terça-feira, 3 de abril de 2012

Ver

Visão coletiva, pintura de Alex Grey.
www.alexgrey.com
Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker

A consciência tem sido simbolizada em arte, cultura e religião, pela imagem de um olho. Também o Criador Supremo, em alguns simbolismos, é pensado como "olho que tudo vê", que se relaciona ao significado de 'onisciente' (= que tudo conhece)*.
Visão, visionário, e a popular "visagem", são termos aplicados a situações de percepção além dos sentidos materiais, no que condizem com a ideia de "tornar-se consciente de", desvelar, descobrir, no caso, algo em uma dimensão extrafísica. Passar de um estado de ignorância espiritual ao de conhecimento.
E, de fato, as visões são comumente traduzidas por imagens vistas pelo visionário. Cores, figuras, formas geométricas, lugares e pessoas são descritos. Contudo, essas imagens, embora possuam significado a ser eventualmente desvendado, não traduzem obrigatoriamente a visão real de coisas que existem do modo como são vistas.
Imagens, nesse contexto, podem não ser registros de situações reais.
Num primeiro caso, imagens também são recursos da mente para sintetizar ideias. Imagens podem ser arquétipos coletivos de origem imemorial. A mente recorre aos seus registros desta e doutras vidas para apresentar ao visionário analogias ou vestimentas para aquilo que ele vê mas não pode ser "materializado", quando o que percebe não teria forma visível, nem poderia ser traduzido nos termos com que está habituado.
Mas existe outro tipo de visão, aquelas que são frutos de criações de seres encarnados e desencarnados usando aquilo que se chama às vezes de 'matéria sutil', matéria indetectável pelos sentidos, suscetível de ser moldada por força da imaginação e da vontade. É matéria do tipo que transmite os pensamentos e que auxilia na cura de doenças, incluindo-se as físicas, podendo ser percebida pelos sentidos da alma.
Outro uso correto da palavra "ver" no sentido de ver "espiritualmente", contudo, é conhecido e muito utilizado pelas pessoas que despertaram para sua espiritualidade. São os sinais materiais que, embora possam estar muitas vezes patentes, não são percebidos pela maioria dos seres adormecidos, entorpecidos pela ação da matéria densa. Pois é preciso estar desperto para a espiritualidade para ser capaz de ver esses sinais: o balançar de uma folha, a cor de uma nuvem, o som da água podem ser mensageiros de conceitos muito profundos e sinais de fatos que estão por vir. Nesse caso, embora o que se vê seja um fato dito "material", o seu sentido só é apreendido por quem desenvolveu sua visão espiritual.
Compreendendo que há interrelações entre os aspectos materialmente visíveis e invisíveis da realidade, surge a ideia de ser capaz de "ver o invisível através do visível", em situações de profundo aprendizado pessoal e compreensão ampliada da vida.
Há pessoas que veem desse modo. Esta contudo não é a regra, embora seja uma habilidade passível de aprendizado. Ainda hoje, no mundo da matéria, os seres parecem ver ainda muito pouco, muito pouco mesmo, além de seus desejos egoístas e necessidades de satisfação pessoal.
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*N.M.: Scire, em latim, significa 'saber'.

Meu credo reverso

Por Rita Foelker

Liberdade de crença é um dos aspectos da liberdade individual, garantido também no texto constitucional do nosso país. Liberdade de crença implica liberdade de descrença, pois ter a liberdade de crer só é um direito completo se incluir a liberdade de não crer.
Dessa liberdade, advém a necessidade do respeito à crença alheia, especialmente se ela é distinta da própria. Por respeito à liberdade, então, respeito a crença dos demais seres humanos, sendo ela coincidente ou semelhante à minha, mas sobretudo quando se mostra diferente.
Aprecio igualmente o respeito às minhas crenças, bem como minha descrença nas ideias a que, ao menos por hora, minha razão e sensibilidade ainda recusam crédito.
Estive listando mentalmente as coisas em que não creio e acabei escrevendo este credo reverso:
  1. Não acredito em nada que contrarie frontalmente a razão e a lógica mais elementares. Acredito no poder da razão, porém, até certo ponto: desde que adstrito ao nosso grau de desenvolvimento intelecto-moral. Portanto sou capaz de acreditar também em explicações além da razão e do entendimento, emanadas de inteligências mais desenvolvidas que as nossas. 
  2. Não acredito que qualquer fato, por mais insignificante que pareça, tenha explicações exclusivamente materiais, sejam físicas, genéticas ou ambientais. Não acredito que o acaso possa explicar qualquer coisa ou evento em qualquer situação.
  3. Não acredito em cultura espiritual por si própria, acredito em progresso integral das criaturas. Ou seu conhecimento muda você, ou está incubado para transformações futuras... ou serve apenas para se exibir perante os outros.
  4. Não acredito em educação praticada para gente sentada em carteiras, com giz e lousa. Também não acredito em educação com gente sentada perante tecnologia de ponta, clicando botões. 
  5. Não acredito em crianças índigo, nem cristal. Todas as crianças são mestras e aprendizes.
  6. Não acredito que os tatuados vão para lugares segregados no mundo espiritual. Nossa pele física fica aqui quanto partimos. O desenvolvimento moral é que define nosso futuro após a morte do corpo. 
  7. Não acredito que a Terra seja o único planeta com vida e acredito que muitos de nós viemos de outros planetas.

Li muita coisa boa e instrutiva ao longo da vida, mas minha base e fundamento continua sendo a Filosofia Espírita, aprendida e refletida em leituras, estudos, palestras, seminários, mas sobretudo confirmada em minhas vivências. Assim, em geral, costumo aceitar a possibilidade dos fatos inexplicados e conceitos que não sejam incompatíveis com esta filosofia, mas ela me serve como medida e pedra de toque há cerca de 30 anos, nesta vida terrestre.

sábado, 31 de março de 2012

Ir


Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker



"Ir" é uma palavra cujo significado não é originário do mundo espiritual, mas os visionários e os seguidores sempre pensaram na jornada espiritual como um modo de ir.
Ir é uma ideia que só faz sentido num contexto onde a dimensão espaço-temporal foi configurada e onde seres receberam corpos para percorrê-la. Foi percorrendo planícies e estradas, viajando no dia e na noite, indo para o Norte ou para o Oeste, subindo ou descendo, que os seres aprenderam a usar esses termos para se referirem ao caminho espiritual.
O caminho espiritual, porém, está estritamente relacionado a 'ser' – onde quer que se esteja. E cada criatura que você encontra – a mulher de chapéu na cabeça, o moço de bicicleta, o engravatado – cada criatura pode pensar que sua jornada é uma questão de ir ao mercado, ao passeio ou trabalho, mas tudo não passa de uma questão de ser.
A vida no mundo do espaço-tempo cria analogias para a caminhada fácil e a caminhada difícil, para seguir até o centro ou dele afastar-se, para buscar paz ou confusão, e tudo isto dá ideia de que se está indo a algum lugar fora, mais fácil ou mais difícil de se alcançar.
Mas isto é uma grande ilusão, porque onde quer que o caminhante esteja, entre o Leste e o Oeste, entre o Sul e o Norte, há o ponto central de sua vida localizado em si mesmo, onde ele decide (ou descobre) quem ele realmente é, e a partir daí nada mais ao redor parece o mesmo.
Olhai, então, cada caminhante ao seu lado como uma essência a caminho da descoberta de si mesmo, cada um pensando para onde vai, tomando decisões mais ou menos relevantes para seu futuro, mas caminhando para a mesma descoberta e decisão sobre si, reservada a todos os seres de todos os planos.
Na Terra, pode-se estar perdido no caminho, o que significa “esquecido” na dimensão do ser. E quem se lembra pode, então, auxiliar quem ainda precisa se lembrar de quem é. Aqueles que se lembram não são, por esse motivo, diferentes ou especiais, eles apenas lembram do que alguém esqueceu, como a chave que liga o carro ou o endereço de certo destino.

sábado, 17 de março de 2012

A teia da mente II

Por Aymará (Esp.) / Rita Foelker

Nos dias que passam, você próprio pode saber que é um prisioneiro da teia da mente.
Você percebe isso por meio dos pensamentos que o capturam e o engolem.
Eles vêm de um lugar que não se consegue identificar, porque é como se estivessem de tocaia aguardando sua distração para atacar. E então eles agarram você de modo certeiro, tornando-se o centro de sua vida e desequilibrando todo o seu sistema, pois o centro de sua vida era para ser a busca da sua alma e, não, a confusão da sua mente.
E quando você se esquece da busca da sua alma, é que você é pego ou pega.
A vida centralizada na confusão da mente é uma vida estranha, insegura e repleta de sobressaltos que assomam aos pequenos incômodos da experiência na Terra. A vida centrada na busca da alma é sempre serena e consciente da luz que mostra o caminho.
O modo de lidar com pensamentos captores, portanto, é saber, não de onde vem o atacante (o que em geral não é possível nesse estado mental), mas o que distrai você da busca da sua alma.
E o que distrai é a sua distância de si mesmo. Porque uma pessoa pode viver a milhares de milhas de si mesma e ainda sobreviver, porém, quanto mais longe, mais fracos os sinais, mais difícil a conexão. Então você precisa de um modo de reaproximar-se de si mesmo e de retomar a busca da sua alma.
Os antigos têm feito isso pelos meios mais conhecidos de alcançar o transe. Mas de fato não há nenhuma garantia de que o transe o leve para o centro de si mesmo, exceto se você desejar humildemente e se sinceramente pedir ao Grande Espírito (Viracocha, Deus, a força superior e bem supremo a tudo, o poder em que você acredita com o nome pelo qual costuma chamá-lo) que o conduza. Mas então, você abre mão do comando, que geralmente já foi entregue à confusão da mente que domina você e faz você crer que tem o controle. E se coloca sob o controle desse poder supremo.
Essa condição é facilmente reconhecível, porque seu amor preenche todos os espaços do espaço e todos os tempos do tempo e lhe permite a perspectiva de infinitude e imortalidade que somente a alma alcança. Ele lhe dará a sensação de ser um com tudo sem deixar de ser você. Ele lhe mostrará a verdadeira importância ou desimportância do seu ruminar cotidiano de pensamentos.
Só assim você pode se prevenir da distração que o torna presa de seus pensamentos e preocupações. Ele lhe dará a visão do tamanho verdadeiro de cada coisa. Ele poderá até ajudá-lo a cuidar dos seus problemas e preocupações, não como um homúnculo diante do maremoto, mas como um pássaro indômito.
O que o preocupa? O que o captura? A natureza dos pensamentos que o capturam serve para que você aprenda sobre onde é premente que se fortaleça. Sua ação tem uma utilidade.
Então, aprenda a usar a sua mente a seu favor e ela irá servir-lhe de ferramenta e escudo, ferramenta para construir-se como um ser mais elevado e escudo para deixar de ser ferido em suas próprias regiões mais frágeis, enquanto não se torna um ser mais fortalecido.


Leia também: A teia da mente.

sábado, 10 de março de 2012

Natureza e sobrenatureza*

Por Rita Foelker

Imagem: Associação Mata Ciliar
O ser humano pertence à natureza ou é uma criatura à parte (talvez, acima dela)? O que a filosofia espírita pensa a respeito? Quais as consequências desse pensamento para o mundo de hoje?

Edgar Morin, abre o primeiro capítulo do livro O paradigma perdido: a natureza humana[i] com algumas reflexões inquietantes. Ele fala de como o ser humano usou seu conhecimento para se destacar da natureza e reduzi-la a objeto, domesticá-la, dominá-la.
Confinamos animais em jaulas; os diferentes, em reservas; edificamos nossas cidades em pedra e aço, fomos ao espaço, compusemos sinfonias e, por algum mecanismo psicológico que persistiu por séculos, passamos a nos acreditar seres sobrenaturais (acima ou fora da Natureza), segundo Morin. Não creio que esta afirmação precise ser comprovada.
Descartes, filósofo da Idade Moderna, começou esse movimento na filosofia ocidental, em suas Meditações metafísicas. Por meio de seu solilóquio que narra as suas dúvidas e sua busca de clareza e distinção do conhecimento, o filósofo aparece isolado das coisas que são objeto de sua investigação. Ele contempla o mundo exterior, cuja existência tenta provar, e passa a enxergar-se como sujeito que visa objetos totalmente separados de si mesmo, os quais pode conhecer e manipular. Morin observa que foi a partir dessas ideias de Descartes que aprendemos a pensar "contra a Natureza", assumindo a missão de subjugá-la e dominá-la como algo a que não pertencemos. Afinal, ela seria apenas uma coisa e nós seríamos seres inteligentes e independentes do que ocorrer com ela.


Modos de ver e de agir

Observamos, hoje em dia, os efeitos perniciosos dessa visão fragmentada da realidade em duas camadas superpostas: sujeito/objeto, homem/natureza, dominador/dominado, eu/os outros. Tal ideia de separação e fragmentação tomou conta de nossos pensamentos e nos tornou reféns de uma concepção equivocada da existência, a qual é importante rever, por razões a seguir.
Outros autores, como David Bohm, observam as dificuldades que essa visão de mundo oferece ao bem estar da humanidade, ao próprio equilíbrio ecológico, comprometendo nossa sobrevivência como espécie. Em Sobre a criatividade, Bohm escreve: “Consideremos, por exemplo, a questão do estabelecimento de um equilíbrio ecológico apropriado. Isso exige que o mundo inteiro, com toda a atividade humana, seja considerado uma unidade integral e contínua. Se as pessoas que estudam ecologia e tentam aplicar seu conhecimento, sem saber, estão comprometidas com interesses econômicos, políticos, sociais ou nacionais próprios ou de seus grupos, como poderiam permitir que o universal seja prioridade em seus pensamentos? Inevitavelmente haverá pressões e uma tendência contínua a se pensar de modo fragmentário, apropriado à necessidade de colocar os interesses individuais em primeiro lugar. E não será possível pensar sobre esse assunto e falar sobre aspectos relevantes à totalidade dos ciclos ecológicos do planeta”[ii].
Quando me percebo pertencendo ao todo da Natureza, penso, sinto e ajo de certa forma; quando me ponho à distância dela, muda meu sentir, meu pensar e minha ação. Ou seja: partindo do que Bohm escreve, temos consequências positivas de se passar a considerar a Natureza como um todo interdependente e a nós mesmos como partes dela.


Visão na filosofia espírita

Aqui, talvez surpreendentemente, encontraremos um ponto onde a filosofia espírita também já estava adiante de seu tempo, no século XIX: a ideia de que tudo pertence à Natureza – incluindo-se os espíritos – e de que não existe nada que seja sobrenatural, pois todas as leis e todos os seres são naturais, e todos os fenômenos se explicam por causas naturais.
No item 10 do capítulo 2 de O livro dos médiuns, lemos que “aos olhos daqueles que veem na matéria a única potência da Natureza, tudo o que não pode ser explicado pelas leis materiais é maravilhoso ou sobrenatural.” Quer dizer que a origem da ideia de uma “sobrenatureza” é atribuída às crenças materialistas. Em sua percepção da realidade, contudo, a doutrina espírita inovava quando se propunha a explicar os próprios fenômenos mediúnicos como efeitos de causas naturais, ainda que desconhecidas ou invisíveis. De acordo com ela, não há nada que não pertença à Natureza, enquanto Criação divina.
À época e ainda hoje, a religião era e continua sendo uma das instituições que vê na matéria a “única potência da Natureza”, por isso chama de sobrenatural tudo o que não pode ser explicado materialmente. O espírito é um ser à parte. Essa mesma religião contribuiu, portanto, para uma visão cindida do mundo, enquanto a filosofia espírita propunha uma visão integrada.
Essa noção espírita é reforçada pelo exposto sobre as “Ocupações e missões dos espíritos”, no capítulo 10 da 2ª parte de O livro dos espíritos. A questão 558 indaga se há algo mais que cabe aos espíritos fazerem, além de progredir individualmente. A resposta é que “eles concorrem para a harmonia do Universo ao executar os desígnios de Deus”. A missão dos espíritos encarnados, segundo a questão 573, consiste em “instruir os homens, ajudar em seu adiantamento, melhorar suas instituições pelos meios diretos e materiais; mas as missões são mais ou menos gerais e importantes: aquele que cultiva a terra realiza uma missão, como aquele que governa ou que instrui. Tudo se encadeia na Natureza; ao mesmo tempo que o Espírito se depura pela encarnação, concorre, dessa forma, para a realização dos desígnios da Providência. Cada um tem sua missão na Terra, cada um pode ser útil para alguma coisa”.
Uma visão de Natureza na qual tudo se encadeia, interage e interdepende, como a presente nas obras básicas do espiritismo, é o caminho para as decisões que afetarão positivamente a humanidade, o meio ambiente e o planeta. Stanislav e Christina Grof[iii] observam que tal visão é um item fundamental para as mudanças que precisam acontecer em nossa forma de pensar, decidir e agir. “Uma nova compreensão da unidade de todas as coisas (...) resulta em preocupações fortemente ecológicas e em maior tolerância para com os demais seres humanos. A consideração para com a humanidade, a compaixão por todas as formas de vida e o raciocínio que leva em conta todo o planeta assumem prioridade em relação aos estreitos interesses individuais, familiares, político-partidários, classistas, nacionais e sectários. O que nos une a todos e o que temos em comum tornam-se mais importantes que nossas diferenças, que são vistas mais como enriquecedoras que ameaçadoras”.
Os pensamentos e decisões que visam ao todo, que repousam sobre a compreensão da unidade da Natureza e o respeito a todas as criaturas, têm lugar na filosofia espírita desde a segunda metade do século XIX, mas ainda precisam participar mais efetivamente de nossas vidas cotidianas, de nossas pequenas e grandes escolhas. É preciso avançar na percepção das decorrências dessa noção de pertença e responsabilidade de cada ser perante a Natureza e a vida.

Pensar contra a Natureza

Um dos sintomas contemporâneos de nossa forma de pensar contra a Natureza é o tipo de imposição de padrões artificiais de beleza exercida sobre as mulheres, ainda que seja tudo uma grande fantasia, visto que há limites para as alterações físicas que podemos fazer em nós mesmos.
Isso leva muitas mulheres a atitudes contrárias à sua própria saúde orgânica e psicológica, gerando distúrbios gravíssimos.



[i] Lisboa: Publicações Europa-América, 1973.
[ii] BOHM, David. Sobre a criatividade. São Paulo: Unesp, 2011. p.72.
[iii] WALSH, Roger. Caminhos além do ego. São Paulo: Cultrix, 1997. p.236.

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* Texto publicado originalmente no site da FEAL - Fundação Espírita André Luiz - em Março de 2012.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Variações de humor


Por Gilberto (Esp.)/Rita Foelker


Um dos sintomas da mediunidade que aflora e um dos percalços com que podem se deparar, mesmo os médiuns mais experimentados, é o das variações de humor.
Isto se explica: dentro da impressionabilidade dos médiuns, em geral, o campo das emoções é o mais sujeito a influências que lhe alterem os padrões. Ainda quando não seja possível transmissão de conteúdos, de pensamentos concatenados, nossas emoções podem ser influenciadas com muita facilidade, modificando o nosso estado geral.
Como, via de regra, entre os Espíritos perturbadores, o campo emocional é o mais comprometido, a simples proximidade, uma mínima assimilação dos fluídos emanados por estas criaturas pode afetar o médium de forma sutil ou mesmo fortemente.
Acresce o fato de que a maioria dos encarnados tem pouco conhecimento e domínio das próprias emoções, tornando-se incapazes de perceber-lhes as mudanças e atribuir-lhes as verdadeiras causas.
Por isso é imprescindível que os médiuns que desejem encarar com seriedade o compromisso mediúnico e habilitar-se ao serviço em reuniões de socorro ou instrução iniciem o quanto antes o exercício da auto-observação, da autoanálise, da percepção de seus padrões emocionais diários e daquilo que pode alterá-los, formando um conceito mais ou menos preciso das suas variações mais comuns. Mudanças de humor sem causa aparente (irritação, apatia, depressão, euforia) podem resultar da aproximação e sintonia com Espíritos diversos. 
Às vezes, pode ser simples atuação de criaturas que conosco simpatizam ou antipatizam. Outras vezes, sobretudo no dia ou na véspera da reunião mediúnica, pode ser uma providência dos Dirigentes Espirituais, que começam a trabalhar na ligação fluídica para facilitar o processo da comunicação, quando chegar a hora.
Em qualquer dos casos, é recomendável que o médium esteja ciente e aja de modo a cooperar, quando for o caso, mas sem desarmonizar-se consigo mesmo nem prejudicar-se nas suas ocupações normais.

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A série ABC da Prática Mediúnica encerra-se com este post. Para acessar todos os posts, é só buscar o título da série na coluna à esquerda, entre os marcadores. Clique e acesse, lembrando que o primeiro foi Afinidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Deus não é uma pessoa*


Hopetoun Falls, Austrália
Por Rita Foelker

“Não creio no Deus que recompensa o bem e castiga o mal. Meu Deus cria leis que se encarregam disso. Seu Universo não é regido por ideias em que se deseja acreditar, mas por leis imutáveis” (EINSTEIN, apud JAMMER, 2011, p. 97). Estas linhas, que bem poderiam ter sido escritas por um espírita conhecedor dos princípios do Espiritismo, são de autoria de Albert Einstein (1879-1955) e constam numa entrevista concedida em 1954.
De fato, Einstein era um admirador assumido da filosofia de Espinosa (1632-1677), conhecido pelo seu pensamento panteísta. O panteísmo é uma doutrina que afirma ser Deus, o conjunto de tudo o que existe. Kardec indagou os Espíritos sobre o panteísmo, recebendo deles, como resposta, a noção de Deus sendo um ente distinto, o que nega a concepção panteísta. Segundo o Espiritismo, Deus é causa e, não, efeito, não podendo com este se confundir.
Também não é um consenso que Einstein acreditasse nessa doutrina.
Feita esta ressalva, recordamos de que o panteísmo não foi a principal razão das críticas que se levantaram contra a visão de Einstein sobre Deus. As muitas controvérsias geradas pelo seu artigo “Ciência e religião” (Science and Religion), publicado em 1940, que levaram a repetidos esclarecimentos de sua parte, respostas a cartas e declarações indignadas de religiosos diversos provieram, especialmente, da sua compreensão de um Deus impessoal, que levaria a uma visão de religiosidade distinta daquela predominante na religião institucionalizada. Esta religiosidade se traduzia como a “emoção do mistério”, que se encontra na verdadeira origem da arte e da ciência, gerando reverência e humildade.
Sua opinião era refletida e não se modificou com o passar dos anos. Em dezembro de 1952, ele receberia de uma senhora de São Francisco, Califórnia, um pergunta muito direta: “qual é a sua crença sobre Deus?” A resposta do cientista foi: “a ideia de um Deus pessoal me é completamente estranha e até me parece ingênua” (JAMMER, 2011, p.96).

Deus pessoal

Einstein (1966, apud JAMMER, 2011, p.62) afirmaria em seu ensaio “Aquilo em que acredito”: “Não consigo conceber um Deus que premie e castigue suas criaturas, ou que tenha uma vontade semelhante à que experimentamos em nós.” Ou seja, num Deus pessoal.
Alguns de seus críticos confundiram sua negação do Deus pessoal com uma negação da própria existência de Deus. Outros, porém, manifestaram suas razões para discordância, como foi o caso dos comentários escritos por sacerdotes de diversas religiões para o jornal Hudson Dispatch, de Nova York. O padre Joseph Antliff afirmaria que não leu a matéria, mas que “a concepção que qualquer Deus que não seja pessoal contraria os ensinamentos da igreja católica” (JAMMER, 2011, p.79). O rabino Cohen diria que Einstein “coloca o Ser Supremo tão remotamente distante da esfera da compreensão humana, que torna desprezível Sua influência” (id., ibid.).
O que Einstein propõe com seu Deus impessoal, contudo, pode ser entendido a partir da concepção espírita, segundo a qual Deus é imutável, sua inteligência projetou e sua vontade originou este Universo que funciona perfeitamente desde a sua origem, sendo que ele não age intempestivamente, castigando ou premiando, ofendendo-se ou perdoando, mas apenas expressa sua bondade e justiça infinitas em todos os níveis observáveis e não observáveis de sua Criação, pela perfeição de suas leis.
Os termos que os Espíritos da Codificação utilizam para definir Deus, na primeira questão de O Livro dos Espíritos não o identificam como uma pessoa, mas como “inteligência suprema” e como “causa primeira”, cuja grandeza se reflete nas maiores realizações e nos mais ínfimos detalhes do Cosmos.
Entre as análises feitas das ideias de Einstein no polêmico artigo, destacou-se a que Paul Tillich efetuou em “A ideia de um Deus pessoal” (The idea of a personal God), pela sua profundidade e conclusão plausível. Tillich considera que o mais forte argumento de Einstein em favor de sua posição é a de que um Deus pessoal é incompatível com a interpretação científica da Natureza. Segundo Tillich, “o conceito de um “Deus Pessoal”, que interfere nos eventos naturais, ou que é “uma causa independente dos eventos naturais” faz de Deus um objeto natural ao lado de outros, um objeto entre os objetos, um ser entre os seres, talvez o mais elevado, mas de qualquer forma um ser. Isso, sim, é a destruição, não só do sistema físico, mas, sobretudo, a destruição de qualquer ideia significativa de Deus” (TILLICH, 2012). No que se refere à interpretação científica da Natureza, outros físicos contemporâneos escreveram sobre sua experiência com o mistério por detrás da ordem cósmica. Max Planck, a propósito, encontra o que ele chamou de “ordem cósmica”, enquanto Werner Heisenberg denominou “ordem central”, e David Bohm, “ordem implicada”.
Tillich então conclui que a ideia de um “Deus pessoal” não é um algo em si, mas um símbolo que remete a uma realidade que transcende a nossa capacidade de pensar e conceituar. Fala-se de um Deus pessoal, como se ele fosse “alguém”, pela incapacidade de se compreender aquilo que Deus verdadeiramente é. Mas esse Deus pessoal não existe, ele é só um “jeito de falar e pensar” Deus.

Referências

EINSTEIN, Albert. Science and religion. 
JAMMER, Max. Einstein e a religião: física e teologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.
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* Texto publicado no site da FEAL - Fundação Espírita André Luiz, em 08/02/2012
Imagem: Wikipedia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Estados não ordinários de consciência, segundo Grof


Stanislav Grof, autor de Psicologia do Futuro, entre outras obras, explica de maneira clara e direta o que são os "estados não ordinários de consciência" e sua importância do ponto de vista espiritual, pessoal, terapêutico, social, cultural e global.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Utilidade, verdade e bondade


Por Gilberto (Esp.)/Rita Foelker

Uma das questões mais importantes das reuniões mediúnicas é avaliar as comunicações recebidas. A mediunidade é um canal aberto à expressão das mais diferentes ideias, provenientes dos Espíritos distribuídos entre diferentes graus evolutivos, os quais se pode conhecer pela Escala Espírita1.
Apenas o desejo de receber boas comunicações e a boa intenção não se mostram suficientes para garantir a seriedade dos Espíritos e a veracidade do que trazem.
Distante de conhecimentos básicos dos princípios que regem a vida espiritual, qualquer grupo pode se enganar quanto ao valor das mensagens que recebe.
Portanto, aos grupos mediúnicos não podem faltar os critérios mínimos de análise das mensagens. E quais seriam estes critérios, os quais confeririam segurança de poder decidir pela aceitação ou não das opiniões e orientações emitidas por via mediúnica?
Vamos recorrer à sabedoria de Sócrates, homenageada pela crônica do Irmão X intitulada “Os Três Crivos”2. Podemos aplicar, então como critérios:
Utilidade. Os Espíritos elevados somente se comunicam para transmitir informações e orientações úteis, não desperdiçando oportunidades preciosas com palavras repetitivas e mensagens óbvias. Quando vêm a nós, colimam um objetivo, seguindo até ele de forma clara. Não elogiam inutilmente, mas trazem palavras de estímulo aos que abraçam a tarefa com dedicação e sinceridade. Suas mensagens sempre apresentam um fim prático.
Verdade. Também trazem a verdade para nos aproximar da verdade. Suas proposições sempre suportam o exame da lógica e a confrontação com os fatos. A verdade é o espelho do pensamento dirigido ao Bem, no qual não teme contemplar-se. As suas mensagens sempre satisfazem à Razão, constituindo-se em exemplos de bom senso.
Bondade. As palavras dos Benfeitores Espirituais vêm sempre coroadas pelo halo do Amor. Suas orientações não buscam dividir as criaturas, porém uni-las; não ressaltam seus “defeitos”, mas fazem descobrir qualidades; sempre visam confortar o coração criando proximidade, e não distanciamento. E são sempre expressões do mais elevado Sentimento.
Não desejamos substituir as recomendações de Kardec, que sempre se fazem oportunas aos grupos que encaram com seriedade o compromisso que assumiram. Apenas resumimos, no intuito de destacar sua essência e reafirmar sua importância para tantos quantos se dedicam aos labores da mediunidade.

1 (Nota da Médium) Ver O Livro dos Espíritos, questão 100 – Escala Espírita.
2 (N. M.)Ver o livro Cartas e Crônicas, do Irmão X, Edição FEB.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A teia da mente

Por Aymará (Esp.)/ Rita Foelker

A mente é uma aranha tentando construir uma teia e sobreviver.
Não importa de que tamanho ela seja, seu poder é amplo.
Faminta ao caçar, a pequena aranha nem sempre distingue entre o que é realidade e o que é ilusão. Sua ânsia é capturar e envolver na sua rede, nos seus fios fortes, a presa, para depois cortar em pequenos pedaços, deglutir e digerir aos poucos, segundo sua capacidade. E esta ânsia é tudo o que ela conhece.
A mente às vezes cresce e engorda muito com as suas ilusões, tornando-se pesada e pouco ágil, o que a faz apegada à sua posição e ao seu conteúdo. E é aí que ela deixa de fazer armadilhas apenas para as ilusões e realidades e constrói uma prisão para o seu senhor.
Os prisioneiros da mente aí estão por toda parte. Descubra o mais cedo possível se não está entre eles.
A aranha é boa, ela é a tecelã do saber. Mas torne-a sua amiga e, nunca, sua inimiga.

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Imagem: Doris Teixeira (tecendosonhoscomvoce.blogspot.com)