quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alegria das palavras

PF/Rita Foelker


Jean, desenhado por Auguste Renoir

A alegria das palavras surge do esforço de descobrir aquelas que expressam nossas opiniões, que traduzem o que sentimos e descrevem nossas necessidades.

O esforço do aprendizado, contudo, nem sempre é recompensado com essa alegria, porque antes de aprender a falar e escrever sobre nossos anseios, somos preenchidos de discursos esvaziados de sentido, de palavras ocas de verdade e o desencanto nos surpreende... sem ter o que declarar!

As palavras robustas, recheadas de verdade das emoções e de conforto, de razoabilidade e entendimento superior, estão fazendo falta. Mesmo as palavras do Mestre Nazareno se tornaram versinhos decorados como troféus de uma erudição fanática e limitada. Um insulto à mensagem espargida em suas entrelinhas como perfume floral agradável e como líquido que chega à secura das almas para ministrar-lhes novas forças e alento.

Eu gostaria que todas as crianças aprendessem a falar e escrever. Que os adultos recebessem essa oportunidade. Mas, antes disso, que elas e eles descobrissem dentro de seus corações o que é mais importante ser dito. O que é mais preciso. O que é essencial.

E que estas ocasiões de apresentação de redações não fossem apenas uma questão de número de palavras, páginas repletas ou de correção ortográfica, mas de encontro com a humanidade e reconhecimento do humano, sob o qual repousa, às vezes esquecida, a vida do espírito.

domingo, 26 de janeiro de 2014

"If you are going to San Francisco...", sobre os estímulos evolutivos da vida

"...be sure to wear some flowers in your hair." (John  Phillips)

Por Rita Foelker - Texto inédito.
John Phillips (à direita) compôs a canção
que ficou conhecida na voz de Scott McKenzie.





As situações de nossas vidas jamais estarão totalmente sob nosso controle.

Mas também não estarão totalmente fora de nosso poder de ação.

Podemos ir para San Francisco, podemos enfeitar os cabelos com flores, mas não somos senhores do que encontraremos por lá. Pode ser o que esperamos. Pode ser o oposto de tudo que imaginamos.

Assim, não somos aptos a ter e, muito menos, a fornecer garantias plenas de nada. Não sabemos como as circunstâncias evoluirão, até que o momento chegue.

Há sempre uma dinâmica entre o que depende de nós e o que acontece por si, sendo, exatamente este, o espaço do aprendizado e crescimento. É o que estimula a nossa mente, aguça os sentidos e nos desafia. É o que questiona nossas certezas e convida a ampliar nossa visão. São os estímulos evolutivos da vida.

Algumas vezes, nosso apego a crenças e desejos é tão forte, que o estímulo da vida se torna dolorido. Não é que a vida queira nos machucar. Nós é que estamos suscetíveis, ou frágeis, e a sensação é desagradável.

E mesmo quando se costuma ser alegre e grato, alguns acontecimentos, alguns momentos difíceis pelos quais passamos trazem a pergunta: "meu Deus, como é que eu vou poder agradecer por... 'isso'?" É que a dor concentra o foco, perdemos a perspectiva e tudo parece ruim. Mas apenas parece. Isso é temporário.

A resposta e a solução pra esses momentos, contudo, estão na própria vida, pois o que acontece também não fica totalmente fora de nosso poder de ação. Algumas vezes, poderemos escolher o que fazer. Outras, escolheremos o que dizer. Noutras, restará escolher como encarar e o que pensar a respeito, escolher como queremos nos sentir e como vamos prosseguir, a partir de então. Isso pode parecer pouco, mas, de fato, é a parcela essencial de tudo o que vivemos.

Podemos escolher o que pensar, escolhendo pensamentos que nos satisfaçam o entendimento e que façam bem ao coração. E se escolhermos um sentir que não seja possível imediatamente, vamos trabalhar em favor desse sentimento. Várias oportunidades de decidir e agir ainda continuarão disponíveis.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nosso jeito de ser médiuns

Arte digital: Totemical (www.totemical.com)
Por Rita Foelker - Texto inédito

Andei pensando sobre isso e entendo que os bons Espíritos trabalham com a gente da maneira que podem, segundo nossas limitações, e da maneira que nós permitimos.

Isso, se houver uma chance de sintonia, se não tivermos muitas características que os atrapalhem ou impeçam de expressar seus pensamentos e intenção por nosso intermédio.

Eles não nos escolhem por nos acharem maravilhosos e perfeitos para o que pretendem.

Em geral, eles nos têm alguma simpatia, que pode provir de outras vidas. Ou, então, é simpatia por nosso desejo de progredir e pela sua própria vocação para ensinar.

Assim, sua presença ao nosso lado não significa aprovação total de nosso ser, mas, esperança naquilo a que nos propomos, em termos de serviço, aprendizado e evolução...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A química dos relacionamentos*

Como a vida social desperta atitudes melhores... ou não!
Telhados de BedZed, vila sustentável na Inglaterra.

Por Rita Foelker

A vida social tem uma razão de ser, assim como os relacionamentos humanos. Entre chefe e subordinado, pais e filhos, professor e aluno, entre irmãos, colegas, familiares, vizinhos, amigos, quer seja em duplas, trios ou grupos, encontraremos um propósito que atende à evolução de cada espírito neles envolvido.
Carl Gustav Jung (1875-1961) escreveu em A prática da psicoterapia (Vozes) que “o encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação”.
As reações “químicas” geradas são únicas. Tão únicas que não é difícil perceber que somos diferentes com pessoas diferentes. Algumas parecem despertar nosso melhor; outras acessam nosso pior. Perto de algumas, sentimo-nos afetivos, criativos, expansivos. Outras nos fazem sentir pouco inteligentes, retraídos e inadequados.
As relações humanas dependem do que cada participante conduz para dentro delas, proveniente de sua psicologia, ética, moral, sentimento, vontade, intelecto, intenções, interesses, vivências, expectativas, cultura, valores. Elas podem ser saudáveis ou doentias, agradáveis ou desagradáveis, sinceras ou enganosas, satisfatórias ou frustrantes, numa vasta gama de variações. Por isso é tão importante conviver, para aprendermos com essas diferenças.
O livro dos espíritos não deixa dúvida, na questão 766: “Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus deu-lhe a palavra e todas as demais faculdades necessárias ao relacionamento”. No entanto, o que conduzimos para cada espaço que adentramos? Qual consideramos ser a nossa parcela de contribuição para o meio onde nos encontramos? E o que assimilamos nesse convívio?

De ecovilas a casais

Quando uma comunidade se forma, soma-se mais que as características pessoais de cada integrante. Formam-se vínculos, baseados em normas de conduta, expectativas, objetivos. Isso é nítido ao se visitar diferentes culturas ou comunidades alternativas. Um exemplo interessante são as vilas sustentáveis, como BedZED (sigla que corresponde a Beddington Zero Energy Development, ou “Desenvolvimento com Energia Zero em Beddington”), em Hackbridge, e Container City II, em Trinity Buoy Wharf, ambos em Londres, Inglaterra. As pessoas escolhem morar nesses lugares porque desejam viver de um modo mais sustentável, e isso implica maneiras específicas de lidar com consumo, água, resíduos e energia. Então, se você vai morar lá, algumas de suas ações e hábitos certamente mudarão, ou você se sentirá inadaptado e terá de sair.
O site de Container City II contém um testemunho de uma moradora: “Nós amamos fazer parte de uma comunidade tão criativa – os clientes adoram a construção e achamos um lugar inspirador para trabalhar”.
Juntar pessoas sempre tem consequências para ambos e no meio onde vivem.
Quando um casal se forma, duas pessoas criam mais que a soma de suas características, pura e simples. Existe uma química nos relacionamentos entre casais, uma química única que resulta das interações de ambos. E não se trata do sentido comum desse termo, mais usado para referir-se à atração sexual.
A convivência e o compartilhamento de situações diversas no cotidiano, onde quer que se encontrem, modifica as pessoas.
Mas o Cristo já havia mencionado esta química dos relacionamentos, ao nos deixar a parábola do fermento. “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” escreve Paulo em Coríntios I. Comentando esta passagem do Evangelho, Emmanuel em Fonte viva nos oferece definições oportunas. “O fermento é uma substância que excita outras substâncias, e nossa vida é sempre um fermento espiritual com que influenciamos as existências alheias.” Há referência do autor espiritual a três níveis dessa nossa influência:
Falas. “Nossas palavras determinam palavras em quem nos ouve, e, toda vez que não formos sinceros, é provável que o interlocutor seja igualmente desleal.”
Hábitos. “Nossos modos e costumes geram modos e costumes da mesma natureza, em torno de nossos passos...”
Atos. “Nossas atitudes e atos criam atitudes e atos do mesmo teor, em quantos nos rodeiam, porquanto aquilo que fazemos atinge o domínio da observação alheia, interferindo no centro de elaboração das forças mentais de nossos semelhantes.”
É natural que nossas falas, nossos hábitos e atos surjam da influência que recolhemos no meio onde convivemos, assim como influenciam outras pessoas.  Talvez só falte prestar um tanto mais de atenção ao que expressamos e, também, ao que trazemos do meio compartilhado para nossa vivência diária.

Para saber mais:
- BedZED – Liderando o caminho no desenho de Eco bairros. Site do Programa Cidades Sustentáveis. http://migre.me/fXDoI

- Container City II. Site da Container City (em inglês). http://migre.me/fXCcX

_____
* Texto publicado na revista Leitura Espírita, Edição 16.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

As janelas da alma só abrem pelo lado de dentro*

Como agimos perante a nós mesmos?

Por Rita Foelker – Para o site FEAL

Somos seres em transformação. A vida é uma descoberta de potencialidades e uma permanente construção de nós mesmos.

Algumas vezes, partindo de decisões melhores, atingimos o bem-estar e uma condição satisfatória para nosso viver. Decisões menos felizes, em geral, acabam trazendo arrependimentos e dores.

Mas isso não é necessariamente ruim. Olhar para nossos arrependimentos serve para perceber que nos transformamos. Olhar para nossas dores nos mostra que ainda somos frágeis. Aceitá-las, no entanto, ajuda-nos a nos sentirmos fortes e capazes de enfrentá-las.

Uma das leis divinas que nos regem a existência é a Lei de Liberdade. A vida é uma professora que nos permite agir, usar nossa curiosidade e impulsos, experimentar para, e somente então, mostrar seu ensinamento. Não pratica a coação e as proibições, só conduz ao nosso encontro com as consequências naturais, para avaliarmos e calibrarmos nossas futuras ações conforme os ideais de justiça, amor e caridade, que pautam um viver mais elevado.

A vida como professora, porém, não é passiva, pois tem mecanismos para nos despertar: a dor e o arrependimento. Ela nos sinaliza, nos aponta direções, pode inspirar pensamentos, palavras e atos.

O que ela não pode fazer é agir por nós... Porque nossa alma é nosso domínio, é nossa morada, onde ninguém pode chegar sem pedir licença. Então a vida nos chama, bate à janela oferecendo luminosidade e entendimento. Às vezes, com insistência. Às vezes, com muita força. Fazendo “um barulhão”, até, se nosso sono consciencial estiver muito pesado, apontando uma necessidade, uma ideia equivocada, um reflexo indesejável do que pensamos, dissemos ou fizemos, necessitado de premente revisão.

Diante do chamado da vida à responsabilidade, podemos agir como nosso melhor amigo: ouvindo-nos com benevolência, compreendendo, perdoando a nós mesmos, incentivando aos passos necessários para a melhoria. Mas noutras vezes, sem a devida clareza, agimos como nossos próprios julgadores implacáveis, tentando nos eximir da responsabilidade, enquanto nos acusamos, criando batalhas mentais que drenam nossas energias e nos mantêm na escuridão.

Sim, é isso o que acontece. E a frase de Jung nos indica a melhor escolha: “Não conseguimos mudar coisa alguma sem antes aceitá-la. A condenação não libera, oprime.”

A janela da alma só se abre pelo lado de dentro. É preciso querer a luz do entendimento, para que ela venha nos ampliar as condições de lidar com o dia-a-dia, aceitando nosso passado para criar nosso porvir.

Encaremos os fatos: temos uma faixa de atitudes possíveis, entre as que revelam nossa mais alta evolução presente e aquelas que desnudam nossa fragilidade. Quando um amigo em dificuldade nos procura, podemos ouvir com nosso melhor, com a compaixão. Ou com aquela tendência, ainda presente em nós, de julgar e condenar. A questão é: como agiremos perante a nós mesmos?

Na caminhada, é preciso acreditar que somos seres com ilimitada potencialidade. Aprender a olhar para nós mesmos com humildade e compaixão, admitindo a vulnerabilidade e os passos equivocados, encontrando a coragem para criar dias melhores em nossas vidas.

_____
* Texto publicado no site em 14/11/2013.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alguns dentre vós...

Por MT / Rita Foelker – 14/11/13

Alguns dentre vós, absorvidos pelas questões imediatas da vida terrena e verificando os dramas que se espalham por toda parte, dirigem suas questões ao Criador, mas, sem respostas simples e fáceis, entregam-se à descrença. As imagens chocantes de crianças desnutridas em solo africano lhes inspiram piedade, embora a esta nem sempre se siga qualquer ação no sentido de minorar o sofrimento, sequer, de um próximo mais próximo, daquele que, frequentemente, adormece dia a dia sob o mesmo teto.

Mas as razões que procuramos podem ser compreendidas a partir de um ponto de vista mais elevado. Eis que essas pessoas, crianças e adultos a quem hoje faltam os mínimos meios de manutenção da vida carnal, assim o decidiram, por impositivo da própria consciência, escandalizados por, noutras oportunidades, terem aviltado, malbaratado, comercializado, não uma ou algumas, mas vidas humanas em grande número.

Então, tende piedade desses seres em dificuldades amargamente suportadas, mas tende uma piedade esclarecida, consciente e, sobretudo, ativa. O sofrimento na Terra só pode ser reduzido pela decisão e atitude das criaturas que, com determinação e bom sentimento, inteligentemente começarem, cada qual, a olhar por lentes da caridade para aquele ser que, a cada instante, as divinas oportunidades colocam mais perto de si próprios, sem que sequer necessitem dar um passo e, muito menos, atravessar um oceano.



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ainda tentando ser perfeito(a)?


CURTA LEITURA ESPÍRITA é um canal de relacionamento entre os colaboradores da revista Leitura Espírita e os seus leitores, que objetiva enviar, via email, pequenos textos de conteúdo espírita, inéditos e edificantes, nos mais diversos estilos (crônica, conto, ensaio, crítica, resenha, reflexão...). Se você está cadastrado, já deve estar recebendo nossas mensagens. Esperamos que você curta. Para conhecer a revista, clique aqui.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A importância de considerar diferentes perspectivas

Por Rita Foelker
– Texto inédito

Há sempre uma multiplicidade de perspectivas para cada fato, cada situação, cada ato. Um modo de verificar isso é observar a maneira como pessoas diferentes contam algo que aconteceu. Ou ver o mesmo acontecimento ser noticiado por diferentes telejornais.

A perspectiva altera a percepção das coisas, sendo um aspecto crucial do que se considera conhecimento. A filosofia do conhecimento a enfrenta como um problema interessante. Alguns filósofos – os relativistas – dizem que tudo, em termos de conhecimento, é perspectiva. Nada existe, além dela. Já os essencialistas acreditam que as coisas são algo, em si mesmas, independentes de nossa perspectiva. Mas aqui não vou teorizar sobre a perspectiva, apenas reconhecer que ela existe e que não escapamos dela, nem em considerações teóricas, nem na vida prática.

Na vida prática

Em nosso cotidiano, a percepção da perspectiva é importante.

Primeiro, compreendendo que aquilo que pensamos ou acreditamos ser verdade, é parte da nossa perspectiva pessoal. Não é uma verdade obrigatória para todos.

Depois, valorizando o direito do outro, de ter a sua própria perspectiva, opinião ou apreensão das coisas. Nosso modo de pensar e de ver não é gratuito, ele tem uma história dentro de nós, desde outras encarnações até a nossa educação e o meio em que vivemos. O do outro, idem.

E, enfim, percebendo que a perspectiva influencia nosso humor e nossas ações. Segundo o filósofo estoico Epicteto, “as pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas”...

Mas, se há tantas perspectivas quanto seres conscientes, quais delas devem ser consideradas primordiais? Em minha opinião, duas:

A perspectiva do outro. Numa situação específica, envolvendo outra pessoa ou um grupo, além da nossa própria, é importante buscar entender a perspectiva do(s) outro(s). Não vivemos sós e o que dizemos e fazemos afeta pessoas, em torno de nós. Num diálogo, há duas ou várias perspectivas, mas só será realmente um diálogo se todas ou a maior parte delas for considerada. Caso contrário, teremos apenas um conjunto de monólogos.

Além disso, a consideração da visão do outro também repercute no resultado do diálogo e nas ações subsequentes.

A perspectiva do eu mais elevado. A segunda é a perspectiva do Eu superior, que Paul Brunton chama de “eu mais elevado”, o que bem representa a ideia de observar tudo “do degrau de cima”, de um ponto de vista mais alto, amplo e abrangente. Representa também o ponto de vista do nosso “eu melhor”, daquilo que almejamos como meta de melhoria pessoal e espiritual.

De fato, perante cada situação, temos uma gama de possibilidades de agir, da mais egoísta à mais generosa, da mais explosiva à mais paciente, tudo isso, dentro de nosso espectro evolutivo. Agir com maior bondade e perdão, com maior compreensão e serenidade, dentro desse espectro evolutivo, é agir com nosso melhor, cumprindo o nosso propósito na existência. Segundo Brunton, “o estudante precisa ir ao encontro de cada experiência com a sua mente, lembrando seu relacionamento com o seu eu mais elevado e, consequentemente, o propósito mais elevado de todas as experiências. Nunca deve esquecer a aventura na busca da identidade e da consciência, que a vida é.”

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Só um ego se incomoda com outro ego

Por Rita Foelker – Para o site FEAL

“Teu crítico é que te faz crescer.[1]” Nesta afirmação, o médico e professor espírita Décio Iandoli Jr. faz pensar na crítica, no seu melhor sentido. Mas seria, ela, apenas a chamada “crítica construtiva”, aquela que é feita no intuito de acrescentar, aprimorar?

Vou defender aqui que o conjunto das críticas que constroem pode ser bem maior que o conjunto das críticas feitas com objetivo construtivo. Pois a construção não depende simplesmente de como ela é feita, mas principalmente de como é recebida e aproveitada.

Uma indicação disso se encontra em Provérbios 9:8: “Não repreendas o escarnecedor, para que não te odeie; repreende o sábio, e ele te amará.” Ou seja, na situação de ser criticado, alguém arrogante se aborrece, imagina-se acima da crítica, permanece onde está e nada aprende. Mas a pessoa que compreende o valor do aprimoramento recebe de boa vontade e agradece o crítico, por haver permitido agregar melhorias a sua realização. Por ter tido a chance de pensar melhor e obter um resultado melhor do seu esforço.

Olhando por esse lado, mesmo que uma crítica chegue meio “torta”, pareça indevida ou imerecida, isso não quer dizer que não seja útil. Ela pode nos alertar para algo que não percebemos, para prestarmos mais atenção a aspectos relevantes. Mas isso somente se, no momento exato, esquecermos o ego e nos lembrarmos de usar a humildade que abre a mente e os ouvidos. Só o fato de contar com uma perspectiva diversa pode ser um benefício.

E se alguém argumentar contra, o diálogo pode ser um modo de checar seus próprios argumentos e fortalecê-los.

Claro que, se colocarmos o ego na frente, não conseguiremos ter lucidez e encontraremos um meio de disputar razões com nosso crítico. Mas inteligentemente colocando-o no seu devido lugar, podemos usar aquele momento pra evoluir.

Houve certa vez uma conversa com meu filho, sobre os papéis dos vilões na literatura e cinema. Sem o vilão, seria difícil desenvolver a trama. O vilão existe para o herói poder mostrar quem ele é. Quando o herói responde à ação ou provocação do vilão, ele usa seus poderes, sua inteligência, demonstra as suas qualidades e é confrontado por suas fraquezas. Isso o leva frequentemente a encarar circunstâncias e superar-se, encontrando capacidades ignoradas para vencer o desafio. Encontrar resistência pelo caminho é um jeito de nos fortalecermos e adquirir mais segurança.

De fato, a crítica recebida positivamente pode ser um meio de trazer à tona nosso melhor potencial, ainda adormecido. Não importa de onde veio, com que intenção. Isso mesmo, uma crítica pode não ter sido construtiva na sua origem, mas ainda pode construir.




[1] O trecho pertence ao texto “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, postado no blog Portal Espiritualista. Disponível em http://migre.me/g1bns

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Reencarnação é castigo?*

Há quem pense que aqui retornamos em razão de nossos erros cometidos em vidas passadas

Por Rita Foelker, para revista Leitura Espírita



A reencarnação nos proporciona tempo na Terra, um corpo físico e um meio onde nos desenvolvemos de muitas maneiras e podemos atuar. A chegada de um bebê é geralmente celebrada pelas famílias, com alegria e esperança.
Ao reencarnarmos, somos introduzidos num lugar diferente, não sem problemas e desafios, mas também repleto de belezas e possibilidades. Mas há quem pense e diga que reencarnação é pena, castigo, e que aqui retornamos em razão de nossos erros do passado, para sofrer pelo que fizemos outras pessoas sofrerem.
Não é esta a ideia que se depreende dos textos espíritas fundamentais, aqueles que formam a base da compreensão espírita das coisas, deixados por Kardec para nosso estudo e esclarecimento.

Evoluir com liberdade

“A reencarnação é a volta da alma ou espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo”. Eis o que lemos em O evangelho segundo o espiritismo. Se a reencarnação é volta, significa que é preciso já termos encarnado uma vez, para poder reencarnar. Por que, então, encarnamos pela primeira vez, se ainda não cometemos nenhuma falta para sermos punidos?
A resposta vem de O livro dos espíritos, tratando do “Objetivo da encarnação”: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição.” Dizer que a encarnação é algo imposto, significa dizer que não é uma alternativa ou resultado de nossa conduta, mas que todos os espíritos passam por ela obrigatoriamente. E em O evangelho segundo o espiritismo, Kardec refaz a pergunta: “É um castigo a encarnação e somente os espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?” A resposta do espírito São Luís não deixa dúvida: “A passagem dos espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça.”
Obedecendo à Lei de Justiça, todos recebemos as mesmas oportunidades de desenvolvimento da inteligência, por meio da encarnação, colaborando também com a obra da Criação. Mas trata-se também de oportunidade de exercício da liberdade. Pois continua São Luís. “A encarnação para todos os espíritos, é... uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio.” E logo, passamos a experimentar as consequências de nossa liberdade de escolha, adiantando ou atrasando nossa caminhada evolutiva.
É nesse contexto que aparece, na própria resposta de São Luís, uma referência a “castigo”, ao afirmar que “os [espíritos] que usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo.” Fica então claro que é a repetição indefinida das lições, a demora no aprendizado, que acaba constituindo uma espécie de punição mas, sempre, resultante das próprias escolhas e ações do espírito em questão, sem intervenção de um Deus punitivo.
O comentário de Kardec reforça esta compreensão: “Para o espírito do selvagem, que está apenas no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de ele desenvolver a sua inteligência; contudo, para o homem esclarecido, em quem o senso moral se acha largamente desenvolvido e que é obrigado a percorrer de novo as etapas de uma vida corpórea cheia de angústias, quando já poderia ter chegado ao fim, é um castigo, pela necessidade em que se vê de prolongar sua permanência em mundos inferiores e desgraçados. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente pelo seu progresso moral, além de abreviar o tempo da encarnação material, pode também transpor de uma só vez os degraus intermédios que o separam dos mundos superiores.”

Não existem exceções

Mas mesmo aqueles espíritos que seguiram desde o início o caminho do Bem necessitam reencarnar? Kardec fez esta pergunta aos espíritos, que responderam que “todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”
Há outro propósito ainda, na reencarnação: “o de pôr o espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”
Fica então a pergunta sobre as razões de nosso sofrimento nesta vida e a razão pela qual algumas pessoas parecem destinadas a sofrerem mais que outras. Os espíritos disseram a Kardec que sofremos muitas vezes pelas nossas imperfeições, não pelo que fizemos noutro momento e lugar. “Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”
O que se verifica, então, que a causa do sofrimento está em nós mesmos, em nosso modo de encarar a vida e os desafios, de nos relacionarmos com as pessoas e com a Natureza.

Reconstruindo relacionamentos

De fato, a vida é uma dinâmica, que não leva em conta apenas o que nos acontece, mas como nós reagimos àquilo que nos acontece, e que não pode ser traduzida num esquema simplista de prêmio e castigo.
A reencarnação é um processo que envolve muitos fatores, muitas decisões, muitas emoções e sentimentos que se modificam. O tempo que nos é dado sobre a Terra não é um presente pronto para usar, ele é mais um quebra-cabeça, um jogo de montar. Temos a sensação de que ele às vezes sobra, às vezes parece faltar, mas o fato é que podemos aprender a utilizá-lo tornando nossa vida mais satisfatória ou mais difícil.
Reencarnamos para progredir intelectual e moralmente, desenvolver amor, compaixão, solidariedade, tolerância, paz interior, paciência e outras virtudes. E para cumprir uma tarefa no Universo.
Antes de reencarnarmos, refletimos e, com a ajuda de espíritos mais sábios, traçamos um plano, escolhemos o que queremos desenvolver dentre as nossas muitas necessidades, o que pressupõe um cenário específico. Um meio social. Uma condição física particular. Por isso, algumas pessoas nascem com severas limitações materiais, mas que fazem parte do seu programa evolutivo, da sua proposta de se melhorarem em determinados aspectos. No entanto, a par das condições físicas, financeiras e do meio social desafiador, cabe a cada um de nós, com seu livre-arbítrio, escolher como vai lidar com as situações que encontra, com fé e esperança ou com desânimo, com aceitação ou ressentimento, em paz consigo e com a vida ou, então, em permanente conflito, lembrando que é nas situações-limite, nas dificuldades, que somos incentivados a praticar tudo aquilo que aprendemos e construímos como qualidades de nosso Ser imortal.
Nas muitas reencarnações, reconstruímos relacionamentos que, durante séculos, foram vivenciados em ciclos de vingança, entre ódios e ressentimentos. Não se trata de uma mecânica da lei, simplesmente, mas de um desejo e uma necessidade dos espíritos envolvidos. Ao renascer, somos, então, presenteados com o esquecimento do passado, que facilita a reaproximação de desafetos de outras existências, sem tantas prevenções e reservas, numa nova chance de desenvolver bons sentimentos recíprocos, apagando mágoas. Essas pessoas se encontram hoje próximas de nós, entre nossos amigos, colegas e familiares. E cada vez mais, para viver bem com o próximo, num mundo que chega mais perto de nós a cada dia, graças à tecnologia, vai se fazendo necessário compreender melhor o todo da vida, não apenas nosso pedacinho, nossa tarefa, nosso quadrado.
Então vemos cada vez mais pessoas buscando um sentido para que o viver seja mais que nascer, crescer, estudar, trabalhar, procriar e morrer, que se expande nas palavras de Kardec: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”.
Pode parecer que estamos nos esquecendo da chamada “lei de causa e efeito”. Mas ainda existem as consequências naturais de nossos atos e condutas, o que não existe mais é a ideia de que a causa seria um ato infeliz cometido numa vida e, o efeito, a punição posterior.
Segundo o músico e compositor Herbie Hancock, seguidor de uma doutrina reencarnacionista, o budismo, “o maior objetivo de um ser humano é poder entender o que está acontecendo, se é banquete ou fome, se são coisas agradáveis ou desagradáveis, pegar essas coisas e, de alguma forma, transformá-las em algo de valor.” Um exemplo disso pode ser encontrado com a terapeuta ocupacional estadunidense Christina Stephens, que sofreu uma amputação da perna e construiu para si mesma uma prótese com blocos de Lego.
No final de sua existência terrena, a alma se autoavalia, percebendo o que aprendeu e superou e o que ainda falta desenvolver. E então, noutro tempo, noutro projeto, irá recomeçar em nova encarnação.

Para saber mais:
- Americana constrói uma prótese de perna feita de Lego para si mesma. Por Carolina Vilaverde para o blog da Revista Super Interessante, 02/07/13. http://abr.io/IuYL

Reencarnação e comprovação
Desde o século 19 há importantes pesquisas sobre reencarnação entre estudiosos que não são somente espíritas. Há importantes resultados que a confirmam. Em 1910, foi publicada a primeira edição de As vidas sucessivas, de Albert de Rochas, contendo importantes evidências das vidas anteriores. Recentemente, cientistas como Ian Stevenson e Brian Weiss defendem a teoria reencarnacionista, que já é aceita há milênios pelos seguidores do hinduísmo, jainismo, budismo, entre outros, e presente na filosofia de Sócrates e Platão (séc. 5 a. C.).
Muitos argumentos contrários à reencarnação são bem fracos. Cientistas apontam como falha da tese reencarnacionista o fato da população do mundo ter aumentado. Segundo o blog Hypescience (A realidade da reencarnação, postado em 27/04/09), “por volta de 1800 havia apenas 1 bilhão de pessoas no mundo. Agora estima-se que estejamos perto dos 7 bilhões. De onde as novas 6 bilhões de almas surgiram nos últimos 200 anos? Será que nossos ancestrais tinham seis almas adicionais dentro deles?” Esse argumento desconsidera a população desencarnada que também participa da humanidade terrena e, mesmo, as migrações entre planetas.
“Outra questão é: por que há tantas pessoas no mundo que dizem serem as reencarnações de pessoas famosas? Afinal, nos dias de hoje, há várias Cleópatras, Joanas D´Arc e muitos Napoleões e, com certeza, mais de um Jesus.” Que significa? Que há pessoas equivocadas, acreditando que são reencarnações de famosos. Imaginação e crença pessoais não invalidam os casos reais de reencarnação e, muito menos, a própria reencarnação. (Redação)
_____
*Texto publicado originalmente na Edição 14 da Revista Leitura Espírita, de Julho/Agosto 2013.