Reúne alguns escritos publicados anteriormente e outros inéditos, tendo em comum a temática da ciência, espiritualidade, discussão de fundamentos e fenomenologia
terça-feira, 2 de abril de 2013
Lições (não tão sutis) da vida
CURTA LEITURA ESPÍRITA é um canal de relacionamento entre os colaboradores do jornal Leitura Espírita e os seus leitores, que objetiva enviar, via email, pequenos textos de conteúdo espírita, inéditos e edificantes, nos mais diversos estilos (crônica, conto, ensaio, crítica, resenha, reflexão...). Se você está cadastrado, já deve estar recebendo nossas mensagens. Esperamos que você curta. Para conhecer o jornal, acesse o site do Leitura Espírita.
quarta-feira, 27 de março de 2013
LSD como telescópio/microscópio da alma humana?
Por Rita Foelker - Texto inédito
Esta é provavelmente uma afirmação polêmica nos dias de hoje: "LSD é um catalisador ou amplificador de processos mentais. Se usado propriamente ele poderia tornar-se algo como o microscópio ou telescópio da psiquiatria." Encontrei esta imagem numa página do Facebook, e não posso deixar de concordar, conhecendo a obra de Stanislav Grof, sua visão, seriedade e resultados alcançados. Ela consta no epílogo de seu livro LSD Psychoterapy (Hunter House Publishers).
Esta é provavelmente uma afirmação polêmica nos dias de hoje: "LSD é um catalisador ou amplificador de processos mentais. Se usado propriamente ele poderia tornar-se algo como o microscópio ou telescópio da psiquiatria." Encontrei esta imagem numa página do Facebook, e não posso deixar de concordar, conhecendo a obra de Stanislav Grof, sua visão, seriedade e resultados alcançados. Ela consta no epílogo de seu livro LSD Psychoterapy (Hunter House Publishers).
Mas também verifico a imprudência de tomar frases soltas sem considerar o contexto ao qual elas pertencem. De fato, Grof utilizou LSD na época em que era liberado para uso médico, e assim ajudou muitos de seus pacientes, como lemos em seu livro Psicologia do futuro (Ed. Heresis).
Mas a sua afirmação, assim jogada, poderia conduzir a uma interpretação equivocada: de que seu uso deveria ser liberado indiscriminadamente, que um "acidozinho" de vez em quanto não tem nada demais - o que não me parece ser o caso!
Acredito, porém, que um enteógeno ou, no caso, um psicodélico, como o LSD possa ser usado para uma pessoa se conhecer ou, mesmo, para se tratar. Talvez, então, a chave para entender essas palavras esteja em definir o que são "usos próprios e impróprios", o que resultaria na disponibilização de uma ferramenta importante para terapia.
Antes disso, no entanto, como o próprio Grof, afirma na sequência do mesmo texto, o "o uso seguro e eficaz desta droga requer uma revisão fundamental da teoria existente e da prática da psicoterapia".
Antes disso, no entanto, como o próprio Grof, afirma na sequência do mesmo texto, o "o uso seguro e eficaz desta droga requer uma revisão fundamental da teoria existente e da prática da psicoterapia".
Sei que meus queridos amigos espíritas podem estar se recordando, neste momento, do trecho da biografia de Chico (As vidas de Chico Xavier, por Marcel Souto Maior, Ed. Planeta), em que Emmanuel lhe proporciona duas experiências com LSD e lhe diz, ao final: "Você está vendo seu próprio mundo íntimo,fora de você." Que é o mesmo que ocorria, nas sessões de terapia de Grof, com os pacientes descobrindo coisas sobre seu passado e sobre seu presente que, adequadamente abordadas, conduziam a alívio e melhora.
Mas então, Emmanuel conclui: "Moral da história: Nós estamos aqui para cumprir obrigações, não para gozar um céu imaginário nem para fantasiar um inferno que devemos evitar." Sim, claro! Não estamos aqui na Terra para praticar o uso recreacional de psicoativos, que era um modismo no ano de 1958, data em que a experiência ocorreu. Até porque, como observação pessoal minha, entendo que o tipo de sensibilidade e de possibilidade de sintonia que o processo permite, quando não há um propósito elevado (autoconhecimento ou cura), pode ter efeitos desastrosos, do mesmo modo que a mediunidade descontrolada e desorientada. Ainda citando o mesmo capítulo de LSD Psychoterapy, o autor afirma, sobre a substância: "depois de mais de vinte anos de pesquisa clínica, sinto grande admiração em relação a ambos os seus potenciais, o positivo e e negativo".
Mas ainda fico com Grof, quando ele diz que "espiritualidade é uma propriedade intrínseca da psique, que emerge espontaneamente quando o processo de auto-exploração vai suficientemente fundo" (em The world of shamanism, new views of a ancient tradition, de Roger Walsh (org.), Llewellyn Publications). E, segundo acredito, enteógenos e psicodélicos, utilizados propriamente, poderiam contribuir para isso.
terça-feira, 26 de março de 2013
Gente com defeito?*
Por Rita Foelker – Para o site da FEAL
Essa ideia de pessoas com defeitos tem alguns defeitos. Um
deles está em considerar que Deus criou coisas defeituosas ou que podem
apresentar defeito. Outro defeito é tratar-se, com nosso estrabismo ou miopia
habitual, de um incentivo a enxergarmos e apontarmos defeitos nos outros. Em
geral, nosso ego adere a esse tipo de atitude muito facilmente, bem como a tudo
o que o engrandeça e destaque.
Mas vamos, apenas e exclusivamente neste texto, chamar de
defeitos aquilo que nos incomoda ou desagrada em outras pessoas, razão pela
qual os desaprovamos. Isso é bem genérico. E não é difícil... Vamos lá! Nesse
sentido, podemos dizer que todo mundo tem "defeitos".
Olhando bem, logo notamos que alguns "defeitos" e
"pessoas" são mais difíceis pra nós, pois nos incomodam mais. No
entanto, também notamos que está cheio de gente com defeitos que não nos
afetam! A questão, portanto, não é o
defeito do outro, mas, sim, como e por que aquilo nos afeta.
Comecei a pensar sobre isso. Fui procurar me entender, a
partir dessas minhas reações, tentar me conhecer melhor. Afinal, acredito em evoluir pra me tornar um ser melhor. Tanto eu, quanto os
outros. E acredito no autoconhecimento como um caminho importante na evolução.
Notei que certos “defeitos” me afetavam quando surgiam em
pessoas próximas a mim, em relação às quais nutria certas expectativas. Tais
expectativas costumam ter fundamento? Em alguns casos. Se certa mãe que devia
cuidar do filho pequeno não consegue suprir as necessidades dele, poderíamos
dizer que o incômodo tem uma base, desde que há uma expectativa legítima de que
mães acalentem e cuidem de seus filhos. Mas é preciso considerar que não existe
apenas isso, pois há também a condição material, mental e emocional da mãe, de
atender a essas necessidades ou não, e pode haver um motivo específico que explique
seu comportamento. Seres humanos têm desafios complexos e se complicam
emocionalmente, iludem-se com prioridades fictícias, adoecem, perdem empregos...
Pensando assim, também passei a focar nas virtudes e
qualidades que antes estavam ocultas na pessoa, sob aquele pretenso “defeito”
que até então me incomodava tanto. E vi que lá estava aquela criatura,
exercitando essas qualidades e se desenvolvendo, segundo sua possibilidade e
compreensão da vida.
Assim, comecei a ter um olhar mais positivo, que os budistas
talvez chamassem de “compassivo”. Isso não implica fechar os olhos, mas olhar
de outra maneira. Isso também não faz nossa dificuldade passar e tudo ficar
instantaneamente maravilhoso. Mas melhora bem a possibilidade de compreensão e
convivência.
Não vou dizer aqui que costumamos enxergar nos outros aquilo
que não conseguimos ver em nós mesmos, porque é um fato que já comprovei e uma
abordagem já muito batida. Mas até nesse sentido, enxergar no outro o que
precisamos descobrir em nós é uma sabedoria das Leis Divinas e uma providência
educativa.
A inteligência emocional, a percepção de como estamos nos
sentindo, é algo muito valioso, para lidar com tais questões de maneira mais sensata
possível. Como observa Eckhart Tolle em O poder do silêncio (Ed. Sextante): “Reclamar
e reagir são as formas preferidas da mente para fortalecer o ego. O eu
autocentrado precisa do conflito para fortalecer sua identidade. Ao lutar
contra algo ou alguém, ele demonstra pra si mesmo que ‘isto sou eu’ e ‘aquilo
não sou eu’. É comum que países procurem fortalecer sua sensação de identidade
coletiva colocando-se em oposição aos seus inimigos.” Pode ser, então, que atribuir
defeitos seja mais um modo de nos afirmarmos – e simplesmente isto! Os
defeitos, então, estão na nossa visão egocentrada e não na pessoa, considerada
como essencialmente uma criatura divina em vias de progresso espiritual,
seguindo sua trajetória e fazendo uso de seu livre-arbítrio.
Além do mais, o conceito de “defeito” que adotamos para este
texto, pode perfeitamente aplicar-se a nós mesmos. Nossas atitudes, hábitos e
idiossincrasias podem andar desagradando pessoas por aí. Algumas ou muitas.
Então, é melhor evitar radicalismos e expandir a compreensão. Reclamações,
ações extremadas às vezes são infelizes, tanto em si mesmas quando nos
resultados que ocasionam. Diz Emmanuel em Seara dos médiuns (FEB), “olvidemos
os defeitos do próximo, na certeza de que todos nos encontramos sob o malho das
horas, na bigorna da experiência.”
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* Texto publicado no site da FEAL (Fundação Espírita André Luiz), em 28/02/13
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* Texto publicado no site da FEAL (Fundação Espírita André Luiz), em 28/02/13
terça-feira, 5 de março de 2013
Imagem: a loucura do momento*
Uma vida mais espiritualizada
pode prevenir possíveis transtornos mentais associados à vida moderna
Por Rita Foelker
O texto não é recente, foi postado em 2009, no blog “Beleza Sustentável”, reproduzido em outros blogs, e seu título é “Cirurgia de
lipoaspiração?”. Escrita pelo músico e compositor Herbert Vianna, a postagem
menciona o excesso de preocupações estéticas dos jovens de nosso tempo, e
apresenta a pergunta: “ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela
estética ideal é muito menos lipo e
muito mais piração?”
Passados quase quatro anos, a situação mudou pouco, o que
não impede que possa ser analisada sob um novo ângulo.
Recentemente, o psicólogo Frederico Eckschmidt colaborou na
edição 10 do Leitura Espírita, de
Fevereiro de 2013, com um texto onde observa os efeitos da ausência de uma
compreensão espiritual da existência no aumento da incidência de doenças
mentais, verificado em estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Enquanto isso, a palavra escolhida por Vianna para referir-se ao verdadeiro
culto à imagem que temos desenvolvido é reveladora: “piração”. Mas qual seria a
cura ou, então, a profilaxia para esse tipo de insanidade?
Como preencher o
vazio interno
“Hoje, Deus é a
auto-imagem. Religião é dieta. Fé, só na estética. Ritual é malhação. Amor é
cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem. Gordura é
pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer não. Estria é caso
de polícia. Celulite é falta de educação.” – define o cantor. O caso parece
mesmo ser de uma “devoção religiosa” pela imagem, o que nos remete ao texto do
Fred, no qual ele afirma que, além dos fatores neurológicos e psicológicos e do
impacto de viver em áreas urbanas para a saúde mental, devido ao aumento de
percepção da desigualdade social, isolamento e dissolução de relações, a
ausência de espiritualidade pode também ser causa de doenças, notando-se ainda
que, segundo ele escreve, “a vida em sociedades industriais e tecnológicas
dificulta essa observação e/ou ocupação dos indivíduos com as práticas
espirituais”.
Enquanto isso, em Kundalini:
o mestre e o discípulo (Ed. Heresis), Kiu Eckstein nos deixa uma frase de
seu mestre que bem resume isto: “A melhor de todas as terapias é voltar-se
decididamente para um estilo de vida espiritual”.
De minha parte, estou cada vez mais convencida de que uma
vida espiritual (ou espiritualizada) é sinônima de uma vida simples e de uma
vida confiante. Uma vida onde se age com consciência, valorizando o que realmente
importa, com segurança acerca das prioridades e sem abusos.
Entendo que simplicidade não tem a
ver com falta, nem com privação. Não é
usar a coisa mais barata que existe, apenas para ser contra os hábitos
burgueses. Ou ficar andrajoso, “molambento”. Entendo que há simplicidade em
usar aquilo que nos faz bem, de acordo com nossas possibilidades.
Se eu tiver dinheiro e gostar de
algo caro, para comer, vestir ou dirigir, creio ser possível manter-se simples e usufruir esse “algo” caro.
O ponto-chave da questão é fazer algo pra se sentir bem consigo mesmo e, não,
pra ostentar, pra manter uma aparência ou imagem. Também não é crime nem pecado
fazer plástica ou outro procedimento indicado para nós. A questão é agir
segundo a própria consciência e, não, para preencher expectativas sociais. Há
pessoas que se afundam em dívidas apenas para aparentar um nível de vida que
não é o seu, para se fazerem magras e sem rugas, apesar de suas enormes
frustrações e sofrimentos internos. E isso nada mais é que criar dificuldades
para si mesmas, enovelar-se em situações desagradáveis, em lugar de caminhar
para um estado mais pleno de felicidade e satisfação.
Da mesma maneira, o mais "em
conta" ainda pode ser bem bacana e não precisa ser depreciado.
Ocorre que, para perceber isso, precisamos
assentar bem os pés no chão e, para tanto, uma perspectiva espiritual da
existência ajuda muito. Perceber quem e o que realmente importa mais pra nós. E
continuar olhando para essas pessoas importantes, essas ideias e esses valores,
tentando praticá-los. Mas para estarmos bem, é preciso ainda confiar na origem
das ideias e valores que abraçamos, para fazê-lo com a necessária segurança que
contribui para a paz íntima.
Reconhecemos, desse modo, a legitimidade do desejo ao qual
Herbert Vianna se refere ao dizer que “Ok, eu também quero me sentir bem, quero
caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter
uma aparência legal”. Afinal, nada disso é negação de uma vida espiritualizada,
onde existem simplicidade e confiança profunda na dimensão invisível da vida.
Para saber mais:
- Frederico Eckschimidt, Espiritualidade,
doenças mentais e a evolução do cérebro humano. Jornal Leitura Espírita,
Edição 10, fevereiro de 2013, página 10.
- Herbert Vianna, Cirurgia
de lipoaspiração? Disponível em http://migre.me/d0JqT
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* Este texto foi publicado originalmente no jornal Leitura Espírita, Edição 11, de Março de 2013.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Diálogo entre as ciências*
O século XX assistiu a grandes avanços nas relações entre psiquiatria e espiritismo
Por Rita Foelker
As ciências são tradicionalmente consideradas como paradigmas de racionalidade, que se faria presente desde a observação de fatos e dos experimentos até a anotação de relatos e formulação de conceitos e teorias. Isso, contudo, não pode ser encarado de maneira absoluta. Os cientistas são seres humanos que não apenas se conduzem pelos chamados valores epistêmicos (como falseabilidade, fertilidade, simplicidade, abrangência e consistência, por exemplo), mas que também se deixam influenciar por seus preconceitos, crenças, resistências e idiossincrasias.
A história da ciência é um repositório de casos que mostram como acontece tal influência na pesquisa, na descoberta e, em muitos casos, na preferência por uma teoria em detrimento de outra. E, por isso, existem ideias científicas que persistem por um tempo e angariam partidários, até mostrarem sua fragilidade.
Nessa história, encontramos o embate entre duas concepções científicas distintas que buscavam explicar um mesmo conjunto de eventos. No início do século XX, ocorrências de transe, estimuladas pelo mediunismo praticado em muitas religiões, despertaram grande interesse da comunidade psiquiátrica brasileira. A psiquiatria e o espiritismo possuíam visões diferentes sobre os fenômenos mediúnicos e anímicos. Enquanto o espiritismo mencionava a condição de sermos espíritos encarnados (que podiam libertar-se parcialmente do organismo físico e eventualmente comunicar-se com os desencarnados, como ponto de partida para a compreensão de uma série de fatos), a psiquiatria via nesses casos indicadores de estados patológicos.
Mediunidade ou delírio?
Segundo os autores do artigo “O olhar dos psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão” (ver referência no final do artigo), na primeira metade do século XX, “a comunidade psiquiátrica pertencente ao eixo Rio de Janeiro/São Paulo (...) enfatizou o papel das religiões mediúnicas como causa de loucura, chegando a considerá-la a terceira maior causa de alienação mental”.
Em 1929, o aluno João Coelho Marques apresentou à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro sua tese de doutorado em psiquiatria, intitulada “Espiritismo e ideias delirantes”, segundo a qual “o combate ao espiritismo deve ser igualado ao que se faz à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes (ópio, cocaína etc.), à tuberculose, à lepra, às verminoses, enfim, a todos os males que contribuem para o aniquilamento das energias vitais, físicas e psíquicas do nosso povo, da nossa raça em formação”. E ele não estava só, já que muitos trabalhos acadêmicos do período apresentaram essa tendência, como observa o professor Artur Cesar Isaia, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Alguns anos antes, outro aluno defendera na mesma instituição carioca um ponto de vista diverso. Em 1922, Brasílio Marcondes Machado apresentou sua tese “Contribuição ao estudo da psiquiatria (espiritismo e metapsiquismo)”, que propunha a aceitação da sobrevivência da alma e a possibilidade de um diálogo entre o espiritismo e a psiquiatria, e que foi reprovada. Tal rejeição não se baseava em critérios puramente científicos. Henrique Belfort Roxo, então catedrático em medicina psiquiátrica da faculdade, pensava que as questões da alma não deveriam ser objeto de estudo da psiquiatria, já que as considerava resquícios de uma metafísica morta e enterrada pelo positivismo. Para ele, era possível pensar o surgimento de uma modalidade de doença mental a partir de um delírio desenvolvido “pela frequência de sessões de espiritismo”, chamada de delírio espírita episódico, o qual ele associava a uma preconceituosa visão das crenças e rituais praticados pelos afrodescendentes. O médico, assim como o aluno João Coelho Marques, defenderia medidas públicas de combate ao avanço da alienação mental no país pela erradicação de três fatores: a sífilis, o alcoolismo e o espiritismo.
Tudo evolui
Contudo, “o espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”, afirma Allan Kardec em O que é o espiritismo. Ela se apoia em fatos nos quais o elemento espiritual manifesta-se no âmbito mediúnico, anímico e psicossomático e, como ciência, atende satisfatoriamente aos valores epistêmicos citados no início desse artigo: falseabilidade, fertilidade, simplicidade, abrangência e consistência. Em outras palavras, o espiritismo possui afirmações testáveis, isto é, refutáveis pela observação e experiência; ele permite levar o pesquisador a novas descobertas a partir de seus postulados; oferece explicações simples para os fatos a que se refere; oferece explicações para um grande número de questões levantadas pela pesquisa; e faz afirmações que não se contradizem entre si.
O fato de ser rejeitado por alguns representantes da chamada “ciência oficial” das academias não significa que ele seja frágil ou tenha poucos argumentos. “Ciência oficial” é apenas um modo de nos referirmos a teorias predominantemente aceitas num determinado período, visto que, como recorda o professor Silvio Seno Chibeni, da Unicamp, “felizmente, não existe na ciência um Conselho Supremo (como o de certas religiões, partidos ou governos) que decida qual é a ortodoxia. É inerente à natureza da ciência contemporânea a distribuição do poder de avaliação em múltiplas instâncias, entre as quais se encontram as academias, departamentos universitários, institutos de pesquisa, agências de fomento e, principalmente, os periódicos especializados”.
O espiritismo ainda continua sujeito a alguns preconceitos extracientíficos. Na psiquiatria, atualmente, contudo, os preconceitos encontram-se mais reduzidos e localizados. O discurso psiquiátrico mudou, e uma nova compreensão da fenomenologia mediúnica conquistou espaço nas universidades.
Se antes havia preconceito e rejeição, hoje se tornou possível estabelecer um diálogo que enriquece ambas as pesquisas, a psiquiátrica e a espírita, exatamente porque a ciência não é um corpo rígido de conhecimentos, mas um conhecimento e uma atividade que evoluem.
Mas houve sempre aqueles que se adiantaram e, de maneira quase visionária, antecipando os passos futuros. Como foi o caso de Bezerra de Menezes, para quem a loucura deveria ser compreendida como um fenômeno mórbido de duplo caráter: material e imaterial, e contar com um tratamento “moral e terapêutico”: Afirma Bezerra: “No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do obsidiado, incutindo-lhe na alma a paciência, a resignação e o perdão para seu perseguidor, e o desejo humilde de obtê-lo, se em outra existência foi ele o ofensor”. Enquanto tantos psiquiatras ainda acreditavam na loucura como resultado de origem orgânica ou de influência do ambiente, encontramos aqui uma explicação espiritual do problema e a proposta terapêutica condizente, iluminada por princípios de paciência, amor e perdão, que é baseada na filosofia e na ciência espíritas.
Mas houve sempre aqueles que se adiantaram e, de maneira quase visionária, antecipando os passos futuros. Como foi o caso de Bezerra de Menezes, para quem a loucura deveria ser compreendida como um fenômeno mórbido de duplo caráter: material e imaterial, e contar com um tratamento “moral e terapêutico”: Afirma Bezerra: “No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do obsidiado, incutindo-lhe na alma a paciência, a resignação e o perdão para seu perseguidor, e o desejo humilde de obtê-lo, se em outra existência foi ele o ofensor”. Enquanto tantos psiquiatras ainda acreditavam na loucura como resultado de origem orgânica ou de influência do ambiente, encontramos aqui uma explicação espiritual do problema e a proposta terapêutica condizente, iluminada por princípios de paciência, amor e perdão, que é baseada na filosofia e na ciência espíritas.
Para saber mais:
- A ciência oficial. Questões
acerca da natureza do Espiritismo – IV. Por Silvio Seno Chibeni. Disponível
em: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geeu/quest4.html
- Fé contagiosa. Por
Artur Cesar Isaia para a Revista de História, 09/06/2008. http://migre.me/b5MAQ
- O discurso médico
psiquiátrico em defesa do espiritismo na Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro nos anos 1920. Por Artur César Isaia. http://migre.me/b5MJ2
- O olhar dos
psiquiatras brasileiros sobre os fenômenos de transe e possessão. Revista
de Psiquiatria Clínica. Por Angélica A. Silva de Almeida, Ana Maria G. R. Oda e
Paulo Dalgalarrondo. http://migre.me/b5MOk
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* Este texto foi originalmente publicado no Jornal Leitura Espírita, Edição 07, de Novembro de 2012.
Justiça e círculos de energia
Por Aymará / Rita Foelker
Ela não é particular, nem é vingativa, nem procura
compensações individuais.
A justiça é um equilíbrio perfeito dos movimentos da energia
no Universo inteiro.
Se a energia se move em círculos, a energia colocada em
curso voltará à origem do impulso, não importa os caminhos percorridos e o
tempo necessário, porque o tempo é um condicionamento meramente humano. E a
justiça verdadeira está além da humanidade, de sua compreensão e de sua
possibilidade de aplicação.
O ser humano age com seu discernimento possível, a justiça
divina age com onisciência. Então, a justiça verdadeira já está acontecendo,
não é preciso solicitá-la nem apressar-lhe o passo.
A justiça verdadeira tem como ponto de apoio, o Amor, em sua
mais sublime expressão, e o aprendizado – a evolução – como sua meta principal.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
O mundo espiritual está além ou aqui?*
Espaço e tempo são
usados como referências à realidade material. E os espíritos, onde estão eles?
Por Rita Foelker
Viver como espírito encarnado é um tipo de condicionamento.
Estamos condicionados, por exemplo, a perceber tudo em termos de espaço e
tempo. O fato de percebermos as coisas desse modo não significa que elas
realmente esgotem aí sua possibilidade de serem percebidas. Mas a filosofia já
andou se ocupando disso.
Onde esse problema se junta com a localização do mundo
espiritual? Podemos realmente localizá-lo em algum lugar? É o que esperamos
responder, nestas páginas, pedindo alguma ajuda a Kant, a Herminio C. Miranda,
além de verificar como a questão é tratada em O livro dos espíritos.
Possibilidade da
experiência
Emmanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo que muito se
esforçou para compreender a condição de possibilidade da experiência humana e,
assim, do conhecimento. Em sua vasta obra escrita, alguns aspectos destacam-se,
como as chamadas “formas puras da intuição”: o espaço e o tempo. Segundo ele, o
conteúdo da experiência sensível (cores, cheiros, sons etc.) na qual estamos
mergulhados somente pode ser conhecido e adquire algum sentido quando é visto
com referência ao espaço e ao tempo. É impossível, diz Kant, conhecer os
objetos externos sem que estejam ordenados em uma forma espacial, assim como
nossa percepção interna desses mesmos objetos não é possível sem uma forma
temporal. Isto é o que se depreende da leitura de sua “Estética
Transcendental”.
É inegável que nossa maneira de pensar habitual transita no
âmbito destas formas puras da intuição. E mesmo ao pensar realidades que não
são experimentadas no espaço e no tempo por nós, como os átomos, os buracos
negros, o mundo espiritual ou as experiências de quase morte (EQM), nossa
tendência é partir das noções de espaço e tempo e simplesmente aplicar estas
formas da intuição até o infinito – imaginando-se o infinito como uma extensão
imensurável de espaço e, também, a eternidade como uma duração sem fim.
O modelo atômico de Rutherford-Bohr, por exemplo, do início
do século XX, lembrava um pequeno sistema planetário. Era como se, ao nos
tornarmos suficientemente minúsculos, pudéssemos viajar no “interior” de um
átomo, ideia que atualmente foi abandonada. Numerosas EQM são relatadas como
passagens “através de túneis”. E é difícil pensar-se num buraco negro sem
pensar em “coisas” sendo sugadas para “dentro” dele...
Mas até que ponto essas aproximações conceituais são
legítimas?
Limites das ideias de
tempo e espaço
Alguns conceitos da chamada física clássica estão presentes
nesta forma de ordenar a experiência: a independência completa da estrutura
espaço-temporal em relação à matéria, a independência completa entre o
observador e o objeto observado. Assim, referimo-nos ao átomo, à morte e aos
buracos negros como se fossem locais pelos quais o “eu” pudesse excursionar,
usando referências como “em cima”, “embaixo”, “dentro”, “fora”, entre outras
similares. Parece que sempre se pode usar a física de Newton nestas instâncias.
(Para Kant, a propósito, a Física newtoniana era o próprio paradigma de
ciência, e ela nos oferece justamente uma imagem do mundo que parte de nossas
experiências cotidianas e nelas se baseia para referir-se aos fatos.)
Não obstante, os avanços da física moderna e a teoria da
relatividade restrita de Einstein não são compatíveis com essa visão clássica/newtoniana.
E, de tal modo, que olhar para as coisas como dispostas num espaço
tridimensional, na duração do tempo, embora continue ocorrendo implacavelmente
em nossa maneira mais comum de lidar com os dados da experiência, torna-se
apenas isto: uma maneira de olhar, entre outras. Um jeito de interpretar os
fenômenos, um jeito semelhante à nossa experiência cotidiana, mas que não
retrata precisamente a realidade a que se pretende referir, pois não podemos
falar de átomos ou de partículas subatômicas como quem fala de bolinhas de
gude, nem da EQM ou do mundo espiritual como lugares com latitude e longitude
definidas. Enxergar as coisas assim faz parte de nossa experiência de
encarnados.
O ser nas reflexões
de Herminio C. Miranda
Herminio C. Miranda tece uma reflexão interessante sobre a
condição do espírito encarnado. Em Alquimia
da mente (Ed. Lachâtre), o autor propõe que há uma diferença entre alma
(espírito encarnado) e espírito, base para compreendermos que o fato de
estarmos encarnados, ligados a um cérebro, faz uma enorme diferença sobre nosso
modo de pensar, agir e perceber. Para facilitar, ele propõe considerarmos a alma
como personalidade (persona =
máscara) e o espírito como individualidade (“individuação do princípio
inteligente”, segundo Kardec). A alma se moveria no espaço mental que chamamos
de consciente, enquanto o espírito/individualidade ocupa a dimensão inconsciente.
Ele escreve: “Pareceu-me, ainda, que alma/personalidade/consciente liga seus
terminais no hemisfério cerebral esquerdo, a fim de negociar com a vida
material os encaixes de que necessita para operacionalizar seu aprendizado, ao
passo que o espírito/individualidade/inconsciente instala-se no hemisfério
direito, de onde não apenas monitora a alma, como mantém seus plugues psíquicos
ligados no cosmos.” Diz ele, então, que não gosta dos termos consciente e
inconsciente, pois o inconsciente é “muito mais consciente do que o consciente,
e muito mais abrangente, experimentado, vivido e informado do que o seu
tutelado, de vez que se enriquece a cada vida que passa acoplado a um corpo
físico através das vivências da alma”. A cada nova existência na
carne, este ser imortal tem que construir, ou montar, e programar uma nova
personalidade que opere na dimensão encarnada e, mesmo ao desencarnar, se a
entidade espiritual ainda não alcançou um estágio evolutivo satisfatório, pode
experimentar uma “exagerada fixação na sua existência como personalidade”.
Essas reflexões dão uma ideia de como pode ser difícil
passar de uma noção de tempo medido para uma dimensão sem tempo, uma vida não
localizada em nenhum espaço.
Com a palavra, O livro dos espíritos
O livro dos espíritos,
obra basilar da filosofia espírita, utiliza uma palavra para referir-se ao
estado de espírito desencarnado: erraticidade. Estar “em erraticidade”
significa não fixar-se em algum lugar determinado.
Os espíritos se associam por afinidades. E essa associação
se modifica, conforme modificamos nossos padrões de pensamento e conforme
evoluímos moralmente. Não há, portanto, localização absoluta de
punição ou de ventura para as almas que desencarnam.
A literatura espírita muitas vezes apresenta este “jeito de
olhar”, onde se busca falar de vivências no mundo espiritual, ou na mente, ou
nos estados de emancipação da alma (sono, sonambulismo, êxtase) como se fossem
localizados no espaço e durassem certo tempo. Ocorre, porém, que, citando Werner
Heisenberg (em A ordenação da realidade),
“nossa intuição habitual não é mais competente para esses domínios”. Apenas por
analogia, tais conceitos espaço-temporais podem ser usados.
Como é difícil conceber uma realidade fora do espaço-tempo,
o que fazemos, então, é usar o recurso da imaginação, atribuindo extensão,
forma, número e duração aos elementos de uma experiência fora dos padrões
cotidianos, a fim de que ela possa ser descrita em palavras e compreendida por
outros.
Talvez alguém se surpreenda pelo fato de que mesmo os
espíritos desencarnados podem manter-se vinculados às formas do espaço e do
tempo, referindo-se à sua própria condição como se estivessem habitando
determinado local que chamam de “céu” ou “inferno”. É que o desencarne não
significa descondicionamento de certas formas de pensar. Segundo O livro dos espíritos, questão 966:
“Muitíssimo incompleta é a vossa linguagem, para exprimir o que está fora de
vós. Teve-se então que recorrer a comparações e tomaste como realidade as
imagens e figuras que serviram para essas comparações. À medida, porém, que o
homem se instrui, melhor vai compreendendo o que a sua linguagem não pode
exprimir.”
Os espíritos errantes podem ter mais ou menos consciência de
sua condição, podendo ainda prender-se a certas noções de distância e tempo.
Mas nenhum espírito, ao abandonar a veste física, deve ir habitar obrigatoriamente
um lugar determinado e circunscrito, um “céu” de felicidade ou um “inferno” de
sofrimentos indizíveis. Nem mesmo é impositivo que ele vá para as chamadas
“colônias”, como Nosso Lar, descrito na obra homônima de André Luiz.
Ressalve-se que algumas construções, como cidades e
hospitais, são mantidos no mundo espiritual com o objetivo de acolher os seres
recém-chegados do plano terreno, a fim de recebê-los, oferecer cuidados e
orientação. Esta necessidade, porém, é passageira, e deixa de existir conforme
o espírito se integra em sua nova situação.
O que se pode dizer, acerca da pergunta-título, é que esta
questão provavelmente não faz nenhum sentido. A palavra “onde” pouco ou nada
nos pode revelar sobre a realidade espiritual que está além de nossas
percepções habituais e que não pode ser descrita em termos de extensão ou
duração. Ou poderíamos dizer que o mundo espiritual interpenetra o mundo
material, ele está por toda parte, sendo eventualmente acessado pelas
capacidades anímicas ou mediúnicas, e também durante o sono e outros momentos
de liberação parcial da alma em relação ao corpo. Podemos chamá-lo de Além?
Podemos, porém, não como um lugar distante, mas como um mundo fora das nossas percepções
comuns.
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* Este texto foi publicado no jornal Leitura Espírita, Edição 10, de fevereiro de 2013.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
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Não resolvemos um problema no mesmo nível de consciência em que o criamos...
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| Luz espiritual, por Alexandre Segregio. |
Não resolvemos um problema no mesmo nível de consciência em que o criamos, disse um sábio terreno*. De fato, no mesmo nível, apenas podemos equacionar o problema, se tivermos conhecimento e habilidade para manusear as ferramentas cognitivas. Criamos subterfúgios e compensações, que aplicaremos para atingir um resultado, mas não a eliminação da causa.
Um conto tradicional do Oriente nos diz que um mestre acercou-se de seus discípulos e, posicionando ao centro um lindo e precioso vaso, informou-os de que aquele objeto representava um problema e que os discípulos deveriam propor soluções. Decorrido um tempo de silêncio, um dos discípulos levantou-se, tomou um pedaço de madeira e destruiu o vaso.
Isto dá ideia de uma solução que transcendeu o nível onde o problema se instalou, que não seria encontrada enquanto a mente se ocupasse da forma, do preço ou da propriedade sobre o problema, e o circundasse, em lugar de atingi-lo na sua substância.
A substância dos problemas são os pensamentos que giram sobre si mesmos. Como teias, pensamentos criam armadilhas, do mesmo modo que criam moradas. Você pode neles construir um abrigo transitório ou, então, encontrar alguns meios de escapar das teias, até ser apanhado em outras... Mas só eliminará o problema quando conseguir observá-lo como alguém de fora da teia.
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*O trecho refere-se a Albert Einstein.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Ver a vida com outros olhos*
“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.” Jiddu Krishnamurti
Algumas pessoas reclamam do tédio e da mesmice de suas vidas, provavelmente baseadas na rotina que estabeleceram e naquilo que consideram importante para sua sobrevivência e felicidade. Esse tédio e mesmice têm motivos.
Na verdade, andaram nos fazendo um desfavor. Convenceram-nos de que a felicidade estava no consumo e na posse de bens, e que a maior capacidade de consumir bens era diretamente proporcional à felicidade obtida. As corridas às lojas em razão das festas de final de ano são uma boa amostra disso.
Isso, porém, é uma falácia: um raciocínio que parece válido, mas não é. Um raciocínio que quer associar consumo a felicidade, relacionar consumo com qualidade de vida, que são duas coisas bem distintas e que não têm necessariamente de estar juntas.
A felicidade vem de outro lugar, ela é espiritual, está dentro das pessoas e não se condiciona ao exterior.
Claro que também não estou pretendendo que vivamos como os amish dos Estados Unidos, que andemos em carroças ou que joguemos fora nossos tablets. Penso que é mais uma questão de bom senso e bom uso da razão. A propósito, um dos itens de O livro dos espíritos trata exatamente d’“O necessário e o supérfluo”, e ali temos um comentário de Kardec à questão 717, segundo o qual: “O limite entre o necessário e o supérfluo nada tem de absoluto. A civilização criou necessidades que não existem no estado de selvageria e os Espíritos (...) não querem que o homem civilizado viva como selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão colocar cada coisa em seu lugar.” Não se trata, portanto, de fugir para longe. Trata-se, acredito, de agir com um pouco mais de consciência, o que implica entender o sentido de estarmos nesta vida e compartilharmos este planeta com outras almas encarnadas. Para atingir essa consciência, é preciso abandonar a cegueira do orgulho e do egoísmo, dos quais o consumismo pode ser considerado um subproduto, sobretudo se o inserimos na noção de “sociedade do espetáculo” do pensador francês Guy Debord (1931-1994), onde o foco se torna a aparência, a imagem e a ostentação do consumo, mais que o consumo em si. Sobre isso, comenta Jacob Gorender, em Marxismo sem utopias: “O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção de vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência. Parecer é mais importante do que ser”.
Poderíamos, contudo, deixar de dar tanta atenção ao que parece ser, enquanto continuamos cegos para aquilo que é. Poderíamos abrir bem os olhos pra enxergar a beleza por trás das coisas comuns e cotidianas e, em especial, a Realidade Maior, além desses objetos que nos rodeiam.
Que objetos são esses, cuja posse podemos desejar? Ora, essas coisas tão valorizadas neste mundo são diferentes daquilo que nós pensamos delas, pois nós lhes acrescentamos as nossas noções ilusórias ao contemplá-las. Estou olhando, por exemplo, para um monitor diante de mim, que tem uma série de componentes funcionando juntos e criando um objeto que uso para certa finalidade. Penso nele como monitor. Mas esses elementos poderiam compor outras coisas. E alguém poderia pegar esse monitor e transformar em algo totalmente diferente, numa bandeja, numa tela de pintura, em proteção contra o vento, em átomos...
As coisas neste mundo são assim mesmo, mutáveis. O que a gente olha aqui, com a perspectiva dos sentidos materiais, é a forma assumida por um conjunto de elementos, à qual atribuímos uma função em nossa vida. Incluindo a função de nos fazerem felizes... Mas, e se não víssemos apenas a forma? E se trocássemos sua função? Tudo nos pareceria diferente.
Poderíamos ainda ver além, ver a grande Realidade por trás da realidade, aquela que dá sustentação e propósito a tudo isso aqui. Aquela que é eterna e imutável.
Voltando ao tédio e à mesmice... Tempo passa, tempo chega a um novo tempo, mas nada necessariamente muda, porque o tempo é apenas fluxo que apresenta mudanças físicas e psicológicas ocorridas. Neste momento, há mudanças por aí afora, observadas ou não, embora talvez por dentro muitas pessoas se sintam exatamente como naquele dia da semana anterior em que acordaram, levantaram-se e foram cuidar de seus afazeres. A questão crucial para nós que queremos fundamentar nossa vida e nossas escolhas em vislumbres da Realidade Maior, então, é saber: quem sou eu? Que vim fazer aqui? Isso nos dá excelentes parâmetros para escolhas... A questão crucial é enxergar com outros olhos, assumir a vida a partir de uma nova perspectiva, a perspectiva que transcende esta realidade, o que certamente irá torná-la também muito mais interessante, dotando nossa vida de um significado muito mais belo e profundo.
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* Texto publicado no site da Fundação Espírita André Luiz, em 09/01/2013
Algumas pessoas reclamam do tédio e da mesmice de suas vidas, provavelmente baseadas na rotina que estabeleceram e naquilo que consideram importante para sua sobrevivência e felicidade. Esse tédio e mesmice têm motivos.
Na verdade, andaram nos fazendo um desfavor. Convenceram-nos de que a felicidade estava no consumo e na posse de bens, e que a maior capacidade de consumir bens era diretamente proporcional à felicidade obtida. As corridas às lojas em razão das festas de final de ano são uma boa amostra disso.
Isso, porém, é uma falácia: um raciocínio que parece válido, mas não é. Um raciocínio que quer associar consumo a felicidade, relacionar consumo com qualidade de vida, que são duas coisas bem distintas e que não têm necessariamente de estar juntas.
A felicidade vem de outro lugar, ela é espiritual, está dentro das pessoas e não se condiciona ao exterior.
Claro que também não estou pretendendo que vivamos como os amish dos Estados Unidos, que andemos em carroças ou que joguemos fora nossos tablets. Penso que é mais uma questão de bom senso e bom uso da razão. A propósito, um dos itens de O livro dos espíritos trata exatamente d’“O necessário e o supérfluo”, e ali temos um comentário de Kardec à questão 717, segundo o qual: “O limite entre o necessário e o supérfluo nada tem de absoluto. A civilização criou necessidades que não existem no estado de selvageria e os Espíritos (...) não querem que o homem civilizado viva como selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão colocar cada coisa em seu lugar.” Não se trata, portanto, de fugir para longe. Trata-se, acredito, de agir com um pouco mais de consciência, o que implica entender o sentido de estarmos nesta vida e compartilharmos este planeta com outras almas encarnadas. Para atingir essa consciência, é preciso abandonar a cegueira do orgulho e do egoísmo, dos quais o consumismo pode ser considerado um subproduto, sobretudo se o inserimos na noção de “sociedade do espetáculo” do pensador francês Guy Debord (1931-1994), onde o foco se torna a aparência, a imagem e a ostentação do consumo, mais que o consumo em si. Sobre isso, comenta Jacob Gorender, em Marxismo sem utopias: “O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção de vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência. Parecer é mais importante do que ser”.
Poderíamos, contudo, deixar de dar tanta atenção ao que parece ser, enquanto continuamos cegos para aquilo que é. Poderíamos abrir bem os olhos pra enxergar a beleza por trás das coisas comuns e cotidianas e, em especial, a Realidade Maior, além desses objetos que nos rodeiam.
Que objetos são esses, cuja posse podemos desejar? Ora, essas coisas tão valorizadas neste mundo são diferentes daquilo que nós pensamos delas, pois nós lhes acrescentamos as nossas noções ilusórias ao contemplá-las. Estou olhando, por exemplo, para um monitor diante de mim, que tem uma série de componentes funcionando juntos e criando um objeto que uso para certa finalidade. Penso nele como monitor. Mas esses elementos poderiam compor outras coisas. E alguém poderia pegar esse monitor e transformar em algo totalmente diferente, numa bandeja, numa tela de pintura, em proteção contra o vento, em átomos...
As coisas neste mundo são assim mesmo, mutáveis. O que a gente olha aqui, com a perspectiva dos sentidos materiais, é a forma assumida por um conjunto de elementos, à qual atribuímos uma função em nossa vida. Incluindo a função de nos fazerem felizes... Mas, e se não víssemos apenas a forma? E se trocássemos sua função? Tudo nos pareceria diferente.
Poderíamos ainda ver além, ver a grande Realidade por trás da realidade, aquela que dá sustentação e propósito a tudo isso aqui. Aquela que é eterna e imutável.
Voltando ao tédio e à mesmice... Tempo passa, tempo chega a um novo tempo, mas nada necessariamente muda, porque o tempo é apenas fluxo que apresenta mudanças físicas e psicológicas ocorridas. Neste momento, há mudanças por aí afora, observadas ou não, embora talvez por dentro muitas pessoas se sintam exatamente como naquele dia da semana anterior em que acordaram, levantaram-se e foram cuidar de seus afazeres. A questão crucial para nós que queremos fundamentar nossa vida e nossas escolhas em vislumbres da Realidade Maior, então, é saber: quem sou eu? Que vim fazer aqui? Isso nos dá excelentes parâmetros para escolhas... A questão crucial é enxergar com outros olhos, assumir a vida a partir de uma nova perspectiva, a perspectiva que transcende esta realidade, o que certamente irá torná-la também muito mais interessante, dotando nossa vida de um significado muito mais belo e profundo.
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* Texto publicado no site da Fundação Espírita André Luiz, em 09/01/2013
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