) porque podemos aceitar ou ser resistentes à aprendizagem de novos comportamentos, por razões ligadas à educação, às crenças e valores, aos sentimentos, enfim, à personalidade.
As necessidades humanas são inumeráveis e imponderavelmente complexas. Algumas são concretas como comida ou remédio. Outras são abstratas, como atenção, reconhecimento, afeto, companhia.
Uma observação sobre como os seres humanos são conscientes ou não de suas necessidades e de quais padrões desenvolveram para lidar com elas nos dará um quadro da dificuldade de se tratar este assunto em termos simplistas. Alguns desenvolvem formas de manipulação ou chantagem, outros se fazem de “vítimas”, outros sofrem calados, outros vão à busca do que precisam, outros arranjam culpados...
Para mim, por exemplo, quando estou emocionalmente abatida, trabalhar ajuda a recuperar-me. Escrever ou falar com pessoas também funciona. E você, quais são as suas necessidades? De que maneira busca supri-las?
Um ser humano pode até reagir positivamente a algumas tentativas de condicionamento, mas essas ocasiões não podem ser usadas para se estabelecer uma regra ou teoria universal de aprendizagem.
O segundo argumento diz respeito diretamente ao livre-arbítrio. Um ser humano não aprende por resposta automática a estímulos, embora responda a estímulos ambientes de alguma forma. Os comportamentos, atitudes e conceitos, para serem apreendidos, necessitam ser aceitos, quer por coerência com a personalidade, ou porque representam valores, crenças ou ideais importantes, ou porque apontam para a realização de algum interesse ou objetivo, ou por outras razões similares.
Isto se prova ao vermos grandes turmas de alunos que recebem o mesmo conteúdo dentro de uma mesma estratégia de ensino, pelo modo como variam os níveis de apreensão da matéria e os tipos de compreensão dos assuntos tratados.
Entender do que se trata, quando lidamos com seres humanos, é uma exigência da tarefa educacional.
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* Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Espírita André Luiz, em 16/06/2006.
** John B. Watson (1878 -1958) foi um psicólogo estadunidense, considerado o fundador do behaviorismo ou comportamentalismo. Diz essa teoria que a conduta dos indivíduos pode ser observada, medida e controlada similarmente aos fatos e eventos das ciências naturais e exatas.

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