sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Queremos um Universo coerente

Considerações pessoais sobre a ciência do viver

Por Rita Foelker - Texto inédito



A ideia de uma unidade coerente por trás do funcionamento do Universo é bem antiga. No Ocidente, ela é proposta pelos gregos pré-socráticos, conhecidos como “filósofos da Natureza”. Suas teorias acerca da physis, postulam um elemento único, fundamental e eterno, que constitui todas as coisas e que denominavam arché. Para Tales de Mileto arché era a água. Para Heráclito, o fogo. Para Xenófanes, a terra. Para Anaximandro, o apeiron ( "indeterminado"). Já Pitágoras considerava o número como a unidade essencial de tudo o que existe e Demócrito dizia que eram os átomos.

Postular, porém, não é provar. É assumir como verdadeiro e ver onde isso leva.

Os cientistas contemporâneos gastaram muitas horas e atividade cerebral tentando encaixar as peças daquilo que chamamos de Teoria do Campo Unificado, segundo a qual todas as forças presentemente reconhecidas pela ciência poderiam funcionar de modo conjunto e harmônico. Ainda não conseguiram.

Essa tentativa de acomodar a dinâmica do Universo e da vida em algum esquema conceitual, algo que possamos entender, é multimilenar. Por trás dela pode estar a intuição da existência de uma divindade criadora - de Deus - ou, mesmo, a necessidade de reconhecer uma ordem suprema implicada no aparente caos da existência humana. As duas respostas são possíveis, mas assim como tantas outras, a escolha não está na ciência.

A ciência funciona com explicações e predições. A ciência oferece explicações do que acontece no mundo e, se a teoria for adequada, ela torna possível prever certos acontecimentos ainda não ocorridos. A ciência não explica existência e causas primordiais. Ela assume certas entidades como existentes, mas não prova sua existência.

As pessoas, contudo, parecem necessitar dessas respostas. Por isso, gregos como Tales e contemporâneos como Einstein procuraram por elas. Fazem-no, contudo, como seres humanos e como pensadores e, não, enquanto cientistas.

Nós também postulamos. Assumimos certas ideias como verdadeiras. Nossos mais preciosos valores. Nossas convicções acerca do invisível. Acreditamos nelas e observamos as consequências.

Mas isso não precisa ser uma adesão cega, porque também podemos ser observadores críticos, ser “científicos” em nossa vida pessoal. Isso quer dizer, é possível verificar se as ideias que aceitamos como verdadeiras fornecem explicações satisfatórias para a vida e se permitem prever eventos futuros em nosso cotidiano. Paz ou conflito, alegria ou tristeza, contentamento ou frustração, expansão ou retração,

Desse modo, com o tempo, vamos acrescentando peças ao quebra-cabeças de nossas concepções de vida, até conseguirmos ver a figura que se delineia contra o fundo das suposições. O que, grosso modo, é o que a ciência também faz.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Autopreservar-se das más palavras

Por Rita Foelker - Texto inédito



Às vezes, as pessoas dizem coisas ruins sobre nós. Às vezes, dizem-nas para nós. Outras vezes, essas coisas nos chegam por via indireta, mas nos acertam em cheio.

Essa é uma situação em que precisamos aprender a nos proteger, para não sermos atingidos.

Porque quando algumas palavras ou frases nos pegam de jeito e são destrutivas, podem realmente ferir muito. Por isso, pode ser preciso se defender mesmo: desviar, se jogar no chão, rolar... Sério!!!

É quase uma arte marcial.

A primeira proteção vem do conhecimento. Saber que comumente as pessoas – até mesmo entre casais e famílias! – não têm contato com nosso Ser real, mas apenas com o que pensam sobre nós. Elas não se relacionam com as pessoas, mas com um pensamento cristalizado sobre elas. Nada ou pouco sabem da realidade, só dos rótulos que fixaram.

Esses rótulos podem ser fruto de uma apreciação parcial, incompleta, mas comumente nascem de preconceitos.

Esse conhecimento é proteção na medida em que entendemos que essas palavras ruins não são a verdade sobre nós ou, ao menos, que não nos abarcam inteiramente. São os pensamentos das pessoas, e só. Pensar o que se quiser é um direito e jamais vamos controlar isso nos outros. Aquilo pode ser expressão de muita coisa: ignorância, inveja, medo... e é um problema delas. Não nosso.

Mas em algumas situações, precisamos da segunda proteção: a agilidade. As palavras podem vir de uma pessoa importante pra nós. Virem de surpresa, pegando você desprevenido. Então, um grau de atenção é necessário, pra sair de lado quando sentir que vem “chumbo”.

São frases desviantes:

“Isso não é sobre mim, é sobre essa pessoa.”

“Essa pessoa tem um problema.”

“O que é que eu tenho que a incomoda tanto?”

“O que ela está enxergando em mim, que de fato é dela?”

Não receba o pacote. Analise e reflita. Não aceite o que está vindo pra você por erro de avaliação alheia. Coloque-se na humildade, fora da zona de impacto, porque o orgulho é onde essas coisas te acham!

Não é se escondendo da vida social e dos relacionamentos que você vai se proteger. A crítica e a maledicência são sempre possíveis. Não é ouvindo vozes depreciativas na sua cabeça que você vai calar seu coração.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um caminho...


Por Rita Foelker

Um caminho é um lugar incomum.
Em silêncio nos chama a seguir
E nem sempre diz aonde leva.

Um caminho vem de looooonge
Até nossos pés
E sob eles se deita, simplesmente,
Como um servo reverente.
Não insiste, tampouco desiste
E, mesmo sendo singular,
É apenas mais um que existe.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Divagações entre o Belo e a Verdade V: Epílogo

Afinal, por que é que as explicações sobre como tudo funciona teriam de ser básicas ou simples?

Por Rita Foelker 

A beleza e a verdade existem? Possivelmente. Creio pessoalmente que sim, de algum modo transcendente.

Mas elas são também conceitos que inventamos e nomeamos. E desejamos combiná-las de certa maneira numa concepção de mundo ou teoria, porque nos apetece ao intelecto e ao sentido estético.

Estamos presentes nessa operação, criamos isso. Essa relação. Quer ela esteja no pensamento que gerou o Universo ou somente na nossa cabeça.

Por isso, pouco se pode caminhar nesse assunto sem a consideração de nós mesmos. Temos quatro forças, temos fractais, temos geometria, ciência, filosofia, religião e temos nós próprios. O elemento que falta, a “quinta”, ou “sexta”, ou “n-ésima” força, tão desconhecida quanto nós próprios nos desconhecemos.

Creio que precisamos abrir mão de alguns pressupostos sobre a realidade usados em nossa relação cotidiana com ela. O senso comum, de onde você e eu nos colocamos, ainda vê o Universo predominantemente como o “lá fora”, excluindo o Ser, que é dentro dele uma parte integrante e um agente fundamental.

Tal qual na física clássica, ainda queremos ver tudo como processos mecânicos de causas e efeitos determinados. Não dá mais pra fazer isso, com tudo o que já sabemos depois do surgimento da atômica e da quântica.

A física clássica se baseia numa noção de divisibilidade irrestrita, na separação e individualização dos objetos de estudo, mas há fenômenos que só podem ser estudados globalmente (em relação com tudo o mais). A ideia de uma causa e um efeito observados “de fora” não funciona para as considerações acerca da dinâmica do Universo inteiro.

Nesse contexto, explicações científicas que nos excluam também não podem ir longe, o que certamente complica o trabalho dos cientistas pra tentar equacionar as coisas e enfim comemorar uma Teoria de Tudo.

Nós, os seres ou espíritos, estamos aqui, somos uma variável obrigatória. Somos criaturas que transformam a realidade e o mundo concreto é a prova mais evidente disso, sem falar no emocional, na saúde.

Nossas experiências práticas e emocionais dependem do desenvolvimento de nossa inteligência, sensibilidade e ética, ou da falta dele. Essas diferenças criam variações e até distorções, mas não destroem o Cosmos, o que nos permite pensar que não são defeitos do sistema, porém, variações/distorções previstas e incorporadas à sua programação.

E isso tem uma beleza, apesar de frequentemente nos desagradar os olhos ou o sentido ético.

Afinal, por que é que as explicações sobre como tudo funciona teriam de ser básicas ou simples? E por que elas estariam ao alcance de nossa capacidade intelectual presente? Nós, que também somos seres complexos e também não nos entendemos, como microcosmos. Que, frequentemente, cometemos o mesmo equívoco da separabilidade, pensando em nós como seres separados do todo da vida e da consciência.

Com tudo o que o Universo precisa conter para ser como é, ele é muitíssimo mais intrincado do que linhas de um programa que alguém digita em um notebook, numa madrugada de insônia, e que, executando-o, podemos observar numa tela um desdobramento de formas coloridas. Ele é tudo o que aí está, estamos nele sem poder evitar, e ele entra por todos os canais da sensibilidade, nos agita e nos transforma enquanto flui vertiginosamente. (Chega!)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Divagações entre o Belo e a Verdade IV: Verdade e Crença

Todo conhecimento humano é parcial

Por Rita Foelker


Então, voltamos ao aspecto da crença. Da crença que gera escolhas. Voltamos ao ponto em que há várias possíveis escolhas e que elas estão relacionadas ao que acreditamos. Voltamos a nós mesmos.

Quais nossas opções para crer? A religião se tornou frequentemente tola e irracional, contrariou a ciência. A ciência também desprezou e até atacou frequentemente as visões religiosas. Mas isso não significa que não se possa pensar racionalmente a vida espiritual, o invisível. Kant propôs um jeito de fazer isso...

Algo a se considerar como ponto de partida é que todo conhecimento humano é parcial. Quanto mais ele aumenta, mais descobrimos a imensidade do que não sabemos.
A ciência tem suas limitações. Sua tentativa de explicar a mente apenas como fruto da atividade cerebral, por exemplo, é boa só até a página 2... no máximo, até a 3. As teses materialistas a respeito são reducionistas, não dão conta do que realmente acontece nos processos mentais e, muito menos, da compreensão acerca do que é a mente e a consciência.

Dentro dessa noção de conhecimentos limitados, podemos crer na ciência, entendendo como ela funciona, e também podemos ter uma compreensão espiritual das coisas, sem que elas se choquem ou contradigam.

O erro do espiritualismo ingênuo e do misticismo é querer enxergar implicações científicas de suas crenças onde elas não existem, o que cria relações falsas entre ciência e espiritualidade.

O erro está nas associações indevidas e apressadas que muitos cientistas como Amit Goswami têm feito. Filmes como Quem Somos Nós (2004) e O Segredo (2006) vêm dando a impressão de falar de ciência quando apenas fornecem especulações e bons efeitos visuais em cima de pesquisas que nada têm a dizer sobre atitudes e melhoria de vida, embora apontem nessa direção.

Assim também, a Geometria Fractal abre certa possibilidade de pensar numa Teoria de Tudo, ou, pelo menos, de imaginá-la, mas não serve para confirmar ou provar nada sobre ela. Ela se aproveita do fato de que os cientistas tendem a preferir teorias mais simples e mais bonitas, são influenciados pelos chamados “valores epistêmicos”, embora o mais bonito nem sempre traduza uma verdade científica, sendo até superado pelo mais estranho e complicado.

Não cabe a uma eventual futura Teoria de Tudo, que é científica, permitir ou proibir que se creia no Nada ou em uma Divindade, na beleza ou na simplicidade. O que ela nos dá é perspectiva e, não, o alvo sonhado. Anyway, a ciência ainda tem muito pouco a falar sobre beleza e sobre o efeito dela sobre nós. (Quase...)

domingo, 6 de julho de 2014

Divagações entre o Belo e a Verdade III: Ciência e Religião

"O Universo não é regido por ideias em que se deseja acreditar, mas por leis imutáveis"



Por Rita Foelker

No parágrafo anterior introduzimos a religião no caldo da fervura e, consequentemente, acrescentamos a ele Deus ou deuses que são os possíveis responsáveis pela inteligibilidade da Natureza e do Universo.

Muitas religiões têm monopolizado a ideia da divindade e o caminho para chegar a Deus. Mas existe um Deus fora da religião. E a razão é óbvia: se Deus existe, ele existe antes e além das religiões, que são concepções humanas e frágeis. Pois embora muitas se declarem reveladas divinamente, ainda é trabalho humano entendê-las, escrevê-las, pregá-las e praticá-las segundo seu entendimento – ou seus interesses.

Muitos filósofos tentaram compreender e pensar Deus. Leibniz e Espinosa foram alguns. Mas isso não cabe na ciência. É filosofia, é metafísica, que muitos cientistas rejeitam. A ciência só trabalha com entidades admitidas como existentes e não questiona sobre sua causa.

Como escreveu Steven Weinberg, “a única forma de agir possível para uma ciência é supor que não existe intervenção divina e ver até onde se pode ir assim”. A ciência então cresce como um conhecimento variado e discordante, embora fundamentado, e não prega (ou ao menos não deveria pregar) uma verdade única. E também não nos dá escolha evidente entre posições científicas distintas acerca de um mesmo objeto de estudo.

O famoso “princípio da incerteza”, por exemplo. Se concordarmos plenamente com Heisenberg, teremos de discordar de Einstein. Se preferirmos Einstein, começaremos e encontrar falhas no pensamento de Heisenberg. Mas ambas as afirmações são científicas e apoiadas em evidências. Isso muito me agrada em ciência... a diversidade de teorias.

A ciência, mesmo divergente (ou graças à divergência), tem nos levado a lugares e desenvolvimentos espetaculares. Crer na ciência é mais que uma questão de fé, mas de estudo da história e observação.

Na ciência em si mesma, contudo, nada pode garantir a ação de Deus ou do acaso. Enquanto alguns cientistas notáveis assumiram a fé e a intuição espiritual, outros aderiram ao ceticismo e ao pragmatismo em suas vidas pessoais...

Isaac Newton, que fundou a Física Clássica, afirmava que “a gravidade explica os movimentos dos planetas, mas não pode explicar quem colocou os planetas em movimento. Deus governa todas as coisas e sabe tudo que é ou que pode ser feito.” Albert Einstein, célebre autor da Teoria da Relatividade, dizia crer no Deus de Espinosa e, sobre a religião, ele declarou: “Não creio no Deus que recompensa o bem e castiga o mal. Meu Deus cria leis que se encarregam disso. Seu Universo não é regido por ideias em que se deseja acreditar, mas por leis imutáveis.”

Quer dizer que para ser crente ou ateu não se pode invocar uma justificativa científica. E que você pode ser um cientista genial e respeitável que considera a inteligibilidade do Universo como manifestação da inteligência divina e Deus como o Incrível Geômetra, tanto quanto o outro cientista genial pode defender a coincidência e o acaso. Isso não faz de ninguém um “panaca místico” e nem um “ateu bobão”. (Mas não para por aí.)

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Divagações entre o Belo e a Verdade II: Geometria Universal

A influência da geometria sobre o pensamento cosmológico é antiga

Por Rita Foelker 



Uma Teoria de Tudo é um sonho antigo na História da Ciência, cuja realização se afasta, quanto mais perto se chega dele. Hoje ela é só uma hipótese e vem se comportando como um horizonte à distância, convidando a atingi-lo, porém escapando pra mais longe a cada passo que se dá.

A dificuldade em atingir essa unificação está em colocar juntas as quatro forças reconhecidas no Universo: a gravidade, o eletromagnetismo, a eletrofraca e a eletroforte. (As duas últimas atuam no interior do átomo.)

Mas imaginar que existe algum jeito de conectar tudo e entender a dinâmica de todos os movimentos cósmicos já estava na mente do jovem Johannes Kepler (1571-1630), com seu "Mysterium Cosmographicum", que levava em conta as distâncias entre os planetas e usava os cinco sólidos de Platão para explicá-las. O próprio Platão (427-347 a.C.) na Antiguidade já havia associado esses poliedros à constituição do mundo, aos cinco elementos conhecidos: terra, água, fogo, ar e éter.

A tese de Kepler era uma nova tentativa de unir a estrutura do Universo às regras da geometria e essa ideia realmente entusiasmou o rapaz, pois lhe parecia um modo de penetrar a mente de Deus. O modelo era defensável, enquanto havia apenas seis planetas conhecidos e os cinco poliedros regulares se colocavam entre eles. Perdeu o sentido, porém, a partir da descoberta de Saturno e Netuno.

A influência da geometria sobre o pensamento cosmológico também fica nítida noutro momento da pesquisa de Kepler, na dificuldade em abandonar a noção de órbitas planetárias circulares (o círculo era considerado uma forma perfeita), para admitir as órbitas elípticas que conhecemos hoje.

A geometria fractal tornou possível sonhar novamente com essa beleza unificada do Universo.

Fractais são tipos de estruturas geométricas ou físicas divididas em partes semelhantes à original, mas nunca totalmente idênticas, cuja semelhança se reproduz em diferentes níveis de escala.

Visualmente, o objeto fractal apresenta um número indeterminado de formas reduzidas, semelhantes a ele próprio.

Em termos de Teoria de Tudo, como um fractal pode ser gerado a partir de uma função iterativa (linguagem de programação) que produz repetições sucessivas e alterações em tamanhos variados, isso faz pensar numa lei que cria o imensamente grande, como as galáxias, e vai se reproduzindo até o infinitamente pequeno, como o átomo etc.

Hoje já temos um pequeno ramo de pesquisa cosmológica que se chama Cosmologia Fractal, ainda tateando, intuindo uma solução, mas sem chegar a ela.

Mas a pergunta persiste: o que faremos da desarmonia que nos encontra os sentidos?

Talvez a solução seja humanamente inatingível. E ainda estejamos, como Humanidade, na idade de criar problemas e, não, de resolvê-los.

Isso nos leva à religião, o repositório das respostas sobre o que desejaríamos saber, mas que não vamos entender, se for muito complicado. A religião traz respostas que são ora ingênuas, ora incompletas, ora absurdas. Por isso ela faz gente inteligente duvidar de Deus e acaba sendo um tipo de fuga, uma ideia cheia de falhas que aceitamos como verdadeira para nos sentirmos mais seguros e confortados em meio à perplexidade e à luta cotidiana. (Não terminei com isso ainda.)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Divagações entre o Belo e a Verdade I



A beleza tem um poder que quase impede de pedir explicações

Por Rita Foelker


Sempre achei fractais fascinantes. Gosto de imaginar que, se realmente chegássemos a uma teoria de tudo e a aplicássemos a um modelo, obteríamos algum tipo de beleza desse tipo. Só que superior. Chamo isso de “mandelbrotear”, numa referência a Benoit Mandelbrot, o polonês que descreveu uma geometria perfeita das irregularidades da Natureza e da economia.

A beleza tem um poder que quase impede de pedir explicações. É até difícil pensar que Kant era um cara tão sistemático que se esforçou enormemente pra teorizar sobre ela sem conseguir clarear o assunto. Também, clarear não era o seu maior talento...

Mas ele nos deixou algo pra ajudar a pensar sobre: as formas da intuição e as categorias. Nosso modo de enxergar, entender e interpretar as coisas.

E elas revelam outra perspectiva, elas nos expõem cotidianamente aos efeitos sensíveis da ganância, da violência, da indiferença pelo sofrimento. E tudo isso é inquestionavelmente feio. Deprimente. Impactante. Doloroso.

É quando eu me pego nessa inconsistência (aparente) do sistema. Se uma teoria de tudo é tão bela, como ela produziria anomalias tão gritantes? Kant diria que a resposta está na liberdade, a causa incondicionada.

Ou também poderíamos dar exemplos de todas as teorias que, no limite, desembocam em paradoxos.

Em Filosofia, paradoxo é uma afirmação que parece contraditória dentro de um sistema e que, no entanto, faz sentido. Em Lógica, a coisa é mais rigorosa: uma afirmação ilógica ou contraditória que é deduzida dentro de um sistema lógico.

Recorrer aos paradoxos seria uma saída mas, certamente, não é uma solução... 

domingo, 29 de junho de 2014

Matrix e os modelos mentais

Cada um de nós vive no mundo de sua mente

Por Rita Foelker - Texto inédito


Foto: Divulgação


Matrix (1999, o primeiro e melhor deles) é um filme que continuam reprisando e que continua fascinando plateias.

Ele tem os ingredientes de filmes de sucesso, incluindo efeitos e ação. Mas o que ele aborda, a meu ver, é um aspecto bem sutil da existência humana. Os modelos mentais.

O filme

Entendo que ele tem três pontos decisivos.

O primeiro é o do combate com Morpheus (Lawrence Fishburne), uma combinação de artes marciais em ambiente virtual em que Neo (Keanu Reeves) termina fisicamente ferido.

O segundo ocorre na antessala do pequeno apartamento de Oracle (Gloria Foster), onde um menino (sugestivamente vestido como um monge) brinca com a forma de uma colher e, quando Neo não consegue modificá-la, a resposta é compreender que “não há colher”.

O terceiro é o do confronto com os atiradores em que Neo simplesmente para as balas, antes de atingi-lo. Numa cena anterior, no terraço de um prédio, ele havia desviado dos tiros, mas agora ele ultrapassa seus conceitos anteriores e acontece um tipo de “iluminação”, onde ele realmente percebe que aquele momento é criado por um programa que está rodando. A verdade é que “não existem balas”...

Tudo é sobre um modelo mental: um modo de “saber” como a realidade funciona e o modo como isso condiciona comportamentos.

Percepção e realidade

Nossa percepção do mundo é um modelo mental, feito de pequenos modelos mentais de objetos e situações que compõem um conjunto complexo a ponto de nos convencer de que o que pensamos é absolutamente real.

É árduo, o processo de compreender que a realidade não é o que está na nossa cabeça. Desse modo, se consegue transcender o modelo.

Em sentido inverso funciona um programa de computador com uma “interface intuitiva”. Ele reflete o modo como a nossa mente funciona, para facilitar o uso. Não vou seguir por esse assunto agora, só lembrar que Matrix era assim, intuitiva. Descobrimos em Matrix Revolutions (2003) que a versão original do programa, em que a vida era maravilhosa e todos eram felizes falhou (não convenceu?) e então o Arquiteto criou outras, até chegar àquela que era baseada em aspectos da psique humana, na qual as pessoas possuíam vidas que eram capazes de aceitar e em que podiam crer...

O professor Donald Norman entende que um modelo mental é um conjunto de crenças sobre como o sistema funciona e dentro do qual interagimos com a realidade.

Talvez a vida virtual nos atraia tanto na medida em que ela corresponde ao que esperamos e cremos. Nesse sentido, ela de certo modo confirma o sentido do “domínio do simulacro”, de Baudrillard, a ideia de que é possível passar a viver numa simulação do mundo que é tão eficiente, a ponto de não mais sabermos o que é real ou não.

O fato é que cada um de nós vive no mundo de sua mente, desafiado pelas circunstâncias da vida exterior a ampliar seu entendimento e melhorar suas ações. Por isso, as aparências enganam: porque nossos modelos são imperfeitos. Por isso, somos surpreendidos por notícias e fatos que chocam e contradizem o que pensamos.

Num curioso experimento apresentado no programa “Truques da Mente” (NatGeo) foi pedido a um grupo de estudantes universitários que desenhassem uma bicicleta. Poucos desenharam uma bicicleta capaz de rodar e fazer curvas. Mesmo considerando a dificuldade com desenho, a capacidade de observação da realidade é testada dessa forma e revela que nossa ideia sobre as coisas é diferente de como elas são de fato.

E para mim é muito claro que essa construção mental complexa nos faça eventualmente sofrer. Neo sentiu falta de ar e até sangrou, na luta com Morpheus.

Então, antes de ficar muito ferido(a), é melhor perguntar “o que é real?”...

Ou antes, “qual programa você está rodando?”...

quinta-feira, 27 de março de 2014

Mediunidade não tem manual de instruções

Como faculdade humana, ela apresenta características que podem variar muito de um médium para outro

Por Rita Foelker -  Texto Inédito

Quando adquirimos um televisor na loja, ele vem acompanhado de um manual. Isso, porque televisores são fabricados em série. Todos os aparelhos, de mesma marca e modelo, funcionam igualmente e espera-se que o usuário encontre, no manual, orientações precisas sobre sua operação e controles.

Mas a faculdade mediúnica não pode ser abordada da mesma forma. Não há condutas padronizadas que levem a sentir a presença dos espíritos ou contatá-los e, nem mesmo, sobre como transmitir o que dizem.
A prática da mediunidade durante muito tempo esteve associada a mistério, a rituais ou a certas visões religiosas. Parecia ser algo totalmente dependente de causas e efeitos sobrenaturais, envolvendo pessoas com poderes ou dons especiais, em circunstâncias muito específicas, com formalismos vários. Esse tipo de visão frequentemente contaminou nosso entendimento acerca das reuniões espíritas e dos médiuns, criando padrões de comportamento ritualísticos.

Contudo, a filosofia espírita encara a mediunidade de um modo bastante diferente... Com a publicação de O livro dos médiuns, de Allan Kardec, em 1861, as potencialidades mediúnicas passaram a ser vistas como capacidades humanas naturais, que existem dentro e fora do contexto ritual ou religioso, e que independem de crença religiosa ou filosófica para produzir fenômenos.

Essa naturalidade, no entanto, não padroniza e nem deve levar a entender que a existência da mediunidade em todos os seres humanos significa que ela é igual em todos os seres humanos. Logo, cabe a cada médium entender e aprender a conviver com a sua própria mediunidade.

Desenvolvimento mediúnico natural

O livro dos médiuns contém instruções muito claras para quem deseja bem entender e exercitar a mediunidade. Uma das suas importantes contribuições à compreensão do tema é considerá-la como uma faculdade natural, que deriva de leis presentes na Natureza e que, portanto, não está limitada a certas crenças ou, mesmo, a práticas que visem “concedê-la”, “desenvolvê-la” ou “manifestá-la”.

A rigor, mediunidade é um tipo de sensibilidade que necessita de observação e análise, para ser compreendida e melhor vivenciada, visto ter caracteres distintos de um indivíduo para outro. Aquilo que um médium percebe, o modo como é registrado, física e/ou intelectualmente, o modo como é interpretado e manifestado para outras pessoas está relacionado a características individuais.

Um estudo que oferece um panorama geral da “variedade infinita de matizes” assumidos pela mediunidade está no capítulo XVI da obra citada, “Dos médiuns especiais”. (Destaca-se o termo “infinita”, escolhido por Kardec.) Lá encontramos médiuns para diferentes efeitos físicos e intelectuais; psicógrafos que diferem quanto ao modo como executam a psicografia; médiuns que se distinguem quanto ao nível de desenvolvimento da faculdade; médiuns que recebem mais facilmente comunicações em prosa ou poesia, com maior clareza ou obscuridade nos conceitos transmitidos; que abordam melhor temas filosóficos ou históricos ou, então, temas triviais, incluindo os obscenos; médiuns que são mais lentos ou mais velozes na recepção das comunicações; médiuns que se distinguem por suas qualidades morais, sendo presunçosos, suscetíveis, invejosos, de má-fé, ou então, humildes, devotados, sérios...

Observam-se diferenças também na intensidade dos efeitos que cada médium obtém. E além do mais, dificilmente um médium apresenta um só gênero de faculdade, existindo combinações numerosas possíveis, entre vários tipos mediúnicos, reunidos numa só pessoa.

Em vista disso, O livro dos médiuns não teria como ser um manual de instruções, nem de fórmulas, nem de receitas. Porque mediunidade não se manifesta sempre igual. E, pelo mesmo motivo, quem procura criar fórmulas e receitas para lidar com a mediunidade revela seu desconhecimento sobre a qualidade peculiar da faculdade mediúnica de cada um.

Por meio do estudo e do conhecimento, adquirido em boas leituras, no convívio com outros médiuns e no próprio exercício mediúnico, e pela própria auto-observação, cada qual vai compreendendo que é responsável pelos seus relacionamentos com os espíritos, pelos seus estados mentais e emocionais serem mais um menos influenciados, e, também, pelas comunicações que transmite. Com a experiência, pode aprender a distinguir seus pensamentos e emoções daqueles que provêm da ligação com os espíritos, o que lhe trará um acréscimo em autoconhecimento. Se bem aproveitar a oportunidade, encontrará também nà mediunidade uma condição que contribui para a sua própria evolução espiritual.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Alegria das palavras

PF/Rita Foelker


Jean, desenhado por Auguste Renoir

A alegria das palavras surge do esforço de descobrir aquelas que expressam nossas opiniões, que traduzem o que sentimos e descrevem nossas necessidades.

O esforço do aprendizado, contudo, nem sempre é recompensado com essa alegria, porque antes de aprender a falar e escrever sobre nossos anseios, somos preenchidos de discursos esvaziados de sentido, de palavras ocas de verdade e o desencanto nos surpreende... sem ter o que declarar!

As palavras robustas, recheadas de verdade das emoções e de conforto, de razoabilidade e entendimento superior, estão fazendo falta. Mesmo as palavras do Mestre Nazareno se tornaram versinhos decorados como troféus de uma erudição fanática e limitada. Um insulto à mensagem espargida em suas entrelinhas como perfume floral agradável e como líquido que chega à secura das almas para ministrar-lhes novas forças e alento.

Eu gostaria que todas as crianças aprendessem a falar e escrever. Que os adultos recebessem essa oportunidade. Mas, antes disso, que elas e eles descobrissem dentro de seus corações o que é mais importante ser dito. O que é mais preciso. O que é essencial.

E que estas ocasiões de apresentação de redações não fossem apenas uma questão de número de palavras, páginas repletas ou de correção ortográfica, mas de encontro com a humanidade e reconhecimento do humano, sob o qual repousa, às vezes esquecida, a vida do espírito.

domingo, 26 de janeiro de 2014

"If you are going to San Francisco...", sobre os estímulos evolutivos da vida

"...be sure to wear some flowers in your hair." (John  Phillips)

Por Rita Foelker - Texto inédito.
John Phillips (à direita) compôs a canção
que ficou conhecida na voz de Scott McKenzie.





As situações de nossas vidas jamais estarão totalmente sob nosso controle.

Mas também não estarão totalmente fora de nosso poder de ação.

Podemos ir para San Francisco, podemos enfeitar os cabelos com flores, mas não somos senhores do que encontraremos por lá. Pode ser o que esperamos. Pode ser o oposto de tudo que imaginamos.

Assim, não somos aptos a ter e, muito menos, a fornecer garantias plenas de nada. Não sabemos como as circunstâncias evoluirão, até que o momento chegue.

Há sempre uma dinâmica entre o que depende de nós e o que acontece por si, sendo, exatamente este, o espaço do aprendizado e crescimento. É o que estimula a nossa mente, aguça os sentidos e nos desafia. É o que questiona nossas certezas e convida a ampliar nossa visão. São os estímulos evolutivos da vida.

Algumas vezes, nosso apego a crenças e desejos é tão forte, que o estímulo da vida se torna dolorido. Não é que a vida queira nos machucar. Nós é que estamos suscetíveis, ou frágeis, e a sensação é desagradável.

E mesmo quando se costuma ser alegre e grato, alguns acontecimentos, alguns momentos difíceis pelos quais passamos trazem a pergunta: "meu Deus, como é que eu vou poder agradecer por... 'isso'?" É que a dor concentra o foco, perdemos a perspectiva e tudo parece ruim. Mas apenas parece. Isso é temporário.

A resposta e a solução pra esses momentos, contudo, estão na própria vida, pois o que acontece também não fica totalmente fora de nosso poder de ação. Algumas vezes, poderemos escolher o que fazer. Outras, escolheremos o que dizer. Noutras, restará escolher como encarar e o que pensar a respeito, escolher como queremos nos sentir e como vamos prosseguir, a partir de então. Isso pode parecer pouco, mas, de fato, é a parcela essencial de tudo o que vivemos.

Podemos escolher o que pensar, escolhendo pensamentos que nos satisfaçam o entendimento e que façam bem ao coração. E se escolhermos um sentir que não seja possível imediatamente, vamos trabalhar em favor desse sentimento. Várias oportunidades de decidir e agir ainda continuarão disponíveis.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nosso jeito de ser médiuns

Arte digital: Totemical (www.totemical.com)
Por Rita Foelker - Texto inédito

Andei pensando sobre isso e entendo que os bons Espíritos trabalham com a gente da maneira que podem, segundo nossas limitações, e da maneira que nós permitimos.

Isso, se houver uma chance de sintonia, se não tivermos muitas características que os atrapalhem ou impeçam de expressar seus pensamentos e intenção por nosso intermédio.

Eles não nos escolhem por nos acharem maravilhosos e perfeitos para o que pretendem.

Em geral, eles nos têm alguma simpatia, que pode provir de outras vidas. Ou, então, é simpatia por nosso desejo de progredir e pela sua própria vocação para ensinar.

Assim, sua presença ao nosso lado não significa aprovação total de nosso ser, mas, esperança naquilo a que nos propomos, em termos de serviço, aprendizado e evolução...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A química dos relacionamentos*

Como a vida social desperta atitudes melhores... ou não!
Telhados de BedZed, vila sustentável na Inglaterra.

Por Rita Foelker

A vida social tem uma razão de ser, assim como os relacionamentos humanos. Entre chefe e subordinado, pais e filhos, professor e aluno, entre irmãos, colegas, familiares, vizinhos, amigos, quer seja em duplas, trios ou grupos, encontraremos um propósito que atende à evolução de cada espírito neles envolvido.
Carl Gustav Jung (1875-1961) escreveu em A prática da psicoterapia (Vozes) que “o encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação”.
As reações “químicas” geradas são únicas. Tão únicas que não é difícil perceber que somos diferentes com pessoas diferentes. Algumas parecem despertar nosso melhor; outras acessam nosso pior. Perto de algumas, sentimo-nos afetivos, criativos, expansivos. Outras nos fazem sentir pouco inteligentes, retraídos e inadequados.
As relações humanas dependem do que cada participante conduz para dentro delas, proveniente de sua psicologia, ética, moral, sentimento, vontade, intelecto, intenções, interesses, vivências, expectativas, cultura, valores. Elas podem ser saudáveis ou doentias, agradáveis ou desagradáveis, sinceras ou enganosas, satisfatórias ou frustrantes, numa vasta gama de variações. Por isso é tão importante conviver, para aprendermos com essas diferenças.
O livro dos espíritos não deixa dúvida, na questão 766: “Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus deu-lhe a palavra e todas as demais faculdades necessárias ao relacionamento”. No entanto, o que conduzimos para cada espaço que adentramos? Qual consideramos ser a nossa parcela de contribuição para o meio onde nos encontramos? E o que assimilamos nesse convívio?

De ecovilas a casais

Quando uma comunidade se forma, soma-se mais que as características pessoais de cada integrante. Formam-se vínculos, baseados em normas de conduta, expectativas, objetivos. Isso é nítido ao se visitar diferentes culturas ou comunidades alternativas. Um exemplo interessante são as vilas sustentáveis, como BedZED (sigla que corresponde a Beddington Zero Energy Development, ou “Desenvolvimento com Energia Zero em Beddington”), em Hackbridge, e Container City II, em Trinity Buoy Wharf, ambos em Londres, Inglaterra. As pessoas escolhem morar nesses lugares porque desejam viver de um modo mais sustentável, e isso implica maneiras específicas de lidar com consumo, água, resíduos e energia. Então, se você vai morar lá, algumas de suas ações e hábitos certamente mudarão, ou você se sentirá inadaptado e terá de sair.
O site de Container City II contém um testemunho de uma moradora: “Nós amamos fazer parte de uma comunidade tão criativa – os clientes adoram a construção e achamos um lugar inspirador para trabalhar”.
Juntar pessoas sempre tem consequências para ambos e no meio onde vivem.
Quando um casal se forma, duas pessoas criam mais que a soma de suas características, pura e simples. Existe uma química nos relacionamentos entre casais, uma química única que resulta das interações de ambos. E não se trata do sentido comum desse termo, mais usado para referir-se à atração sexual.
A convivência e o compartilhamento de situações diversas no cotidiano, onde quer que se encontrem, modifica as pessoas.
Mas o Cristo já havia mencionado esta química dos relacionamentos, ao nos deixar a parábola do fermento. “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” escreve Paulo em Coríntios I. Comentando esta passagem do Evangelho, Emmanuel em Fonte viva nos oferece definições oportunas. “O fermento é uma substância que excita outras substâncias, e nossa vida é sempre um fermento espiritual com que influenciamos as existências alheias.” Há referência do autor espiritual a três níveis dessa nossa influência:
Falas. “Nossas palavras determinam palavras em quem nos ouve, e, toda vez que não formos sinceros, é provável que o interlocutor seja igualmente desleal.”
Hábitos. “Nossos modos e costumes geram modos e costumes da mesma natureza, em torno de nossos passos...”
Atos. “Nossas atitudes e atos criam atitudes e atos do mesmo teor, em quantos nos rodeiam, porquanto aquilo que fazemos atinge o domínio da observação alheia, interferindo no centro de elaboração das forças mentais de nossos semelhantes.”
É natural que nossas falas, nossos hábitos e atos surjam da influência que recolhemos no meio onde convivemos, assim como influenciam outras pessoas.  Talvez só falte prestar um tanto mais de atenção ao que expressamos e, também, ao que trazemos do meio compartilhado para nossa vivência diária.

Para saber mais:
- BedZED – Liderando o caminho no desenho de Eco bairros. Site do Programa Cidades Sustentáveis. http://migre.me/fXDoI

- Container City II. Site da Container City (em inglês). http://migre.me/fXCcX

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* Texto publicado na revista Leitura Espírita, Edição 16.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

As janelas da alma só abrem pelo lado de dentro*

Como agimos perante a nós mesmos?

Por Rita Foelker – Para o site FEAL

Somos seres em transformação. A vida é uma descoberta de potencialidades e uma permanente construção de nós mesmos.

Algumas vezes, partindo de decisões melhores, atingimos o bem-estar e uma condição satisfatória para nosso viver. Decisões menos felizes, em geral, acabam trazendo arrependimentos e dores.

Mas isso não é necessariamente ruim. Olhar para nossos arrependimentos serve para perceber que nos transformamos. Olhar para nossas dores nos mostra que ainda somos frágeis. Aceitá-las, no entanto, ajuda-nos a nos sentirmos fortes e capazes de enfrentá-las.

Uma das leis divinas que nos regem a existência é a Lei de Liberdade. A vida é uma professora que nos permite agir, usar nossa curiosidade e impulsos, experimentar para, e somente então, mostrar seu ensinamento. Não pratica a coação e as proibições, só conduz ao nosso encontro com as consequências naturais, para avaliarmos e calibrarmos nossas futuras ações conforme os ideais de justiça, amor e caridade, que pautam um viver mais elevado.

A vida como professora, porém, não é passiva, pois tem mecanismos para nos despertar: a dor e o arrependimento. Ela nos sinaliza, nos aponta direções, pode inspirar pensamentos, palavras e atos.

O que ela não pode fazer é agir por nós... Porque nossa alma é nosso domínio, é nossa morada, onde ninguém pode chegar sem pedir licença. Então a vida nos chama, bate à janela oferecendo luminosidade e entendimento. Às vezes, com insistência. Às vezes, com muita força. Fazendo “um barulhão”, até, se nosso sono consciencial estiver muito pesado, apontando uma necessidade, uma ideia equivocada, um reflexo indesejável do que pensamos, dissemos ou fizemos, necessitado de premente revisão.

Diante do chamado da vida à responsabilidade, podemos agir como nosso melhor amigo: ouvindo-nos com benevolência, compreendendo, perdoando a nós mesmos, incentivando aos passos necessários para a melhoria. Mas noutras vezes, sem a devida clareza, agimos como nossos próprios julgadores implacáveis, tentando nos eximir da responsabilidade, enquanto nos acusamos, criando batalhas mentais que drenam nossas energias e nos mantêm na escuridão.

Sim, é isso o que acontece. E a frase de Jung nos indica a melhor escolha: “Não conseguimos mudar coisa alguma sem antes aceitá-la. A condenação não libera, oprime.”

A janela da alma só se abre pelo lado de dentro. É preciso querer a luz do entendimento, para que ela venha nos ampliar as condições de lidar com o dia-a-dia, aceitando nosso passado para criar nosso porvir.

Encaremos os fatos: temos uma faixa de atitudes possíveis, entre as que revelam nossa mais alta evolução presente e aquelas que desnudam nossa fragilidade. Quando um amigo em dificuldade nos procura, podemos ouvir com nosso melhor, com a compaixão. Ou com aquela tendência, ainda presente em nós, de julgar e condenar. A questão é: como agiremos perante a nós mesmos?

Na caminhada, é preciso acreditar que somos seres com ilimitada potencialidade. Aprender a olhar para nós mesmos com humildade e compaixão, admitindo a vulnerabilidade e os passos equivocados, encontrando a coragem para criar dias melhores em nossas vidas.

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* Texto publicado no site em 14/11/2013.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alguns dentre vós...

Por MT / Rita Foelker – 14/11/13

Alguns dentre vós, absorvidos pelas questões imediatas da vida terrena e verificando os dramas que se espalham por toda parte, dirigem suas questões ao Criador, mas, sem respostas simples e fáceis, entregam-se à descrença. As imagens chocantes de crianças desnutridas em solo africano lhes inspiram piedade, embora a esta nem sempre se siga qualquer ação no sentido de minorar o sofrimento, sequer, de um próximo mais próximo, daquele que, frequentemente, adormece dia a dia sob o mesmo teto.

Mas as razões que procuramos podem ser compreendidas a partir de um ponto de vista mais elevado. Eis que essas pessoas, crianças e adultos a quem hoje faltam os mínimos meios de manutenção da vida carnal, assim o decidiram, por impositivo da própria consciência, escandalizados por, noutras oportunidades, terem aviltado, malbaratado, comercializado, não uma ou algumas, mas vidas humanas em grande número.

Então, tende piedade desses seres em dificuldades amargamente suportadas, mas tende uma piedade esclarecida, consciente e, sobretudo, ativa. O sofrimento na Terra só pode ser reduzido pela decisão e atitude das criaturas que, com determinação e bom sentimento, inteligentemente começarem, cada qual, a olhar por lentes da caridade para aquele ser que, a cada instante, as divinas oportunidades colocam mais perto de si próprios, sem que sequer necessitem dar um passo e, muito menos, atravessar um oceano.



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ainda tentando ser perfeito(a)?


CURTA LEITURA ESPÍRITA é um canal de relacionamento entre os colaboradores da revista Leitura Espírita e os seus leitores, que objetiva enviar, via email, pequenos textos de conteúdo espírita, inéditos e edificantes, nos mais diversos estilos (crônica, conto, ensaio, crítica, resenha, reflexão...). Se você está cadastrado, já deve estar recebendo nossas mensagens. Esperamos que você curta. Para conhecer a revista, clique aqui.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A importância de considerar diferentes perspectivas

Por Rita Foelker
– Texto inédito

Há sempre uma multiplicidade de perspectivas para cada fato, cada situação, cada ato. Um modo de verificar isso é observar a maneira como pessoas diferentes contam algo que aconteceu. Ou ver o mesmo acontecimento ser noticiado por diferentes telejornais.

A perspectiva altera a percepção das coisas, sendo um aspecto crucial do que se considera conhecimento. A filosofia do conhecimento a enfrenta como um problema interessante. Alguns filósofos – os relativistas – dizem que tudo, em termos de conhecimento, é perspectiva. Nada existe, além dela. Já os essencialistas acreditam que as coisas são algo, em si mesmas, independentes de nossa perspectiva. Mas aqui não vou teorizar sobre a perspectiva, apenas reconhecer que ela existe e que não escapamos dela, nem em considerações teóricas, nem na vida prática.

Na vida prática

Em nosso cotidiano, a percepção da perspectiva é importante.

Primeiro, compreendendo que aquilo que pensamos ou acreditamos ser verdade, é parte da nossa perspectiva pessoal. Não é uma verdade obrigatória para todos.

Depois, valorizando o direito do outro, de ter a sua própria perspectiva, opinião ou apreensão das coisas. Nosso modo de pensar e de ver não é gratuito, ele tem uma história dentro de nós, desde outras encarnações até a nossa educação e o meio em que vivemos. O do outro, idem.

E, enfim, percebendo que a perspectiva influencia nosso humor e nossas ações. Segundo o filósofo estoico Epicteto, “as pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas”...

Mas, se há tantas perspectivas quanto seres conscientes, quais delas devem ser consideradas primordiais? Em minha opinião, duas:

A perspectiva do outro. Numa situação específica, envolvendo outra pessoa ou um grupo, além da nossa própria, é importante buscar entender a perspectiva do(s) outro(s). Não vivemos sós e o que dizemos e fazemos afeta pessoas, em torno de nós. Num diálogo, há duas ou várias perspectivas, mas só será realmente um diálogo se todas ou a maior parte delas for considerada. Caso contrário, teremos apenas um conjunto de monólogos.

Além disso, a consideração da visão do outro também repercute no resultado do diálogo e nas ações subsequentes.

A perspectiva do eu mais elevado. A segunda é a perspectiva do Eu superior, que Paul Brunton chama de “eu mais elevado”, o que bem representa a ideia de observar tudo “do degrau de cima”, de um ponto de vista mais alto, amplo e abrangente. Representa também o ponto de vista do nosso “eu melhor”, daquilo que almejamos como meta de melhoria pessoal e espiritual.

De fato, perante cada situação, temos uma gama de possibilidades de agir, da mais egoísta à mais generosa, da mais explosiva à mais paciente, tudo isso, dentro de nosso espectro evolutivo. Agir com maior bondade e perdão, com maior compreensão e serenidade, dentro desse espectro evolutivo, é agir com nosso melhor, cumprindo o nosso propósito na existência. Segundo Brunton, “o estudante precisa ir ao encontro de cada experiência com a sua mente, lembrando seu relacionamento com o seu eu mais elevado e, consequentemente, o propósito mais elevado de todas as experiências. Nunca deve esquecer a aventura na busca da identidade e da consciência, que a vida é.”

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Só um ego se incomoda com outro ego

Por Rita Foelker – Para o site FEAL

“Teu crítico é que te faz crescer.[1]” Nesta afirmação, o médico e professor espírita Décio Iandoli Jr. faz pensar na crítica, no seu melhor sentido. Mas seria, ela, apenas a chamada “crítica construtiva”, aquela que é feita no intuito de acrescentar, aprimorar?

Vou defender aqui que o conjunto das críticas que constroem pode ser bem maior que o conjunto das críticas feitas com objetivo construtivo. Pois a construção não depende simplesmente de como ela é feita, mas principalmente de como é recebida e aproveitada.

Uma indicação disso se encontra em Provérbios 9:8: “Não repreendas o escarnecedor, para que não te odeie; repreende o sábio, e ele te amará.” Ou seja, na situação de ser criticado, alguém arrogante se aborrece, imagina-se acima da crítica, permanece onde está e nada aprende. Mas a pessoa que compreende o valor do aprimoramento recebe de boa vontade e agradece o crítico, por haver permitido agregar melhorias a sua realização. Por ter tido a chance de pensar melhor e obter um resultado melhor do seu esforço.

Olhando por esse lado, mesmo que uma crítica chegue meio “torta”, pareça indevida ou imerecida, isso não quer dizer que não seja útil. Ela pode nos alertar para algo que não percebemos, para prestarmos mais atenção a aspectos relevantes. Mas isso somente se, no momento exato, esquecermos o ego e nos lembrarmos de usar a humildade que abre a mente e os ouvidos. Só o fato de contar com uma perspectiva diversa pode ser um benefício.

E se alguém argumentar contra, o diálogo pode ser um modo de checar seus próprios argumentos e fortalecê-los.

Claro que, se colocarmos o ego na frente, não conseguiremos ter lucidez e encontraremos um meio de disputar razões com nosso crítico. Mas inteligentemente colocando-o no seu devido lugar, podemos usar aquele momento pra evoluir.

Houve certa vez uma conversa com meu filho, sobre os papéis dos vilões na literatura e cinema. Sem o vilão, seria difícil desenvolver a trama. O vilão existe para o herói poder mostrar quem ele é. Quando o herói responde à ação ou provocação do vilão, ele usa seus poderes, sua inteligência, demonstra as suas qualidades e é confrontado por suas fraquezas. Isso o leva frequentemente a encarar circunstâncias e superar-se, encontrando capacidades ignoradas para vencer o desafio. Encontrar resistência pelo caminho é um jeito de nos fortalecermos e adquirir mais segurança.

De fato, a crítica recebida positivamente pode ser um meio de trazer à tona nosso melhor potencial, ainda adormecido. Não importa de onde veio, com que intenção. Isso mesmo, uma crítica pode não ter sido construtiva na sua origem, mas ainda pode construir.




[1] O trecho pertence ao texto “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, postado no blog Portal Espiritualista. Disponível em http://migre.me/g1bns

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Reencarnação é castigo?*

Há quem pense que aqui retornamos em razão de nossos erros cometidos em vidas passadas

Por Rita Foelker, para revista Leitura Espírita



A reencarnação nos proporciona tempo na Terra, um corpo físico e um meio onde nos desenvolvemos de muitas maneiras e podemos atuar. A chegada de um bebê é geralmente celebrada pelas famílias, com alegria e esperança.
Ao reencarnarmos, somos introduzidos num lugar diferente, não sem problemas e desafios, mas também repleto de belezas e possibilidades. Mas há quem pense e diga que reencarnação é pena, castigo, e que aqui retornamos em razão de nossos erros do passado, para sofrer pelo que fizemos outras pessoas sofrerem.
Não é esta a ideia que se depreende dos textos espíritas fundamentais, aqueles que formam a base da compreensão espírita das coisas, deixados por Kardec para nosso estudo e esclarecimento.

Evoluir com liberdade

“A reencarnação é a volta da alma ou espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo”. Eis o que lemos em O evangelho segundo o espiritismo. Se a reencarnação é volta, significa que é preciso já termos encarnado uma vez, para poder reencarnar. Por que, então, encarnamos pela primeira vez, se ainda não cometemos nenhuma falta para sermos punidos?
A resposta vem de O livro dos espíritos, tratando do “Objetivo da encarnação”: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição.” Dizer que a encarnação é algo imposto, significa dizer que não é uma alternativa ou resultado de nossa conduta, mas que todos os espíritos passam por ela obrigatoriamente. E em O evangelho segundo o espiritismo, Kardec refaz a pergunta: “É um castigo a encarnação e somente os espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?” A resposta do espírito São Luís não deixa dúvida: “A passagem dos espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça.”
Obedecendo à Lei de Justiça, todos recebemos as mesmas oportunidades de desenvolvimento da inteligência, por meio da encarnação, colaborando também com a obra da Criação. Mas trata-se também de oportunidade de exercício da liberdade. Pois continua São Luís. “A encarnação para todos os espíritos, é... uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio.” E logo, passamos a experimentar as consequências de nossa liberdade de escolha, adiantando ou atrasando nossa caminhada evolutiva.
É nesse contexto que aparece, na própria resposta de São Luís, uma referência a “castigo”, ao afirmar que “os [espíritos] que usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo.” Fica então claro que é a repetição indefinida das lições, a demora no aprendizado, que acaba constituindo uma espécie de punição mas, sempre, resultante das próprias escolhas e ações do espírito em questão, sem intervenção de um Deus punitivo.
O comentário de Kardec reforça esta compreensão: “Para o espírito do selvagem, que está apenas no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de ele desenvolver a sua inteligência; contudo, para o homem esclarecido, em quem o senso moral se acha largamente desenvolvido e que é obrigado a percorrer de novo as etapas de uma vida corpórea cheia de angústias, quando já poderia ter chegado ao fim, é um castigo, pela necessidade em que se vê de prolongar sua permanência em mundos inferiores e desgraçados. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente pelo seu progresso moral, além de abreviar o tempo da encarnação material, pode também transpor de uma só vez os degraus intermédios que o separam dos mundos superiores.”

Não existem exceções

Mas mesmo aqueles espíritos que seguiram desde o início o caminho do Bem necessitam reencarnar? Kardec fez esta pergunta aos espíritos, que responderam que “todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”
Há outro propósito ainda, na reencarnação: “o de pôr o espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”
Fica então a pergunta sobre as razões de nosso sofrimento nesta vida e a razão pela qual algumas pessoas parecem destinadas a sofrerem mais que outras. Os espíritos disseram a Kardec que sofremos muitas vezes pelas nossas imperfeições, não pelo que fizemos noutro momento e lugar. “Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”
O que se verifica, então, que a causa do sofrimento está em nós mesmos, em nosso modo de encarar a vida e os desafios, de nos relacionarmos com as pessoas e com a Natureza.

Reconstruindo relacionamentos

De fato, a vida é uma dinâmica, que não leva em conta apenas o que nos acontece, mas como nós reagimos àquilo que nos acontece, e que não pode ser traduzida num esquema simplista de prêmio e castigo.
A reencarnação é um processo que envolve muitos fatores, muitas decisões, muitas emoções e sentimentos que se modificam. O tempo que nos é dado sobre a Terra não é um presente pronto para usar, ele é mais um quebra-cabeça, um jogo de montar. Temos a sensação de que ele às vezes sobra, às vezes parece faltar, mas o fato é que podemos aprender a utilizá-lo tornando nossa vida mais satisfatória ou mais difícil.
Reencarnamos para progredir intelectual e moralmente, desenvolver amor, compaixão, solidariedade, tolerância, paz interior, paciência e outras virtudes. E para cumprir uma tarefa no Universo.
Antes de reencarnarmos, refletimos e, com a ajuda de espíritos mais sábios, traçamos um plano, escolhemos o que queremos desenvolver dentre as nossas muitas necessidades, o que pressupõe um cenário específico. Um meio social. Uma condição física particular. Por isso, algumas pessoas nascem com severas limitações materiais, mas que fazem parte do seu programa evolutivo, da sua proposta de se melhorarem em determinados aspectos. No entanto, a par das condições físicas, financeiras e do meio social desafiador, cabe a cada um de nós, com seu livre-arbítrio, escolher como vai lidar com as situações que encontra, com fé e esperança ou com desânimo, com aceitação ou ressentimento, em paz consigo e com a vida ou, então, em permanente conflito, lembrando que é nas situações-limite, nas dificuldades, que somos incentivados a praticar tudo aquilo que aprendemos e construímos como qualidades de nosso Ser imortal.
Nas muitas reencarnações, reconstruímos relacionamentos que, durante séculos, foram vivenciados em ciclos de vingança, entre ódios e ressentimentos. Não se trata de uma mecânica da lei, simplesmente, mas de um desejo e uma necessidade dos espíritos envolvidos. Ao renascer, somos, então, presenteados com o esquecimento do passado, que facilita a reaproximação de desafetos de outras existências, sem tantas prevenções e reservas, numa nova chance de desenvolver bons sentimentos recíprocos, apagando mágoas. Essas pessoas se encontram hoje próximas de nós, entre nossos amigos, colegas e familiares. E cada vez mais, para viver bem com o próximo, num mundo que chega mais perto de nós a cada dia, graças à tecnologia, vai se fazendo necessário compreender melhor o todo da vida, não apenas nosso pedacinho, nossa tarefa, nosso quadrado.
Então vemos cada vez mais pessoas buscando um sentido para que o viver seja mais que nascer, crescer, estudar, trabalhar, procriar e morrer, que se expande nas palavras de Kardec: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”.
Pode parecer que estamos nos esquecendo da chamada “lei de causa e efeito”. Mas ainda existem as consequências naturais de nossos atos e condutas, o que não existe mais é a ideia de que a causa seria um ato infeliz cometido numa vida e, o efeito, a punição posterior.
Segundo o músico e compositor Herbie Hancock, seguidor de uma doutrina reencarnacionista, o budismo, “o maior objetivo de um ser humano é poder entender o que está acontecendo, se é banquete ou fome, se são coisas agradáveis ou desagradáveis, pegar essas coisas e, de alguma forma, transformá-las em algo de valor.” Um exemplo disso pode ser encontrado com a terapeuta ocupacional estadunidense Christina Stephens, que sofreu uma amputação da perna e construiu para si mesma uma prótese com blocos de Lego.
No final de sua existência terrena, a alma se autoavalia, percebendo o que aprendeu e superou e o que ainda falta desenvolver. E então, noutro tempo, noutro projeto, irá recomeçar em nova encarnação.

Para saber mais:
- Americana constrói uma prótese de perna feita de Lego para si mesma. Por Carolina Vilaverde para o blog da Revista Super Interessante, 02/07/13. http://abr.io/IuYL

Reencarnação e comprovação
Desde o século 19 há importantes pesquisas sobre reencarnação entre estudiosos que não são somente espíritas. Há importantes resultados que a confirmam. Em 1910, foi publicada a primeira edição de As vidas sucessivas, de Albert de Rochas, contendo importantes evidências das vidas anteriores. Recentemente, cientistas como Ian Stevenson e Brian Weiss defendem a teoria reencarnacionista, que já é aceita há milênios pelos seguidores do hinduísmo, jainismo, budismo, entre outros, e presente na filosofia de Sócrates e Platão (séc. 5 a. C.).
Muitos argumentos contrários à reencarnação são bem fracos. Cientistas apontam como falha da tese reencarnacionista o fato da população do mundo ter aumentado. Segundo o blog Hypescience (A realidade da reencarnação, postado em 27/04/09), “por volta de 1800 havia apenas 1 bilhão de pessoas no mundo. Agora estima-se que estejamos perto dos 7 bilhões. De onde as novas 6 bilhões de almas surgiram nos últimos 200 anos? Será que nossos ancestrais tinham seis almas adicionais dentro deles?” Esse argumento desconsidera a população desencarnada que também participa da humanidade terrena e, mesmo, as migrações entre planetas.
“Outra questão é: por que há tantas pessoas no mundo que dizem serem as reencarnações de pessoas famosas? Afinal, nos dias de hoje, há várias Cleópatras, Joanas D´Arc e muitos Napoleões e, com certeza, mais de um Jesus.” Que significa? Que há pessoas equivocadas, acreditando que são reencarnações de famosos. Imaginação e crença pessoais não invalidam os casos reais de reencarnação e, muito menos, a própria reencarnação. (Redação)
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*Texto publicado originalmente na Edição 14 da Revista Leitura Espírita, de Julho/Agosto 2013.